Armando Silva Carvalho – Perfil de sombras repentinas

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Por Floriano Martins

NOTA DE EDIÇÃO | O texto a seguir foi escrito como prefácio do livro Armas brancas e outros poemas, de Armando Silva Carvalho. Organização de Floriano Martins para a Coleção Ponte Velha da Escrituras Editora. São Paulo, 2006.

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Lemos em um poema de Armando Silva Carvalho: “Honra os destroços. Cobre-te com eles.” A máxima com que finaliza este poema de Sentimento dum acidental (1981) cabe aqui como epígrafe a estas minhas breves anotações sobre sua poesia. É possível evocar sua ironia implacável, certo sarcasmo com que advoga em favor da realidade quando esta se sente apenas idealizada pelo poeta. Este é um bom tema para se iniciar a leitura deste poeta, sem desconsiderar que o enunciado não se sustenta sem a precisão da linguagem.

Armando Silva Carvalho (Portugal, 1938) compôs já um conjunto de obra – refiro-me aqui à poesia, sendo ele também narrador e tradutor – em que a idealização de um discurso ou um mero malabarismo sintático não podem ser aceitos como atributos, isolados, que justifiquem uma poética. Lida com ambos os aspectos – seja ao acidentar a linguagem com um léxico desconcertante, surpreendente por seus deslocamentos conceituais de praxe, seja pela veemência de seus comentários –, porém o faz em um sentido alquímico, de mesclar tais recursos para que atendam somente quando misturados.

Advém daí alguns riscos naturais, que se pode observar apontados em críticas a alguns de seus livros. Quando da publicação de Sol a sol (2005), por exemplo, Pedro Mexia fala em um “biografismo desenfreado”,[1] o que pode ser confundido com o derrame confessional que por vezes inúmeras afasta o leitor do poema. A rigor, trata-se de um biografismo de sua presença e não ausência no mundo, o poeta marcado e acumulado pela experiência pessoal na medida em que esta o define como ser humano. E o faz com tanto esmero e ciência dos riscos a ponto de ironizar a si mesmo, assumir a voz de outros personagens, dentro do espírito de uma modulação paródica tão bem percebida por outro crítico, Manuel de Freitas.

Este crítico, em comentário a Lisboas (2000), salienta a “vocação satírica” de Armando Silva Carvalho, mas atenta, sobretudo, para o “modo extremamente despojado como nesse livro a melancolia se sobrepunha a qualquer escape humorístico”.[2] Ao destacar o burlesco, o poeta pode detectar um ideário de desastres cotidianos, equívocos domésticos, infecções da linguagem etc. Escapa inclusive, astuciosamente, da presença de outro risco, o de ver-se confundido com um tradicional discurso de lamentos.

Outro aspecto a ser mencionado diz respeito à forma com que o poeta anota seus temas, o recurso narrativo injetado nas veias do lírico, a imaginação fundindo-se com o conhecimento e sua saturação cotidiana. Acerta inteiramente António Carlos Cortez ao dizer, em resenha a Sol a sol, que se trata de uma “poesia que se não esquece das potencialidades da prosa”.[3] A imagem poética aqui se encontra mesclada não propriamente com o confessionário cronológico, a pauta lacrimejante de um diário, mas antes como uma percepção do valor intrínseco das contradições que regem nossa existência. Ao escrever sobre este mesmo livro, Eduardo Prado Coelho frisou outro aspecto curioso, de que Armando Silva Carvalho freqüenta a máxima como um recurso atípico, “onde o lado figurativo predomina sobre a mensagem moral”.

Temos assim características listadas que dão pela presença de uma grande poesia. Um último aspecto tópico a ser mencionado diz respeito ao diálogo com a tradição lírica de seu país. As identificações da parte da crítica aludem acertadamente a pares próximos no tempo, que vão de Alexandre O’Neill (1924-1986) a Luís Miguel Nava (1957-1995). São duas aproximações valiosas, em que a memória do vivido se expressa de forma pungente. Os aspectos todos aqui somados facilmente exageram a admiração que possamos ter por um determinado poeta. É um dos riscos da crítica de poesia, o de forjar uma realidade que não corresponde à leitura do poema. A rigor, não importa o que se diga sobre um poeta, se o leitor não se descobre afim do que diante de si se revela à leitura de um poema.

Em uma entrevista a Ana Marques Gastão, por ocasião da publicação de Sol a sol, o poeta nos esclarece:

Quero que fique bem definido que não embarco nada nessas teorias da transubstanciação do texto com que alguma gente anda por aí a incensar certas escritas de forma obstinada e religiosa. O texto não faz nem refaz o mundo. Quando muito pode fazer surgir um mundo de fulgor que, obviamente, nunca vai além do texto que o segrega. A vida é a vida, a palavra é palavra. A fusão da vida pela palavra é uma forma indireta de viver, e até pode ser que seja a mais rica de sensações. Não é por meio do mais fascinante tecido poético que o texto se faz mundo em totalidade majestática e intemporal. E não saindo do texto, do meu, se os seres desaparecem nele, é porque já começaram a desaparecer duma forma de vida que não corresponde à minha noção de vida humana, em termos amorosos ou éticos. Tudo é menos e tudo é mais daquilo que é, escreveu Paul Celan.[4]

Não há mais dúvida e finalmente podemos montar um cenário único contando com todos os parágrafos anotados. Há uma realidade que nos define. Pode ser sonhada ou pervertida, forjada ou apequenada. O poeta não pode se entreter com seus mecanismos de manipulação. Deve compreendê-los e desativá-los. Tais mecanismos não isolam realidade e ficção, muito pelo contrário, se aplicam a fundi-las na busca de gerar maior tensão. As particularidades até aqui aplicadas à poesia de Armando Silva Carvalho confirmam a existência admirável de uma voz poética acentuadamente crítica, que responde às necessidades de uma poesia que não seja isoladamente espelho ou crítica do mundo à sua volta. Nisto está de todo certo Eduardo Prado Coelho, ao dizer, desta poesia, que “não é só o som, é também a voz do mundo”. [5]

Armando Silva Carvalho publicou os seguintes livros de poesia: Lírica consumível (1965), O comércio dos nervos (1968), Os ovos d’oiro (1969), Eu era desta areia (1977), Armas brancas (1977), Técnicas de engate (1979), Sentimento dum acidental (1981), O livro de Alexandre Bissexto (1983), Canis Dei (1995), Lisboas (2000) e Sol a sol (2005). Além de nove outros títulos na prosa narrativa, é também tradutor de Aimé Césaire, Andrei Voznessenski, Margerite Duras, Samuel Beckett e Stéphane Mallarmé. A presente antologia recolhe a íntegra de Armas brancas e seleção dos demais livros. Ao leitor brasileiro, a fortuna de poder finalmente conhecer uma das vozes mais substantivas da lírica portuguesa contemporânea.

[1] “Um caminho ao lado do mundo”. Diário de Notícias. Lisboa, 15/4/2005.

[2] “A beleza dos focos de infecção”. Expresso. Lisboa, 3/6/2000.

[3] 3. “Descida aos infernos”. Jornal de Letras. Lisboa, 28/3/2006.

[4] “O texto não faz nem refaz o mundo”. Entrevista concedida a Ana Marques Gastão. Agulha – Revista de Cultura # 46. São Paulo/Fortaleza, julho de 2005.


*** POEMAS ***

O AMOR NAS ESCADAS DO METRO

De quem é o braço?
E os cabelos sujos, roídos pela caspa
e falta de água?
E a perna que enlanguesce sob o tecido ruço
que não retém memória?

Meu deus, dirão os velhos ao descer com vagares
as escadas do metro, a mocidade agora
é sexo só e sujo a rolar pelo chão.

Mas quem deita o olhar com mais ternura
e calma
sobre o novelo dos dois
descobre no ar em volta a tessitura tensa
do desejo, um halo amarrotado pela fugaz curvatura
do sonho.

E na lama pérfida que se sobrepõe aos beijos
a parábola fiel às gerações
da terra.

Forçoso será então que caia a chuva,
e cubra a carne sôfrega
exposta à multidão.
Os solitários amaldiçoam toda a inocência
exibida em degraus, caída de bocas tão imundas,
tão perto do inferno
e do êxtase.

O amor pode ser também dalguns que passam
de olhos feridos,
o coração apertado de sangue
e breve compaixão.

Mas só os dois, ali, enleados na energia da alma,
são um palco da alegria do mundo,
gratuito,
à distância da morte e da sua serpente
circular.

São jovens, e estão a soletrar
tão mansos, o horror apreendido pelas bocas
que despontam,
como a planta se eleva do chão endurecido,
como o animal à luz no limiar do medo.

Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.


VARANDA DE PILATOS

Não há tempo. Há o espaço. O sol e as nossas voltas.
Os bocejos da lua, o clã dos astros.
Os buracos negros.
Ó mãe! Para onde foram os seres vivos de ainda
Há pouco em todo o seu esplendor?
Mortos como tu, a natureza recebe-os.
A Terra, essa criança atroz, destrói os seus brinquedos
Numa rotina mecânica.
Quantas noites me faltam? Quantos beijos no escuro?
Quanta luz me cabe ainda nas pupilas?
Os anos não me matam, não me ferem os meses,
As horas não me guilhotinam.
As células vão ardendo nos seus mapas
De nervos, o sangue demora sempre mais um pouco
A chegar ao seu destino orgânico.
Devagar, devagar, a cabeça amolece.
Devagar no colo do sono.
Ó mãe. Um ninho. Uma cama macia no teu ventre.
Uma exposição de sinais. Uma geometria
Que me liga ao saber acumulado.


STRUGGLE FOR LIFE

Cheguei há muito à idade filosófica,
Secaram-me os sonetos na tão nervosa pena dos sentidos.
As aves lânguidas e longas do desejo
– Que não eram lânguidas
Nem longas –
Voaram dos meus sonhos para nunca mais.

Houve quem ouvisse os seus gritos românticos,
Seguisse o seu devaneio em círculos voláteis,
Em versos de dez sílabas, em rimas comedidas,
Em rigor panfletário.
Du Heine de deuxième qualité, seguindo o bom-tom
Da época.

Mas isso era num céu do sentimento,
Ousado, sensual, arrebatado.
E eu tinha um coração flamante, um peito erguido
Aos hinos, uma boca eloquente às odes
Às quais por impulso eu chamaria
Modernas.

Tomara para mim todos os astros.
Entrevira a inclinação da bússola do espírito,
Num vasto, inacabado arco erguido
Sobre a luta no mundo pela sobrevivência,
Vida que devora vida, leis naturais e cruéis,
Visões epicuristas, geladas pela razão.

Concedeu-me a Natureza o dom da prosa
E os versos obedecem-lhe.
Se escrevesse a Storck uma vez mais
Talvez lhe acrescentasse estas sextilhas,
Um pouco aborrecidas, mas fieis à minha natureza
Que recusa ficar-se pela Natureza.

Inocentes passos de criança invadiram-me a alma
E nem eu sei dizer se o choro é meu
Ou vem duma catástrofe.
As lágrimas que penso são do possível santo
Ante a aurora dum mundo
De Beleza, de Amor, Justiça e Universo.

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