Idelzuita Rabelo da Paixão: a professora do Quilombo Mimbó e o desejo pela educação para todos.
Na segunda parte da série de entrevistas, vamos conhecer a trajetória da Idelzuita Rabelo da Paixão, uma das mulheres mais ativas da comunidade Mimbó, responsável por fazer todo o movimento para que seus parentes e moradores tivessem direto ao acesso a educação. Uma luta que se confunde com sua história de vida.
ARISTIDES: Você mora aqui desde quando nasceu?
Nasci em 1953, 7 de junho de 1953. Dia 7, eu completei 72 anos, 7 do mês passado. Minha memória ainda é desse encontro devido a muitos momentos difíceis que nós passamos aqui no nosso Quilombo Mimbó. Era uma comunidade muito fechada, ninguém conhecia ninguém. Sobre saúde e educação não existia no início do nosso quilombo. Meu pai morreu com 92 anos, minha mãe com 75. Eu nasci em junho e minha avó faleceu em julho de 1953. Então, eu não cheguei a conhecer. Toda a aprendizagem que eu tenho foi aprendida com meus pais, que já passavam pelos filhos. Só eu que tive a capacidade de aprender um pouquinho das histórias do Quilombo Mimbó. Então, como o rapaz falou aqui, Nosso médico de raiz, João Neto, eu cheguei a conhecer se a criança desse febre: era a chá da cideira, com a pila contra, era o chá da folha da laranja, era a folha do capim santo, e isso ali foi só o chá dando morninha ali pra febre passar. Tudo era difícil pra gente lidar, todo o nosso tratamento no início para trás, até nos anos 60 era com ervas medicinais. E aquilo ali, Deus abençoava que dava certo. Dava certo aquele tratamento, aquele problema. Minha mãe, meus pais tiveram 17 filhos. Eu fui a última. Não tinha ninguém alfabetizado aqui no Quilombo. Todo mundo era analfabeto, os filhos dele tudo. A única que teve a oportunidade de se alfabetizar foi eu. Porque ele [pai] se mudou para a Regeneração (PI) em 1963. Aí foi que eu lá aprendi, 68 e retornei. Mas o sofrimento era aquele mesmo, de sempre. Negócio de mulher engravidar, não tinha negócio de pré-natal. Não, fazer pré-natal, fazer o exame, saber se tá grávida. Fazer isso, fazer aquilo, não tinha. Se a mulher desse uma hemorragia no momento de menopausa, as mulheres perdiam muito sangue, era tratada com uma erva chamada sangria, entendeu? Nós temos aqui, botar naquela mulher para parar de menstruar demais então, às vezes as mulheres morriam do parto, não tinha pré natal, às vezes a criança tava atravessada, quando tava de certo jeito, quando dava pra parteira fazer o parto, ela tinha que rezar na barriga daquela mulher. Às vezes a criança estava enrolada em cordão umbilical, entendeu? Aí, naquelas orações dela, às vezes, desenhava aquela criança. Se tivesse travessado, a mulher fazia, ela morria não tinha como. E assim, a nossa vida aqui no início da fundação do nosso Quilombo foi muito difícil. Principalmente em educação e saúde, muito difícil.
ARISTIDES: E o que é que tu tem de lembrança marcante que tu pode contar pra gente da tua infância aqui?
Eu não sinto saudade do momento que eu estudei. Eu estudei na escola, só tinha muita palmatória. Eu ia pra escola, os pais da gente contratavam um professor alfabetizado de outra comunidade pra dar aula no primeiro semestre, seis meses. Me lembro que eles ia lá no coco, quebrava o coco, deixar aquele coco ficar ali por quinze dias, depois passava as mulheres pra quebrar aquele coco. Pra poder pagar aquele professor e comprar alimentação.
ARISTIDES: Tua mãe quebrava coco?
Minha mãe quebrava coco pra pagar o professor. As três irmãs, Antônia, Rita e Benedito, quebravam coco pra poder vender na feira, pra poder pagar o professor. Eu estudava nessa escola, me lembro que ficou muito marcante em mim, foi a questão das aulas. Hoje vai ter prova. Aí era a caixa de ABC, aí pegava uma folha de papel, aí furava quando eu ficava colocando aquele buraquinho em cima daquela letra. Se eu não acertava, e Leonarda vinha e acertava aquela letra, ela tinha o direito de me dar meia dúzia de bolo, seis palmatórias aqui, três palmatórias aqui, três aqui. Me dar palmada para pegar as mãos, acabar os dedos para trás, aí o que desse era onde o braço fosse. O que ele disse era no arranco. Aí quando ia acabar minhas mãos chegaram a inchar. Isso aí foi uma lembrança que ficou muito marcado em cima de mim. Foi uma questão da primeira educação que foi pra mim aprender e não aprendi. Isso em 62. Aí quando foi em 63, meu pai foi embora pra Regeneração. Eu ia sair daqui com 13 anos. Aí lá em Regeneração eu estudei, ensino fundamental. Aí daí eu voltei. Isso aí, uma coisa que ficou marcada dentro de mim foi esse tipo de educação que teve no Quilombola. Foi dessa, era dessa forma. Violenta, né? Violenta, violenta. O professor disse assim: “dá meia dúzia de bolos nela”. Ela tinha o direito de botar e esticar o braço dela até onde desse… o cara descesse com toda a força. É o que desce nesse meio aqui da palmatória. Não se aprende desse jeito, né? Essa escola era muito rígida e eu desisti. Todo mundo analfabeto, aí parou no tempo. Ninguém estudava mais. Aí tive o dia de ser professora, primeira vez aqui. Primeira professora do Quilombo Mimbó. Aí comecei a trabalhar na educação em 71. E aí tive a minha lembrança de mundo e sofrimento também. Fui estudar Regeneração, aí retornei ao Quilombo. Em 63 fui para Regeneração, em 68 retornamos ao Quilombo Mimbó, em 71 passei a ser a primeira professora no Quilombo Mimbó. Em 68 eu me casei. Aí passei a ser professor em 71.
ARISTIDES: E aí você como professora, como foi agora assumir a sala de aula depois dessa experiência de palmatória?
Aí nesse período aí não existia palmatória não, porque aquilo que a gente não quer pra gente não dar aos outros. Porque depois que eu fui judiada, a gente não dava palmada em sala de aula. E que eu fui judiada eu não era capaz de pegar uma palmatória e dar nos alunos que eu tava ensinando não. Porque… Eu acho que tem um tipo de judiação. Primeiro ano, a primeira série, ela [criança] teve que entrar só com sete anos. As matrículas eram feitas para a criança com sete anos. Hoje, com dois anos e meio, a criança já estava dentro da sala de aula.
LEONARDA: Um ano e meio.
Um ano e meio, então, né? Mas no meu tempo era sete anos. Dei aula numa casinha de palha. O assento, as cadeiras eram esteira de coco babaçu, numa casinha de palha, de taipa. A porta era uma porteira, como se fosse uma roça. Isso começou em 71 no Mimbó. Aí a gente mudou pra cá em 73. Essa escola veio atrás de mim, dessa forma. Vim aqui, nessa UBS [Unidade Básica de Saúde] nossa aqui. É onde era a minha salinha, eu morando aqui. E a UBS aqui era a salinha onde eu trabalhava. Do mesmo jeito, sentando na areia, dessa forma. Aí, nos anos 80 essa casinha que eu dava aula aí foi desmanchada, porque em 84 foi construída essa escola aqui. Aí passei pra cá, sem carteiras, os meninos sentavam no chão, mas era um cimento, aí essa casinha ficou em pé, aí quando eu fui 86, tive uma oportunidade de receber um posto de saúde, simples, feito de adobo. De adobo, as paredes de adobo. Igual essas casas nossas nós temos aqui. E aí foi melhorando. Depois chegou as cadeiras, carteiras, mesa do professor, armário, mesa do diretor, quadro de giz nessa escola. Mas aí cadê a professora pra trabalhar com tudo isso aí? Cadê a diretora pra sentar ali só esperando pra dar as ordens na escola? Cadê a secretária? No meu tempo não existia isso. Tudo era a Idelzuita. Eu era professora, era diretora, merendeira, era faxineira. Eu desci uma ladeira que tinha que dar mil metros pra chegar lá para pegar água e dar água aos alunos da escola. Pra fazer uma merenda eu tinha que pegar [os mantimentos] em Teresina. Não tinha colher, vasilha, não tinha nada. Então, nossa vida aqui foi muito difícil. Hoje, eu vejo a educação e a saúde com outros olhos. Porque hoje, que eles trabalham nessa escola aqui, Pedro Rabelo da Paixão, tá trabalhando em berço de ouro. Porque onde eu fui, nós caçava lenha, eu ia buscar água, , botar as panelas em cima pra fazer a merenda escolar, e eu tinha que despachar, dali tinha que dar de mamar o menino, aí meu irmão chegava da roça e eu tinha que dar conta de tudo. Teve uma época do ano que a gente não tinha água em torno de nada, ela tinha que buscar água num riacho.
ARISTIDES: Que é quantos metros daqui?
Mil metros.
ARISTIDES: Isso até quando?
Nos anos oitenta, foi, nos anos oitenta.
ARISTIDES: E é interessante você com a sua idade passar por toda essa caminhada e hoje tá aí as coisas se consolidando, né?
Tá aí hoje a sala de aula aí, meu querido. Tá aí a sala de aula com professor, coordenador, monitor, professor. Muitos professores aí tem. Muitos monitores. Vigia. Três vigia. Muitas merendeiras. Aí eu venho sentar assim e me pergunto: “meu Deus, por que que no meu período eu era sozinha?” Aí eu disse assim: “não, eu sou neta de escravo, eu tenho que ser escravizada mesmo”. Isso eu pensando comigo mesmo, num tem. Aí hoje tá tudo na modernidade. Aí hoje, então, se tudo melhorou pra nós, nós temos o que? Nós temos agente de saúde na comunidade. E hoje eu estou de parabéns, nessa forma da saúde e educação. Tá de parabéns, graças a Deus.
ARISTIDES: Você falou uma coisa que eu fiquei curioso, sobre ser neta de escravo. O que que tu tem de lembrança do que te contam sobre eles?
Eles vieram da região de Pernambuco. Todo dia ele ia ao tronco, e apanhava de chicote. Aí eles não aguentaram mais apanhar. Vieram os dois [avô e avó] de região de Pernambuco, caminho da região de Pernambuco até aqui nessa caverna que nós temos aqui. Nós temos uma caverna aqui, eles chegaram, foi Deus que deu pra ele essa caverna, mostrou essa caverna pra eles. Porque eles ficaram nessa caverna mais de 25 anos, com medo de os patrões virem atrás dele. Ele apanhava muito, ele aleijou dos pés. De vir de lá pra cá descalço, de pés na boca até aqui, descalço. Ele chegou e contou o sofrimento dele, que não devia mais apanhar. Então se tudo isso aí, os que eles passaram, meus avôs maternos e paternos, passaram, eles contavam para o filho deles, que era meu pai. Meu pai chamava Pedro, aí tinha outro filho, Francisco e Laurentino. E aí eles contavam. Se dentro dos três irmãos, Francisco e Pedro Laurentino, sou a única que sabe falar um pouco da história, porque eles contavam para os filhos e os filhos iam contar para os filhos deles. No caso, meu pai contava para nós. Dos 17 filhos, a única que aprendeu um pouco dessa história fui eu. Entendeu?

ARISTIDES: Qual é a relação da chegada deles aqui até com a fundação da comunidade?
Não, é assim, eu não lembro a data exatamente assim. Como foi a sobrevivência deles, eu não cheguei a alcançar nenhuma. Mas eu te falo o que eles falavam para os filhos deles e meu pai falava para mim. Porque foi na década de 1819. Ele veio dessa região de Pernambuco. Então se dá ali da chegada dele, da fundação do quilombo, eu não sei te dizer porque eu não cheguei a ver nenhum. Aí eu só conto o básico, que ele contava para os filhos dele, que ele sofreu, que ia ao tronco, apanhava, ia sair de lá a pé, levando chuva, sol, dormindo nessas matas aí. Eu sei que ele chegou nessa caverna e se esconderam. Se você ver essa caverna, é um encanto. Meu querido, é que foi pra surgir pra onde a gente tá aqui hoje, foi muita luta. Muita luta. Muita luta, meu querido, e pra gente chegar onde nós estamos… Aqui eu te vou falar uma coisa séria, aqui não andava ninguém, porque os três irmãos não aceitavam entrar pessoas brancas como vocês. Nossa origem era bem preservada, eles não aceitavam, até com medo de serem maltratados como eles foram, teve muito maltrato. Se você chegasse bem aqui, se fosse naquele período da fundação, você não entrava. Porque você é branco. Nos anos 50 pra trás, até nos primeiros casamentos com pessoas de fora, eles não aceitavam, os casamentos eram entre eles, eram os primos casando com os primos filhos. Então a nossa vida era dessa forma, e daí veio surgindo de lá pra cá, eu não casava com ninguém de fora. Vem acontecer os primeiros casamentos dos anos 60, que foi um cidadão chamado José Rabelo Paixão, que foi o primeiro casamento, casou com a moça aqui do Quilombo Caldeirão, o primeiro casamento que misturou o nome e sobrenome, foi um primo meu que casou com uma moça aqui. O José Rabelo casou com a Emília Lima. Porque nós aqui somos os Rabelos da Paixão. Ah, então se é dessa forma, então se hoje eu acho muito diferente, nós queremos botar de portas abertas para receber estudantes, curiosos, doutorados.
ARISTIDES: E essa coisa que você falou de ter um tempo que pessoas brancas não entravam. Você viu a fase e como foi essa abertura das pessoas começarem a vir? Teve alguma resistência? As pessoas discordavam aqui dentro?
Sim, eu lembro sim, porque pra começar veio dos casamentos. E não aceitavam pessoas de fora casar com filho ou filha. Isso nos anos anteriores, eles não aceitavam. Eu acho até por causa de maus-tratos, podendo lidar com a nossa raça, com a nossa demanda. Talvez se tivesse uma pessoa da pele mais clara, dizia assim: “ah, cadê que é essa negra?” Ou, “meu Deus, cadê que é esse negro?” Aí já era um mau-trato, entendeu? Por isso que eles não aceitavam outras pessoas de fora, brancos, entrarem na comunidade.
ARISTIDES: Você aceitou na época? Como é que tu pensava na época de ter essa abertura de pessoas brancas, de outras comunidades chegarem aqui?
Eu nem pensei, nem esperava que isso ia acontecer. Porque era uma ordem que eles tinham lá no passado de não se misturar raça com pardo branco, pardo amarelo. Eles não aceitavam, mas devido às meninas, os meninos lidar com o outro, e isso já dos anos 70 pra cá, se dão bem com outras meninas lá fora de outra comunidade, com a tua pele, a pele dela, entendeu? Aí às vezes acontecia aquela mistura. Aí se ela buscar um namorado ou marido dela lá de outra comunidade, a gente aceitava o marido dela vindo lá de outras comunidades. Se o filho dela ir buscar uma moça, ou meu filho ir buscar uma moça, lá onde quer que seja, só mora aqui. Mas pra vir um lá de fora, o rapaz e a moça serem de outras comunidades, aqui nós ainda temos essa lei e temos uma ata dentro da Associação: só entra homem ou mulher se você é da comunidade. Se o homem é da comunidade, ele pode buscar a mulher lá fora, se ele agradar. E se é o homem, ele traga a mulher. Tem esse tipo de diferença aí.
ARISTIDES: Tu pensando hoje, como é que tu encara essa questão de receber pessoas brancas, ter envolvimento amoroso com alguém, nascer filhos brancos, por exemplo?
Antes era de ordem, hoje é normal. É normal, mas nessa forma que eu estou lhe dizendo, entendeu? Não importa que meu filho case com uma mulher lá de fora, não importa se fosse filho dela ou case com uma moça lá de for a. Então se assim, só que mesmo ele ou ela que vier aqui pra dentro, seja a moça que vem de fora ou seja o rapaz, ele tem que lidar com nossos costumes. Ele não pode avançar o sinal, tem que ir para os nossos costumes.
ARISTIDES: Me fala um pouco desses costumes.
Os costumes que a gente fala, é assim. Os costumes que a gente fala na minha linguagem é assim, os costumes, primeiro, aprender a me respeitar, ele ou ela que vem lá de fora aprender a me respeitar. O que eu disser ou fizer, ele ou ela que vem lá de fora tem que respeitar e aceitar, entendeu? Se ela vier morar, que está construindo aquela casa bem ali, se ela chegar bem aqui, ela tem que aceitar o costume, o meu jeito, o jeito que está aqui, entendeu? Os costumes são nossas vestes, nossos cabelos, do que nós gostamos, nossa cultura. Nós temos aqui nessa cultura, nós temos pagode, espetáculo, temos dança afro, nós temos hip hop de quilombo, nós temos o terreno de umbanda. Umbanda: “mulher, não vou nada”, porque ela tem que ir, porque ela está dentro dos nossos costumes. Então, a ordem aqui é dessa forma.
ARISTIDES: Qual sua religião?
Eu sou católica e umbandista.
ARISTIDES: E como é que tu concilia essas duas práticas?
Tudo num bolo só. É assim, porque se nós estamos aqui na igreja, vamos dar exemplo. Nós fazemos uma missa aqui, 10 horas da manhã de hoje, um exemplo. Aí quando sai de noite, nós vamos pra algum lado, aí nós vamos pra Umbanda. Sai da Umbanda, não, daqui a pouco tem a missa, aí nós sai da Umbanda e vamos pra igreja. Aí pra nós é normal, não sei se é pra quem estuda mais. A questão é você acreditar, o que importa é você acreditar.
ARISTIDES: Tu foi influenciada por quem pra seguir tua religião?
Essa religião católica veio da minha avó, que exatamente foi uma das minhas avós escravas que veio. Ela que trouxe esse catolicismo. Ela foi ao Juazeiro, pediu a imagem do Padre Cícero, o Padre Cícero deu a imagem pra ela de Nossa Senhora da Saúde. Conheceu o Padre Cícero vivo como nós estamos aqui. Aí ela pediu e ele doou uma santinha pra ela desse tamanhinho. Aí perguntou o nome, Nossa Senhora da Saúde, como era que festejava, ele ensinou tudinho pra ela. Seguimos ainda esse ritmo do que ela trouxe do Juazeiro e ela foi e plantou na comunidade, eles morreram e nós estamos dando continuidade. Nossos costumes são assim, é passando geração para geração.
ARISTIDES: E me conta essa tua relação com a Umbanda.
Meu irmão, aí foi… Não sei, nem eu não sei te dizer como foi. Porque quem fundou a Umbanda foi um irmão meu chamado Augusto Rabelo da Paixão. Se ele não tivesse morrido, ele era o maior chefe da América Latina pra tratar de doença de espiritualidade. Aí, então se ele faleceu, mas no período que ele fundou o Espiritismo no Quilombola, lá embaixo, e que eu tinha uns 17 anos, por aí assim. Comecei a assistir a festa dele lá, brincando, batendo tambor. Mas eu não fazia parte. E isso aí eu vim fazer parte, aí ele foi, abandonou por dois anos. Aí ele abandonou, largou, foi embora, voltou à comunidade. Aí apareceu uma tia da Leonarda aqui, que fundou uma tenda espírita de São Jorge. Em 1979 essa tenda foi fundada em 2 de outubro de 1972. Lá era a tenda de Santa Bárbara. E aqui é Tenda de São Jorge, já fundada pela Antônia Félix Mendes. Já foi 3 de julho de 1979. Lá 72 e aqui 79. Aí ela morreu. Aí comecei a brincar, me divertindo, era cultura, achava bonito. E me envolvi e tudo ali por aquele meio. E eu sei que com a continuação do tempo, ela faleceu, foi ficando mais velha. Ela deixou eu num cargo de responsabilidade, mãe de terreiro. O que é mãe de terreiro lá na Umbanda? Mãe de terreiro é pra rezar o texto. Mãe de terreiro é pra doutrinar. Mãe de terreiro pra abrir os pontos. E mãe de terreiro fica em todas as organizações espíritas, entendeu? E aí nós temos a nossa chefe. Minha chefe chama Luiza. E aí ela tem mais explicação a dar. Porque a ciência é um segredo.
ARISTIDES: A senhora tá em atividade como mãe de terreiro?
Estou. Agora mesmo nós fizemos uma festa. Fez um mês agora, 24 de junho. Uma festa grande. Muita gente. Tinha uma faixa de13 terreiros de fora (Maranhão). E tudo tinha gente. Então tinha uma faixa de 2.500 pessoas. Aí pra gente receber é bom, agora é assim, é como se fosse o povo pobre na roça.
ARISTIDES: A partir da sua história de vida, vale a pena lutar pelo que a gente deseja? Você se considera uma pessoa otimista?
Rapaz, eu não tenho muito como te explicar, mas eu… Do que eu já passei, nos momentos para trás, eu quero passar a me esquecer. Porque hoje eu me acho feliz. Porque eu lutei e abri porta. Porque teve um dia que nós fizemos aqui o Dia da Consciência Negra, e foram feitas tantas camisas em homenagem à Idelzuita. Por que, minha gente, fizeram todo mundo vestindo as camisas?! Porque era quem abria a porta. E eu ser elogiada por eu ter abrido porta com todo o sofrimento, com todo os maus-tratos que eu passei, mas eu abri porta para a minha comunidade Mimbó. Quer dizer que hoje muitas partes do que passei me acho tranquila, me acho feliz. Porque, como eu te disse, hoje todo mundo tá trabalhando com dignidade, não tá passando pelo que eu passei. Eu sou muito grata. Me sinto realizada. Faz como dizer da história, hoje a internet tá ensinando muito, e eu tenho esse celular bem aqui, mas não sei lidar com o celular. Aí ela já sabe fazer tudo, já tem o Rodrigo e tem a Marta. Então isso pra mim é um orgulho, por eu ter sofrido, mas deixei minha comunidade de portas abertas, para que elas sigam em frente e que elas não passem por onde eu passei. Elas estão de parabéns, porque o que eu passei eu não quero que elas passem. Porque só pra aguentar maus tratos, apanhar, dentro da sociedade, “jumento da senzala”, lutando para abrir porta para a minha comunidade. Estou grata por tudo isso que eu fiz e abrir porta para o meu povo. Muito obrigado.
ARISTIDES: Valeu a pena?
Valeu. Pra mim valeu a pena. Lutei sozinha e abri porta pra todo mundo. Lutei só, sofri só, apanhei só, apelidada só, mas abri portas para o meu povo. Educação.
LEONARDA: Ela hoje é patrimônio vivo do Estado do Piauí.
ARISTIDES: Por isso que a gente tem que gravar e guardar essas histórias pra frente, né? Pra que não se perca de nenhuma forma. E aqui não deu nem 1% da sua história.


