O tempo passa por nós e tanta coisa aconteceu que às vezes precisamos desacelerar. Esse “freio” é um exercício necessário para compreender a dimensão dos rastros que ficaram para trás e seguir caminhando apaziguado com a histórias que construímos, ou em conflito com ela.
Desde o dia que fomos à gráfica pela primeira vez receber a edição da Revista Acrobata em 2013, até a despedida da fase impressa, no final de 2018, temos a alegria de flanar nessa desaceleração e concluir que o balanço geral da história em andamento é de que os planos para continuar produzindo conteúdo de alto nível para vocês segue mais firme do que imaginávamos.
Desde o acolhimento do nosso primeiro parceiro Leonardo, proprietário da livraria Entrelivros, que acreditou em nós quando éramos iniciantes e disponibilizou suporte financeiro para darmos o passo inicial, até os apoios que seguraram a nossa onda durante seis anos, as revistas impressas ocuparam um espaço de destaque no circuito editorial em Teresina, marcando seu diferencial com as capas e diagramação ousadas, produzidas na época pelo Thiago E. e Lucas Rolim, que entrou no grupo somando forças e ampliando nossos olhares para a dimensão estética do projeto.
Aí o Dante Galvão chega junto, trazendo ideias que foram valiosas para dar impulso à comercialização das revistas nos eventos em Teresina, instalando a nossa “banca” de vendas, para que fosse possível captar mais recursos para manutenção dos saltos acrobáticos. Inclusive, com uma ótima parceria junto ao sarau Tensão Tesão e Criação.
Chegamos em 2019 traçando novos caminhos. Depois de muita conversa decidimos fazer a migração do formato impresso para o virtual. Ficamos pensativos por um tempo. “Será que essa decisão não é arriscada? Logo nós, que curtirmos os rituais analógicos, vamos nos adaptar?”
Foi nesse momento de indecisão que entrou em cena nosso amigo Júnior Marduk (web designer), um profissional muito competente e que logo virou um parceiro. Rapidamente aderimos as suas ideias que aceleraram a metamorfose e ampliou o raio de alcance para outros lugares. Esse processo de reinvenção mudou decisivamente a história da Acrobata.
Saímos do corpo materialmente “limitado” às quinhentas cópias e 100 páginas impressas por edição, para um corpo fluido e praticamente infinito de possibilidades. Agora não temos fronteiras, linhas amarelas, cones, divisórias, barreiras ou impedimentos físicos. Inclusive, resolvendo melhor as questões financeiras para a viabilidade existencial. Nos transformamos em site e somos lidos em todos os continentes, com um destaque especial para os nossos vizinhos, os países da América Hispânica e também, Portugal.

Alguns de nossos projetos conseguiram furar determinadas bolhas, principalmente devido a nossa parceira com o escritor, tradutor e editor Floriano Martins e suas conexões fora do país. Um desses projetos é uma ponte direta com escritores e escritoras de Portugal e um outro é o Atlas Lírico da América Hispânica com foco na tradução e divulgação de poetas, uma imensa cartografia da poesia feita por nossos vizinhos. Hoje o projeto completa o seu quinto ano de existência e conta com mais de 300 autores e autoras traduzidos.
Com o passar do tempo se integraram ao projeto as poetas, tradutoras e editoras Elys Regina Zils e Gladys Mendía (Venezuela / Chile). Vale destacar que não só a literatura é nossa fonte de inspiração, mas sem música, nada faria sentido. É assim que a presença do projeto Lacuna Tropical nos fortalece com sua vibração fora do eixo. Comandada pela Dj Grazi Flores, ela nos trouxe um panorama inédito da cena musical eletrônica underground brasileira e tornou o site uma verdadeira discoteca itinerante.
Ao longo desses quase seis anos existindo como site ampliamos as sessões de tradução e entrevista em comparação com as nove revistas impressas. Nesta fase que estamos vivenciando, o público tem acesso a mais trajetórias biográficas, seja através dos projetos Vozes do Punk, Conversando com Psicanalistas, Quilombo Mimbó: histórias de vida, realizado por Aristides Oliveira e do projeto “Um Século de Surrealismo”, sob a organização do Floriano Martins, que segue traduzindo poetas surrealistas habitantes dos mais variados países para nossa língua.
É uma estrada percorrida com dedicação e vontade de trazer para os leitores e leitoras o que há de melhor na produção artística contemporânea, seja na literatura, cinema, música ou qualquer experiência que nos tire da zona de conforto e desperte o olhar crítico para a realidade que tenta barrar nosso impulso criativo.
Muito, muito obrigado a quem faz a Revista manter-se viva com suas colaborações e a quem segue lendo, se informando e curtindo as acrobacias.
E, teimosamente, estamos com ânimo para mantê-la no ar por mais mil anos.
Aristides Oliveira e Demetrios Galvão / Julho de 2025.



