Por Ricardo Silvestrin
Numa das passagens de Salvo el crepúsculo, Julio Cortázar cita a recomendação de um amigo dizendo que não devemos misturar num mesmo livro textos de prosa e poesia. Isso porque a leitura do poema exige um tipo de concentração diferente da leitura da prosa. A alternância dos dois faz com que o leitor tenha que ficar mudando de frequência, o que provocaria uma espécie de curto-circuito.
Não obstante, Cortázar coloca essa sugestão justamente num livro em que estão presentes seus poemas e suas crônicas. Ele descumpre o conselho do amigo e ainda o usa para ilustrar, mesmo que o contradiga, o seu projeto. “Salvo el crepúsculo” é um verso de um haicai de Bashô”, citado no livro: “Este caminho/ya nadie lo recorre/salvo el crepúsculo”. Como naquela canção do Arnaldo Antunes, “no caminho que ninguém caminha”, complementa o haijin japonês, a não ser o crepúsculo.
Digo isso para começar essa breve conversa sobre Satori na laje, do poeta Edson Cruz, porque, se não há uma mistura de prosa e poesia, há de haicais e poemas mais longos. Podemos dizer, como o amigo do Cortázar, que a leitura de haicais pede uma disposição do leitor diferente da usada na de poemas em geral.
O haicai, com seus três versos e um total de dezessete sílabas ou ao menos próximo disso, concentra ainda mais o olhar em torno de algo tão pequeno. A própria atitude contemplativa e meditativa do haijin coloca o leitor nesse mesmo estado. Se isso não acontecer, passará a leitura batida, rápida e desatenta sobre o terceto. Vejamos este:
No campus da USP
capivaras tomam sol –
já estão no pós-doc.
Ou este outro:
Na banca grã-fina
um bell hooks capa dura –
negras passam longe.
Tudo o que tinha a ser dito já o foi tanto no primeiro quanto no segundo haicai. As capivaras são pós doutoras em tomar banho de sol num ambiente universitário. No flash da rua, o livro de uma ativista pelo antirracismo está apartado do seu próprio público na banca de revistas e livros para ricos. Exigem os haicais nossa capacidade de acompanhar a síntese e a faísca que salta pelo insight.
Atitude diferente temos diante de um trecho de um longo poema dividido em seis partes, chamado “Florestania”:
III
O rio não é um recurso,
é um transcurso,
um parente na imensa floresta
genealógica do mundo.
Ele canta para as pedras,
conta histórias para as raízes,
ensina a cada curva
mesmo quando turva
o sagrado fluxo da vida.
Aqui há um discurso que se tensiona e ganha corpo de linguagem própria da poesia através dos jogos de palavras, como o curso do rio presente em “recurso” e “transcurso”. Também pelo uso de linguagem figurativa e metafórica, como na “floresta genealógica”, no rio que “canta para as pedras”, culminando no “sagrado fluxo (do rio) da vida”. E ainda nas sonoridades de “curva” e “turva”, que mostram outros trajetos e estado desse mesmo rio. Usamos nossa mente discursiva e associativa. Entre logos, imagens e sons, formamos junto com o poema o sentido.
Edson Cruz decide deliberadamente misturar formas breves e longas. Esse gesto de mixagem se estende para outros níveis do seu livro. A começar pelo título, Satori na laje, já temos a convivência de dois universos. Satori remete à iluminação, à espiritualidade oriental, mas ela se dá na laje, termo usado para os espaços da habitação popular, de camadas sociais da periferia, território também de pessoas negras na sua maioria.
Como vimos acima, há um haicai que é também uma denúncia social da segregação das pessoas negras em que orientalismo e afrodescendência se misturam. Já o poema mais longo também citado acima é em homenagem a Ailton Krenak, escritor e pensador indígena brasileiro contemporâneo, trazendo outras formas de pensar nossa relação com natureza.
E há outras mixagens, como a criação de poemas em portunhol e em inglês, convivendo pacificamente, ou não, com os escritos em português. Cinema, fotografia, jazz, boxe, futebol, continentes, saberes de diversas matrizes, tudo se soma, se contrasta e se redimensiona nessa poesia que Edson Cruz pilota como um DJ que usa diversas pistas para criar seu som único.
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Ricardo Silvestrin é mestre em literatura pela UFRGS, com a dissertação “Manuel Bandeira, um poeta na fenda”. Lançou 30 livros, entre poesia, romance, literatura infantil e tradução. Recebeu por cinco vezes o prêmio Açorianos de Literatura.



