Os Arquivos à Deriva de Jomard Muniz de Britto #2

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A Revista Acrobata irá lançar – numa sequência aperiódica – um bombardeio de textos que cobrem várias fases da produção intelectual do pensador famigerado Jomard Muniz de Britto (JMB), sobrevivente da Bossa Nova e Tropicalista de todas as eras.

Com curadoria de Aristides Oliveira, iremos conhecer (sem ordem temporal definida…) o pensamento que ultrapassa qualquer tentativa de categorização histórica, pois JMB entra e sai, percorre por dentro e por fora da contemporaneidade.

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De origem grega, a palavra questão aproxima-se sonoramente de outra, praxe. Estão juntas nos dicionários, seriam cúmplices ou descomprometidas? Abertas mais do que alertas para todos os equívocos, não apenas da voz, porque convivemos cercados e consolidados pelas praxes de todos os hábitos e carências.

Rotinas, repetições, automatismos, etiquetas, protocolos, burocracias, mitomanias, as praxes nos sufocam e ao mesmo tempo podem servir (ou estar a serviço) para iludir-nos com máscaras e crendices de um melhor emprego, um novo trabalho ou companhia ilimitada de prazeres e deveres, outros dis-cursos de mais especialização, novas transas e traumas, viagens e miragens em torno de nosso “ego”, com e sem os outros amantes e dementes de praxes. Sem dúvidas, elas com certeza podem ser necessárias.

Sobreviveríamos sem elas? As praxes, assim como as rotinas, preconceitos e estereótipos, fazem parte de nossos aparatos bioecológicos, transpessoais, transculturais e até, ou sobretudo, de nossas máquinas libidinais. Apesar dos eventuais atropelos, incômodos, comodismos e pragmáticos conformismos, vivemos e convivemos no império dos sentidos de quase todas as praxes, apaixonantes ou nada.

NÃO TENHA MEDO DE SER FELIZ COM A PRÁXIS

Com múltiplas entradas, buracos, recorrentes e saídas facultativas ou dificultosas. Mas continuamos querendo mais. Além das rotinas, projetos e autossuperação?

Nossos inconformismos à deriva? Outras utopias? Nossa tarefa de agora: a persistência em DIÁLOGOS tentando ultrapassar algumas de nossas praxes acadêmico-existenciais, em busca da releitura ou revisão do questionamento de conceitos. De atitudes e valores. De criticidade incorporada.

Como sabemos, qualquer palavra pertence a um campo simbólico que, por sua vez, se move e se modifica em processo de historicidade. Mesmo que o fraseado possa parecer pedante e não deixe de ser para os mais inocentes -não podemos nem devemos esquecer que a linguagem e a história são interdependentes e intercomunicantes como elos, laços, vínculos de nossas humanas e até desumanas configurações.

Por isso, precisamos retomar a dinâmica sociocultural do termo PRÁXIS.

Seus desafios e perplexidades. A história dos séculos em segundos, rupturas e continuidades. Restos que permanecem. Resíduos que nos reconfiguram. Dialéticas no concreto.

Retornando aos anos de 1960 do século passado, vamos reencontrar a palavra de origem grega como símbolo, mais do que metáfora, de todos os movimentos de resistência cultural. Ontem e hoje. Ações e recriações diferenciadoras. Analogia das diferenças sem exaustão. Sem temores. PRÁXIS indicando, sugerindo, problematizando e concretizando as mais diversas atuações socioculturais transformadoras. Com toda a ênfase nos verbos, agir, atuar, mudar, modificar, romper as estruturas de praxe dos conservadorismos.

Dos “Círculos de Cultura” na Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, ao Teatro do Oprimido, de A. Boal, do Te- ato, de José Celso Martínez Corrêa, às performances de Vavá Paulino em transes pedagógicos. Da revista PRÁXIS, instauração, de Mário Chaime, às editorações do Instituto Maximiano Campos. Do Bandido na Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, ao recente abissal Amarelo Manga, de Cláudio Assis.

Da Tropicália de Hélio Oiticica às intervenções urbanas de Paulo Bruscky. Dos pintores-antropólogos do período nassoviano, restaurados pelo Castelo do Instituto Ricardo Brennand, aos desatinos antropofágicos de Adão e Eva, pelo neon-expressionismo de Sérgio Lemos. Do superoito anarco-revolucionador, de Amin Stepple aos Textículos de Mary, ao Telefone Colorido e a Orquestra Santa Massa do DJ Dolores, Helder Aragão.

Dobras e desdobramentos além dos binarismos, dicotomias e moralismos, crueldades, barrococós, falocentrismos, vaginas totalizantes, homofobias e pansexualidade, bem dentro dos polimorfismos. Todos os sinais vermelhos e amarelos da PRÁXIS.

Todo o cuidado com os verdes que se querem globalmente marinhos em pactos de morte, das mais felizes e sampleadas contradições gilbertofreyrianas aos abismos zerados pelas contradições desautorizadas.

Dos Alhos & Bugalhos requentados ao projeto coletivo em livro organizado por Gilda Maria Whitaker Verri, Relendo Recife de Nassau (Edições BAGAÇO).

No entrelugar e entre-expressões dos aristocratismos provinciais-metropolitanos às democratizações culturais pela caosmose. Por toda essa longa diacronia de citações, ainda mais a urgência de repensar Gramsci escrevendo no cárcere do fascismo italiano a expressão “filosofia da praxis”, na tentativa de burlar censores e impostores. Gramsci encontrou no Brasil, em Leandro Konder, um de seus mais legítimos intérpretes, pela didática das transcrições.

A práxis é a atividade concreta pela qual os sujeitos humanos se afirmam no mundo, modificando a realidade objetiva e, para poderem alterá-la, transformando-se a si mesmos. É a ação que, para se aprofundar de maneira mais conseqüente, precisa de reflexão, do auto-questionamento da teoria, e é a teoria que remete à ação, que enfrenta o desafio de verificar seus acertos e desacertos, cotejando-os com a prática. (O futuro da filosofia da praxis: o pensamento de Marx no século XXI, RJ 1992, Paz e Terra).

Às praxes todas a banalização da praxe. Para a PRÁXIS, todos os entre-lugares e entre-expressões da historicidade como agenciamento transformativo de novas subjetividades e sociabilidades. Atravessando ou fissurando hegemonias. Outros roteiros. Indefinidamente roteiros. Outras exemplificações, outros nomes como desafio aos leitores, co-autores, sem medo de ser agenciadores desta escriDura em termos e nucleações, heranças e errâncias da PRÁXIS. Outros agitos culturais libertários. Dialogicamente.

Crédito da imagem: foto que JMB enviou para Aristides em 2015.

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