“A inveja do pênis (…) passou a ter um sentido político pra mim, tendo relação com a misoginia que a produz”. Os estudos psicanalíticos de Patrícia Mafra.

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Entrevista realizada por Aristides Oliveira, com participação de Nathalia Rocha

Patrícia Mafra é psicanalista, doutora em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, mestre em Estudos Psicanalíticos pela Universidade Federal de Minas Gerais, psicóloga (UFMG), membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi (GBPSF). Atualmente, encontra-se em prática privada na cidade de São Paulo e lecionando na graduação em psicologia, assim como em institutos de formação de analistas. Estudiosa da história da psicanálise e das teorias feministas, interessa-se pelas tensões dos encontros transdisciplinares, especialmente da psicanálise com a universidade, assim como pelos processos formativos de analistas e pela transmissão da teoria psicanalítica.

Quando a Psicologia se tornou um campo de interesse acadêmico na sua vida e como a Psicanálise apareceu nesse processo de formação profissional?

Acho que dei sorte, sem querer soar pretensiosa, mas sabia muito pouco sobre o campo da Psicologia quando ingressei na graduação na UFMG, aos 17 anos de idade. O curso causou-me grande impacto e alívio em algum sentido. Encontrei na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas um lugar que ao mesmo tempo questionava minhas antigas concepções de mundo e oferecia espaço para explorar outras. Fiz grandes amigos, participei da gestão do Diretório Acadêmico, estudei com gente muito competente. No mais, sempre fui dada a investigações introspectivas e uma sensibilidade irritante, mas que acredito ser motor para enfrentar a dureza da academia, através da satisfação de encontrar sentido nas coisas do mundo. O interesse particular pela Psicanálise surgiu no meu segundo ano de faculdade, quando me sentia estranhamente identificada e atraída pelas aulas. Foi por sugestão do monitor da disciplina que dei início, no mesmo ano, ao meu processo de análise e não parei desde então.

Ao longo da história da psicanálise, a abordagem que Freud lançou para investigar os processos psíquicos estiveram centrados na figura masculina e a “inveja do pênis” tornou-se uma espécie de “ponto de partida” para os estudos na área. A partir de que momento podemos perceber uma mudança de leitura em que a mulher começou, na psicanálise, a ser estudada para além da estrutura do falo?

Essa é uma boa questão. Se considerarmos o pensamento de Horney, eu diria que desde o início da década de 1920, quando ela apresenta “A gênese do complexo de castração nas mulheres” no 7º Congresso Internacional de Psicanálise, presidido por Sándor Ferenczi e o último em que Freud esteve presencialmente, na mesa dela, inclusive. Nesse texto, ela questiona a verdade presumida pelos psicanalistas de que o sofrimento de meninas e mulheres com seu sexo era universal, seja ele temporário ou permanente. Então podemos dizer que pelo menos desde a segunda geração de analistas a visão falocêntrica da disciplina vem sendo questionada, mas acredito que só na década de 70 que a psicanálise realmente se dispôs a assumir que o comprometimento das elaborações freudianas sobre a mulher e a feminilidade era insustentável, tendo surgido uma série de psicanalistas feministas, em especial na França.

Conheci seu trabalho partir da tese que escreveu sobre Karen Horney (Karen Horney, o feminismo e a feminilidade: um desmentido na história da psicanálise, 2021). Que circunstâncias fizeram você escolher Horney como seu objeto de estudo? Gostaria que você compartilhasse com a gente a importância dela para a história da psicanálise.

Encontrei a obra de Horney por causa dos meus estudos sobre a monogamia na psicanálise, que comecei no final da graduação, dando continuidade no mestrado. Além das críticas sobre a teoria psicanalítica da feminilidade, Horney também escreveu vários textos como “O ideal monogâmico”, “Problemas no casamento” e “A supervalorização do amor” em que denuncia as posições desiguais de homens e mulheres nas relações amorosas, ditadas pela cultura e reproduzidas nas teorias psicanalíticas. Fiquei muito impactada com a escrita de Karen, suas críticas a Freud e a atualidade de seu pensamento no que dizia respeito às relações amorosas. Ao longo da pesquisa descobri que ela mesma tinha um arranjo não-exclusivo com seu marido, Oskar, o que só fez aumentar minha curiosidade e interesse por sua figura. Ao ler sobre sua história, percebi que ela esteve presente e foi parte ativa na institucionalização e expansão da psicanálise, participando sobre os debates acerca da formação de analistas, da sexualidade feminina e do papel da cultura na subjetivação. Todos pontos que ainda hoje levantam discussões nos círculos psicanalíticos. Foi então que sua ausência nos currículos de formação e na história oficial da psicanálise começou a me parecer suspeita. Quando trabalhei com seus arquivos, lendo cartas e tendo acesso a bibliografias de sua autoria que eu desconhecia, foi que se consolidou a ideia de que ela e sua teoria teriam sido desmentidas, no sentido que Ferenczi atribui ao termo, por seus colegas psicanalistas, que insistiram em ignorá-la ou desqualifica-la, tanto dentro quanto fora das instituições psicanalíticas. As contribuições de Horney não foram integradas ao corpo teórico-institucional da psicanálise, o que dificulta sua transmissão e continuidade. Mas, mesmo assim, o instituto fundado por ela resiste como centro de preservação de sua memória e ensinamentos.

(Participação de Nathalia Rocha) Do ponto de vista clínico, em quais aspectos a teoria de Horney favoreceu, em alguma medida, uma mudança na sua escuta? Você mudou sua perspectiva sobre algum conceito da psicanálise a partir dos estudos horneynianos? Se sim, quais?

Certamente o que me sinto mais grata por ter aprendido com a Horney é que os corpos com vulva não são deficitários. Aprendi a não naturalizar o “ser uma mulher” como um problema, a priori, ainda que considere todas as violências que sofremos como parte de nossa constituição subjetiva. Tento manter dentro do setting a suspeita sobre o normativo e dar lugar às experiências com as mulheridades, buscando entendê-las historicamente na vida de cada um que escuto. Sinto que isso ampliou minha capacidade de escuta, em especial para as formas que o auto-ódio pode assumir. A inveja do pênis que sempre me pareceu uma grande viagem de Freud, passou a ter um sentido político pra mim, tendo relação com a misoginia que a produz.

Em agosto você irá ministrar um curso chamado “Subversões da feminilidade”. Você poderia comentar brevemente sobre o percurso que fará neste projeto?

Esse é um grupo que surge do meu feliz encontro com a Morgana Rech. A sensação é de que ela era a parceira que eu esperava para poder dar continuidade e, quem sabe, algum contorno pra incômodos e lacunas que percebi ao longo dos estudos sobre a feminilidade na psicanálise e na cultura. Nos encontramos em 2025, durante um período em que ela estava aqui em São Paulo, e tinha acabado de se deparar com um achado na sua pesquisa de pós doutorado sobre a censura no teatro brasileiro. O achado indicava que a palavra mais censurada seria adúltera, acompanhada da figura da amante. Achei uma evidência muito material de como a sexualidade feminina é intolerável para os homens. Evidência das tentativas e dispositivos de controle ao qual estamos submetidas até hoje. A partir daí decidimos pensar juntas sobre os pontos de resistência e criatividade que a experiência das feminilidades pode conter e optamos por uma trajetória que parte do questionamento do discurso sobre a histeria e os papeis sociais da mulher, considerando as violências e linhas de fuga e suas marcas no psiquismo. Queremos compartilhar e aprender com as pessoas que toparam essa empreitada e esperamos ver surgir novas formas de pensar as feminilidades.

Como foi sua experiência no estágio que realizou a New York University? Que aprendizados você trouxe de lá que somaram na sua prática psicanalítica?

Foi uma grande aventura do início ao fim. Minha bolsa começava bem na época em que o então governo Bolsonaro decidiu pelo contingenciamento e bloqueio orçamentário para a CAPES e o CNPq, então durante alguns meses vivi a dúvida sobre minha ida para o estágio. Felizmente o processo burocrático se desenrolou nos dois programas, do IP USP e da NYU, e eu consegui aprofundar a pesquisa lá, sobre a história da psicanálise nos EUA e o papel da Horney e do Ferenczi na história da psicanálise antes e depois das guerras. Foi lá que fiz a parte de arquivos da minha pesquisa e aprendi mais sobre o Ferenczi, no Sándor Ferenczi Center, na New School, onde Horney também deu aulas. Me senti mais próxima da vida que ela viveu como imigrante nos EUA e acho que pude compreender melhor os desafios que enfrentou e que culminaram na fundação de seu próprio instituto de psicanálise, a American Association for the Advancement of Psychoanalysis, que continua existindo e formando analistas até hoje em Nova Iorque. Voltei para o Brasil no início da pandemia, em março de 2020, o que me deu um tempo de literal reclusão para terminar a pesquisa.

Atualmente, estou conhecendo Annie Ernaux e seus livros me ajudam a pensar a relação entre literatura e psicanálise. E você? O que anda lendo do mundo literário que poderia nos indicar? A literatura é um exercício que faz parte da sua vida como psicanalista?

Apesar de não ler muita poesia, o último livro que me marcou profundamente foi o Asma, da Adelaide Ivánova, que trata justamente das diferentes facetas que o ser mulher inclui. É uma obra de resistência e me senti muito inspirada pela autora a olhar para as relações entre mulheres, especialmente transgeracionalmente, e na transmissão traumática da feminilidade. Acho que ler é mais que um exercício, parece-me um jeito de expandir o próprio mundo, o que considero fundamental para o ofício de analisar.

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