Floriano Martins recorda Zuca Sardan

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Por João Antonio Buhrer

JAB | Como e quando conheceste a obra de Zuca Sardan?

FM | Foi por ocasião da publicação do livro 26 poetas hoje (1976). Três poetas ali em particular me chamaram a atenção: Zuca Sardan, Roberto Piva e Afonso Henriques Neto. Posteriormente fiquei amigo dos três e até hoje vejo que representavam ali um vento renovador de nossas artes & ofícios. Zuca Sardan exerceu sobre mim um fascínio tremendo pelo modo como preparava um guisado de letras e traços, imagens pagãs, desafiadoras de qualquer credo literário. Roberto Piva confirmava na antologia o seu espírito irrequieto que saltava fora dos versos a todo instante. Afonso Henriques Neto era a esfera reluzente de um Underground culto, o que o tornava um estranho no ninho em sua geração. Dos três, foi o último que conheci, talvez porque achasse inacessível enviar-lhe uma cartinha para a Alemanha — na época a correspondência era em lombo de jegue ou nas asas da Pan-Air.

JAB | Me diz como é que se deu esta amizade com Zuca, esta aproximação direta, quando e em qual ocasião?

FM | Não me lembro com exatidão, mas já foi no presente século. Alguém deve ter falado para ele da Agulha Revista de Cultura e então recebi um pacotinho com desenhos pelo correio. Não creio que eu tenha enviado muitas cartas impressas, porque logo descobrimos na virtualidade a nossa melhor ponte. Creio que em 2015 eu percebi que se eu juntasse as falas do Zuca que me chegavam por e-mail às minhas respostas aquilo poderia nos render um diálogo desconcertante e hilário. Reuni tudo em torno de um texto que intitulei de “Dois loucos à beira do poeta”, de imediato publicado na revista. Nós dois tomamos muito gosto por aquela forma de provocação e passamos a nos corresponder como se estivéssemos criando uma peça de teatro. Foi assim que nasceu a primeira delas, Circo Cyclame, que publicaríamos no ano seguinte. Ao longo de alguns anos escrevemos nada menos do que sete peças do que passamos a chamar de teatro automático. Aqueles pequenos textos, que iam e viam, pelas águas turvas na Net, mesclavam nossas ideias sobre mil temas, a correspondência pessoal com nomes trocados, críticas que fazíamos ao trabalho de outros etc. Até mesmo duas entrevistas que fizemos um ao outro foram incluídas dentro do espírito dramatúrgico que era de uma vertigem patafísica a toda prova. E nos divertíamos muito. Quando se aproxima a hora de publicar as peças em livro incluíamos as imagens, os desenhos do Zuca, minhas colagens e fotografias etc. Nós nos tornamos, de fato, personagens de nosso teatro, a tal ponto que a íntegra do que conversávamos se dava já em função da criação. Vez que outra, quando naturalmente queríamos conversar sobre algum outro assunto, enviávamos um e-mail distinto, tratando de coisas que não deveriam ser incluídas nos livros. Ou seja, sempre fomos, desde o princípio, dois bons loucos à beira do pote.

JAB | Você já conhecia o folheto em parceria com João Padilha, Almanach Sportivo (circa, 1980), em que Zuca faz uma conversa poética com Padilha, acerca das Olimpíadas de Moscou?

FM | Não, não conhecia. De todos modos, não inventamos a pólvora. Teatro do Absurdo, Teatro Pânico, as performances cênicas com falas improvisas de um Frank Zappa, não faltam exemplos a serem apontados como espelhos de nosso teatro automático. Eu e Zuca muitas vezes conversamos sobre Ionesco e também gostávamos de falar de outras coisas, como François Rabelais, Dante, Jonathan Swift, a Bíblia, as fábulas, e também os folhetos de cordel, tudo isto entrava em nossa salada de personagens, sem que nos ativéssemos a nenhum receituário estético. Era a nossa farra da terra, querido amigo. Claro que o Zuca tinha já a sua marca d’água, à qual eu fui somando a minha, recordando coisas da adolescência — música, teatro, poesia — que foram ficando para trás e ele me estimulou a inseri-las em minha criação. Posso dizer que graças ao Zuca eu perdi muito da sisudez original de minha poesia.

JAB | Para você que também tem o surrealismo e o dadaísmo eu sua obra como é que você explica a criatividade sem fim do poeta Zuca? Para mim é extraordinário. Gostaria de saber sua opinião.

FM | Eu não creio que se explique ou mesmo que careça de explicação. A explicação tende a limitar, nos leva a acreditar que o jorro criativo tem origem em uma fonte única, quando a rigor, mesmo naqueles criadores mais contidos, as fontes são múltiplas. Há casos em que as fontes são minimamente literárias, quando estamos falando de escritores, porque a pessoa pode ter uma ligação muito intensa com outros ramos da criação, como o cinema ou a música etc. Zuca tem uma lâmpada acesa em vários quadrantes singulares das artes, como os gibis, as antigas tiras humorísticas da imprensa, os desenhos, recortes de jornal, os folhetos de cordel, clássicos como Dom Quixote, a Divina Comédia, as Viagens de Gulliver etc. E o modo como coloca esses elementos todos em seu caldeirão, preparando um guisado de maravilhas, não seria tão genial não fosse a alta fervura de seu espírito irrequieto. Zuca será sempre esse menino infernal que não se aquieta nunca. Impressionante? Sim, mas são exatamente assim todos os grandes artistas.

JAB | A sua relação com Zuca se deu apenas via internet, e-mail, digo, já falou pessoalmente com Zuca, através da voz (telefone), já esteve pessoalmente com ele? Eu particularmente conheço a figura de Zuca de algumas fotografias ou alguns vídeos por ocasião da FLIP, em que participou ou de um documentário a respeito de seu amigo Wesley Duke Lee, onde recita um poema dedicado a ele. Como você vê a figura humana Carlos Felipe Saldanha?

FM | Eu jamais estive pessoalmente com o Zuca ou mesmo falamos por telefone. Nós somos, um para o outro, dois perfeitos personagens etéreos, vivemos no firmamento da linguagem, se duvidar sequer existimos na realidade tangível (risos). Não digo que sejamos assim, um e outro, porém a nossa relação sim, é uma invenção cômica dos deuses. Sequer posso imaginar quem seja Carlos Felipe Saldanha. Meu entendimento é com o Zuca, ele sim, generoso e divertido, irrequieto e profundamente humana. Ele me apresentou a duas pessoas, Pedro Alvim e a Ana Borges, juntos formamos um grupo em torno do que chamamos de chamamos de Quarteto Kolax e as nossas peripécias dedicamos dois números da Agulha Revista de Cultura. Recordo isto porque também a Ana e o Pedro eu jamais conheci pessoalmente, trocamos muitos e-mails, nos divertimos muito, porém mantemos a nossa virtualidade intacta. Talvez porque a realidade seja algo enfadonha. Talvez porque esse detalhe seja parte constitutiva da biografia de nosso encontro. Esta figura divertidamente magnânima, personagem múltiplo, zombeteiro, trocista, libérrimo ao criar, este é o Zuca Sardan, para mim mais real do que o Carlos Felipe Saldanha, com quem jamais falei (risos).

JAB | De quem foi a ideia de fazer esta parceria, onde um fala uma coisa e o outro responde — algo semelhante ao que existe no cordel ou no samba de Partido Alto?

FM | A ideia foi minha, de transformar em roteiro dramatúrgico o que era a essência de nossa correspondência, a troca de nossos teletros. Mas não isto o que importa e sim o espírito com que exploramos alguns temas e a afinidade que despertamos de modo instantâneo. Circo Cyclame evoca um desses circos de subúrbio, um velho circo que queria ser reativado e inaugurado com grande gala em uma cidade, daí que seus integrantes foram procurar o clero e a prefeitura para sensibilizá-los da importância das artes circenses. Surge então toda espécie de combinações hilárias entre os dois poderes e mágicos, bailarinas, uma anã, a mulher barbada etc. Depois escrevemos Trem Carthago, que é uma insólita viagem que sai de uma estação ferroviária em Fortaleza a caminho de Pequim, na China. Desde o princípio se sabe que é uma jornada impossível, mas ninguém liga a mínima. O que importa é o caminho, há milênios todos os sábios concordam. E durante a travessia o próprio roteiro vai sendo escrito por seus personagens, desde uma faquiresa, uma dançarina, um reverendo, o papagaio, assim como os empregados do trem. O mote da viagem é levar Lili Fong, uma prometida do império que havia escapado, de volta para as mãos do presidente Xixi-Ping. Utilizamos como epígrafe uma tirada de Anselmo Pícaro, o trapaceiro trágico, que é a melhor síntese da peça: Não há como recusar a realidade, mas sim como deixá-la ali quietinha esperando que um único movimento seja capaz de livrá-la da solidão furiosa a que se entregou. E na peça seguinte, Cine Azteka, a propósito de realidade, foi o mais perto dela que chegamos, pois se trata de nossa homenagem a um antigo cinema carioca que estava por ser demolido quando então cineastas, atores, repórteres, a comunidade local, enfrenta o prefeito para evitar a destruição daquele símbolo e propõe a projeção de uma escandalosa biografia de Nero, gerando discussões que trazem à tona os horrores do poder e da arte. Na verdade, essas peças — assim como as outras quatro que escrevemos — são de representação impossível, pelo excesso de personagens e os absurdos cenográficos. Para nós, o que poderia ser muito interessante era conseguir a produção de desenhos animados.

JAB | Neste ponto é mister obter de você um relato de obra por obra que você e Zuca produziram em dupla.

FM | Vamos lá. Nós estruturamos tudo em dois amplos volumes, considerando a afinidade entre elas e a perspectiva de apresentar um conjunto de obras o mais denso possível. O resultado: O iluminismo é uma baleia e A volta da baleia beluxa. O primeiro, composto pelas peças Circo Cyclame, Trem Carthago e Cine Azteka, eu já comentei acima, mas acrescento que fizemos uma edição impressa, fartamente ilustrada (desenhos do Zuca, fotografias minhas, colagens nossas), e ao final incluímos um makinf of das peças, pura galhofa, seríssima, na forma de diálogos entre os autores. O segundo livro, dele saiu apenas uma edição virtual, hoje fora de catálogo. No prólogo nós denominamos esta nova aventura como um teatro atracado na metafísica, e Zuca, recordando certos passos que seguimos de Ionesco, recorda que ele também usou a galhofa pra desmascarar a seriedade plastificada das verdades definitivas das autoridades que queriam usar a galhofa comercializada meramente pra arrematar, dar a última pá de cal na robotização distinta da população mais esclarecida corretamente engajada pelas luzes da ideologia hierárquica. Este segundo livro inclui as peças: As fabulosas lagartas pintadas, Asilo de farsas: uma pirueta farsante em 10 actos, Cordel vertiginoso: Antes que o boi durma, As sete tragédias de Sardanelo & Martinico e o minidrama Algo na terra ainda treme. Vou tentar descrever um pouco esse turbilhão de maluquices. O livro começa com As fabulosas lagartas pintadas, que apresenta o lunático psiquiatra Doutor Pascalha improvisando o roteiro do que ele mesmo chama de peça sado-libertina no manicômio de Patakawa. A peça tentará ser a adaptação de uma porno-comédia escrita por Sardan e Martins, cujos originais foram cair nas mãos de Pascalha. A segunda peça é uma espécie de drama surrealista, Asilo de farsas: uma pirueta farsante em 10 actos. Logo na epígrafe, Petrônio Café Pequeno nos dá a senha para adentrarmos o palco: A lei não distingue o que é certo do que é errado. O próprio fato de existir uma lei já é, em si, um abuso. Por tais desmandos se caracteriza a espécie humana, que a todo instante se vê compelida a criar normas para suportar a própria existência. Convertemos o chororô anacrônico da realidade em um museu de quinquilharias apanhadas por Floyd Nix e Doc Fumex, que foram pescando quando de sua viagem no Trem Carthago. Em seguida, temos Cordel vertiginoso: Antes que o boi durma, uma comédia histriônica, onde nos divertimos às custas dos gibis, da cultura de massas, das profecias bíblicas, do jogo do bicho, em uma sequência sarcástica de não deixar ninguém quieto. Martinico e Sardanelo são dois personagens que surgiram como se fossem bonecos falantes nos quais costuramos características de alguns anti-heróis retirados de Swift, Ionesco, Dante, Rabelais, fábulas, cordéis etc., de modo que As sete tragédias de Sardanelo & Martinico são situações hilariantes em que se encontram esses dois papangus. Por último o que ficou conhecido — e malfalado — “Presságio caviloso”, é uma paródia das enfadonhas conjecturas sobre o fim dos tempos. Uff! Espero ter me saído bem dessa tarefa. Neste segundo volume também repetimos a receita plástica do primeiro, ou seja, o livro está permeado por imagens nossas (desenhos, fotografias, colagens). Creio que ainda este ano, deve sair uma versão integral dos dois livros, graças ao empenho valioso de Francisco dos Sonhos, e sua corajosa Casa Lummiada.

JAB | Gostaria de saber quando foi que surgiu a ideia do Zuca participar com suas obras na Agulha Revista de Cultura? Se puder também descrever algumas obras dele que publicou…

FM | A primeira vez que publicamos o Zuca na revista, como eu já falei anteriormente, foi quando, ao reunir nossos e-mails, montei o esquete “Dois loucos à beira do poeta”, que deu início à peça Circo Cyclame, isto em 2015. Essas aparentes decisões são imperativos do acaso. Uma vez fizemos um número da revista tendo o francês Juan Gourmelin como artista convidado, justamente por sugestão tua, e ali incluímos um take do Zuca chamado “História abreviadíssima do mundo, surrealismo e… a trombeta”, que é uma delícia: https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2023/01/zuca-sardan-historia-abreviadissima-do.html. Antes, em 2019, fizemos as duas edições com o Quarteto Kolax, do qual participamos Zuca, eu, Pedro Alvim e Ana Borges. No segundo número há um diálogo improvisado entre nós quadro que se chama “Sic Transit Gloria Mundi”: https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2019/12/quarteto-kolax-2-sic-transit-gloria.html, e considero uma página memorável. Também não podemos esquecer a edição em que o Zuca foi nosso artista convidado: https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2023/09/agulha-revista-de-cultura-240-setembro.html. Desde o princípio, em verdade, percebi o quanto que nossos caminhos estavam interligados.

JAB | O que você tem para acrescentar sobre Zuca Sardan e sua obra, que acredita ainda não foi observado?

FM | A doçura brincalhona de seu anarquismo, sua iconoclastia sem maledicência, sua aguçadíssima visão satírica, o modo como sempre aproveitou conhecimento do todo e magia da fragmentação, ao montar suas historietas com estampas retiradas de abismos, despreocupado quanto ao caminho que elas poderiam tomar. Falo em despreocupação não por alheamento, mas sim porque Zuca Sardan sempre doou ao mundo suas crias sem nenhuma estratégia comercial. Sempre foi esse intenso e maravilhoso doador de vida, como deve ser todo grande artista. A sua natureza é a grande mãe de sua arte. E eu me sinto honrado de ser seu amigo e parceiro.

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João Antônio Buhrer (São Paulo, 1957). Jornalista e bibliófilo. Integrou o grupo de pesquisa para a realização do livro O Melhor da SR, Uma Senhora Revista, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, de Ruy Castro. Organizou inúmeras exposições, sobre cinema, quadrinhos, literatura, para o SESC, a Biblioteca Pública de Campinas e o Centro de Ciências Letras e Artes. Foi por muitos anos colaborador efetivo da página web Bigorna, especializada em Histórias em Quadrinhos. Este seu livro sobre Zuca Sardan é fruto de um trabalho dedicado e digno dos melhores reconhecimentos.

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