O Mundo Feito Pelas Mãos / orelha do livro

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Por Elys Zils

Em o mundo feito com as mãos, o pensamento passa pelos dedos. É no contato com a matéria que a poesia de Demetrios Galvão reconhece o mundo e interroga as formas de habitá-lo. A mão cria, oferece amparo, trabalha a superfície das coisas e aproxima o humano daquilo que o excede. O título concentra esse movimento: fazemos o mundo com as mãos e, nelas, descobrimos a matéria do mundo que nos fez.

Seu “universo antropomágico” nasce dessa zona de contato. O corpo participa dos movimentos da natureza, enquanto o invisível adquire peso, temperatura e presença. A ruína retorna ao ciclo cósmico, as palavras reluzem na escuridão, a água transporta enigmas sobre nossas cabeças. Tudo vive dentro de uma circulação cuja medida ultrapassa o humano. A frase “a humanidade come na mão da natureza” restitui a esse vínculo sua força e sua ironia: imaginamos possuir aquilo de que dependemos.

A própria linguagem obedece a essa ordem material. Cada palavra passa pela balança, pelo prato e pela boca. Sua densidade precisa ser provada. A poesia mergulha no rio voador porque a superfície já não basta; procura nas águas invisíveis uma memória capaz de ligar o íntimo à história. Assim, o corpo se torna lugar de passagem. Nele permanecem a infância guardada num dente, a ausência dos amigos, o amor que remonta a casa e as marcas de uma violência antiga.

A história brasileira atravessa essas páginas como substância ainda ativa. Circula no açúcar, no minério, na língua estrangeira, no veneno dos sobrenomes. A colonização prolonga-se nos modos de ocupar a terra e transmitir suas heranças. Por isso, o gesto de tocar guarda também uma memória histórica. Nele se encontram a força que demarca e a delicadeza que cuida.

É nesse ponto que o infinito se recolhe para dentro de nós. Ele se elabora em silêncio, resiste às pequenas mortes diárias e reaparece num som familiar, numa relíquia impalpável, numa criança conduzida pela mão. Sua grandeza cabe nos gestos mínimos, justamente onde corpo, memória e mundo voltam a se reconhecer.

Feito com as mãos, este livro pede uma leitura do corpo inteiro. Ao percorrê-lo, o leitor também se descobre matéria do mundo que toca.

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Elys Zils é poeta, artista visual, tradutora e editora. Publicou os livros de poemas Fragmentos de silêncio (2024) e a língua aprende a morder (2026). É editora da Agulha Revista de Cultura (2023), revista criada por Floriano Martins, e fundadora da Editora MamaQuilla, dedicada à publicação de literatura latino-americana.

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