Do fim ao começo

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Por Beth Brait  Alvim, escritora, poeta, atriz, mestre pelo PROLAM – US

no começo, era a língua do jaguar em minha garganta
no fim serei jaguar em tua língua infinita
em mim

Gledson Sousa

Gledson Sousa é poeta.

Antes de tudo e antes de qualquer imposição vital, Gledson Sousa é poeta.

Confrontar-se com uma obra de Gledson provoca em nós uma experiência única: a de viver com ele. E isto pode parecer inenarrável, e é, haja vista as circunstâncias e acontecimentos decisivos e mágicos que marcam indelevelmente meu convívio com o autor.  

De início, e sem querer resvalar sua persona em idiossincrasias, a obra de Gledson Sousa opera no leitor um confronto transformador. Um confronto filosófico, idealista, mágico, visionário, poético.

Não fosse o suficiente, Gledson é dos livres pensadores mais resistentes e resilientes que conheço, dedicado de maneira inegociável à elevação da dignidade humana como direito inalienável de todo ser.

Este preâmbulo deseja pontuar, de imediato, para o leitor ingênuo ou para o exigente, que  Gledson é um autor que não cabe em algumas laudas. Não cabe na palavra herdada, circunscrita à norma, ao espaço rígido de um livro, a famílias linguísticas determinadas.  Gledson não cabe. É como um mito, assim o vejo e sinto:

A Chama

A chama acolhe-me
Estou com os seres da noite
Flores, gatos adormecidos, o orvalho que planeja a manhã
O mundo: útero
Estou em seu calor
Tudo nos abraça
Mesmo a dor é um pulsar da chama
Que passa
Acolho teu silêncio como quem recebe flores
Quando partirmos, seremos o mesmo fogo
Sem medo
Tudo é belo ao infinito

Com A chama, o fogo purifica, o mundo é um útero acolhedor.

Após A chama, a família foi surpreendida com um incêndio devastador. Purificador?  Lembro de ter dito ao autor, após aguardar um tempo necessário para se conseguir conversar sobre o acidente sem horror, que o ocorrido parecia em tudo com uma travessia de portal, uma limpeza, uma revivificação, uma ressurreição.

Sim, vejo em Gledson Sousa o ressurreto.

Jaguar, trovão poderia ser apenas mais um livro de poemas. Mas, me dou o direito de afirmar: este livro não deve ser lido como um livro.

Desafiador demais, para mim, falar sobre isso. Qualquer sobrevoo que eu faça não fará jus à sua verdadeira gênese.

Jaguar, trovão é uma decisão mítica do autor para re nomear sua obra.

Antes, o título do Jaguar era Depois, o fogo, que muito havia me impactado. 

Porém, como num ritual de transformação, o autor se deixou atravessar pelo portal ditado pela poesia, por sua alta densidade e pelo desvario do que se faz poema, sem piedade, sem concessões.

Minha presença aqui só se dá condicionada aos nossos delírios e segredos circunscritos à recente e inigualável história de nossas vidas. Ora, Willer nos aproximou. E parece que tudo que Cláudio Willer fez e faz nascer se enraíza de forma distinta, visceral, mítica e profética.

Navegando em êxtase no fogo e na força mítica da escrita de Gledson Sousa, resta convidar o leitor para um ato-entrega. Para essa entrega, cabe enfatizar o elo indestrutível que entrelaça nossas vidas com este verso de Claudio Willer, que ainda vive em nós e viverá:

… a vida é extensa como uma revelação.

Assim são a obra e a vida de Gledson: um grande poema –revelação.  

Lançamento do livro acontece no próximo dia 08 de junho na Livraria e Café Patuscada, Rua Luis Murat, 40, Pinheiros, São Paulo, SP, às 19:00 <<

1 comentário em “Do fim ao começo”

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