Entrevista realizada por Aristides Oliveira
Dando sequência as entrevistas da minisérie “Quilombo Mimbó: histórias de vida”, compartilho a conversa que tive com Elisete Pereira, que narra sua trajetória como educadora dedicada a ensinar – junto com sua equipe docente – as crianças a valorizar suas origens, sua cultura e a compreender os desafios de viver no mundo atravessado por conflitos e preconceitos raciais, traçando caminhos para se fortalecer diante desses problemas e não desistir.
Boa tarde. Deixa eu apresentar, sou a Elisete, diretora aqui da escola e moro no Quilombo Mimbó. Sou pedagoga, tenho uma pós-graduação em psicopedagogia. A escola é municipal e atende crianças dos anos iniciais. Quando entrei para cá, não entrei como professora. Foi muito difícil. Porque era só a professora de Amarante (PI). E para mim, mudar a realidade, nossa, trazer o nosso costume, nossa história para cá foi difícil, porque eu era sozinha do quilombo aqui na escola.
Quando me apresentei como professora, as crianças não queriam nem me aceitar. Enfim, o que achei difícil foi os desenhos delas nas paredes. Enquanto nós era pretinha, a delas (imagens na parede) era loura. Bonecas louras, tudo isso aqui na escola.
Aí eu digo: “valei-me, Jesus”. Como é que eu vou começar? Fiquei perdida, não vou mentir.
ARISTIDES: Quando foi? Tu lembra?
Quando eu fiquei aqui foi em 2014.
ARISTIDES: Recente, né?
“Como é que eu vou me encontrar aqui como professora quilombola?”
Sala super lotada, turma muito seriada, olha como foi difícil. Eu lembro da turma com 26 alunos, meninos já grandes. Tudo com idades avançadas, repetentes. O professor desistiu daqui da escola, porque era difícil no tempo. Ninguém queria vir pra cá porque, devido a gente ser preta, por ser do Quilombo, ninguém não queria vir. Foi por isso que me botaram aqui. Enfim, quando entrei eu mudei, comecei a trabalhar pelo mês de maio na data abolição da escravatura e trouxe pra cá a nossa realidade. Todos os anos trabalho a história nossa aqui do Quilombo. Eu trabalho com danças, dramatizações, tudo do Quilombo.
Meus alunos hoje, de sete, oito anos já sabe cantar, doutrinar, porque aqui nós somos do mundo do Axé, Umbanda. É muito viva essa cultura aqui. Hoje me considero como coordenadora, uma das coordenadoras da cultura na escola porque eu trouxe a Umbanda, o pagode e outras danças para escola.
Eu trabalho todo mês aqui, ou seja, temos uma educação antirracista dos anos iniciais até o quinto ano. Sexto ano, já vão para a cidade, porque não temos ginásio. Quando os meninos saem daqui, quando mudam da escola, costumam sofrer preconceito ao serem chamados de “macaco”, “preto”, esses nomes… Nós temos que trabalhar a educação antirracista e ensinar para os alunos que o preconceito mata.
Quando chegar em outra escola, que alguém chama eu de “macaca”, preciso saber me defender. Por que que a preta não pode sentar na cadeira de diretora? A realidade vai mudar. Ainda bem que tive o apoio do pessoal. Algumas pessoas de Amarante me apoiaram. Eu tô há cinco anos como diretora nessa escola.
Meu trabalho é focado na educação antirracista. Falamos sobre o respeito e a igualdade. Em qualquer lugar nós somos iguais. O nosso sangue é igual. Se cortar o dedo meu, comparado com o seu, o sangue é a mesma coisa. Então, para que essa divisão? Para que esse preconceito? Eu sempre repasso isso para os meus alunos para quando chegarem lá fora, saber conversar, saber se defender. Porque o racismo não acabou. E o meu lema é esse. Quando saio da direção e volto pra sala de aula, luto em combate ao racismo, esse preconceito que está no meio de nós. É difícil, mas está.
ARISTIDES: Que tipo de atividades vocês planejam em sala para fazer essa conscientização?
A gente faz debates, ou seja, de mês em mês tem um planejamento. Eu tenho meu plano de ação todo feitinho, meu plano de gestão. Por exemplo: a gente faz uma atividade com as bonequinhas do laço de fita. Não conta com aquelas bonecas brancas. Não, as histórias são todas voltadas para nós. Esquece aquelas histórias de “não sei de quem”.
Nas escolas a gente ouve a história muito vinculado à história do europeu, do homem branco. Nosso trabalho é da história voltada para a comunidade.
É, porque o Brasil, a maior parte é preto, gente.
Trabalho com planejamentos, formações que a gente faz aqui dentro da escola.
A gente fala um pouco da história do pagode, aí quando termina, dança. Meus alunos hoje, aqui, eles não me passam vergonha.
Se eu disser: “vamos apresentar lá em Amarante e falar um pouquinho sobre que é o Mimbó, eles vão. E a gente trabalha sempre isso aí, a história do Quilombo. Como se defender desse mundo que está hoje. Um mundo que a gente não consegue mudar.
A gente luta, mas o que acontece? Eu sozinha lutando, os outros lá fora não lutam. Nós aqui dessa escola, nós não desistimos.
ARISTIDES: Qual é a sua relação com o Pagode e a Umbanda?
Eu sou um umbandista, filha de santo e médium. Minha avó é de nascença. A minha tia é de nascença também. 27 anos que minha tia é médium, é espírita, vive do campo espiritual, e aí foi onde a descoberta veio dela, pegando na minha cabeça, dizendo que eu era, dizendo que não queria ser, que não queria.
Eu começava a passar mal, me tremendo, mas dizia: “eu vou me controlar”. Dizia que eu não queria, aí depois que acordei para a vida e vi que aqui é a minha cultura, minha identidade, me aceitei. Sou umbandista, filha de santo. Tenho minha mãe de santa, mas sou médium batizada.
Faço parte do campo espiritual.
Não só eu, várias crianças aqui também, que é de nascença.
Eu tenho um alunozinho, acho que ele tem oito anos.
Se você ver a história dele. Ele incorpora.
ARISTIDES: E no currículo de vocês tem História do ensino religioso?
Tem.
ARISTIDES: Como é que vocês trabalham as outras religiões na escola? Como é que vocês conciliam essas outras práticas ensinando para eles?
Aqui no Mimbó nós temos um pouco da Umbanda e os evangélicos. Inclusive tenho professores que são evangélicos e respeito. Todo mundo é parente. A gente se respeita. Aí é trabalhada a história da nossa Umbanda aqui e eles tem o momento deles.
Hoje é trabalhado religião, cultura e artes no sábado.
Quando eles estão orando, doutrinando, a gente acompanha eles de boa. Nos respeitamos aqui na comunidade.
ARISTIDES: E nesse movimento que você falou, tão difícil num mundo marcado por intolerância religiosa, que tipo de fala você tem com eles sobre esse tema?
Lá fora, não sei porquê, que as pessoas veem a gente como um “macumbeira”, “feiticeira”, mas não tenho preconceito no meu turbante. Não tenho preconceito na minha religião.
Eu repasso o que eu sei: “vamos nos aceitar do jeito que nós somos. Nós não somos pessoas malvadas. Nós somos as pessoas que ajudamos. Nós, na sociedade, como Deus nos dá licença, as nossas entidades ajudam as pessoas. Isso é verdade. Como Deus nos dá licença, nós somos incorporados e nós ajudamos”. Eu sempre repassei isso. Então, vamos deixar esse preconceito de lado minha gente. Aceite nós como nós somos. Nós somos todos iguais.
Aceite nós, o nosso mundo, o mundo do Axé. Se vocês são de outro mundo, mas nós somos todos iguais, todos filhos de Jesus Cristo. Então pra que essa divisão? Se um adoecer no hospital apesar de não ter sangue, o meu serve para o seu.



