A Revista Acrobata irá lançar um bombardeio de textos que cobrem várias fases da produção intelectual do pensador famigerado Jomard Muniz de Britto (JMB), sobrevivente da Bossa Nova e Tropicalistas de todas as eras.
Com curadoria de Aristides Oliveira, iremos conhecer (sem ordem temporal definida…) o pensamento que ultrapassa qualquer tentativa de categorização histórica, pois JMB entra e sai, percorre por dentro e por fora da contemporaneidade.
O ENTRELUGAR DA POETICIDADE nos 500 anos de descobertas EXTRA-literárias.
“A cultura não salva nada nem ninguém, ela não justifica. Mas é um produto do homem: nela, ele se projeta e se reconhece; só esse espelho crítico lhe oferece a sua imagem”.
Jean Paul Sartre, As Palavras.
O Autor precisa aprender a se olhar ao espelho e ver aí refletido o Outro. Aprendizado indispensável. – João Silvério Trevisan, O Livro do Avesso.
Tenho sido bom profeta e vou dizer. Os últimos anos do século serão os anos da redescoberta de Satre. – Glauber Rocha, no livro de Sylvie Pierre.
Redescobrimentos. Outras cartas de Caminha. Pensamentos nômades.
Descaminhos.
Da paisagem recortada pela janela, predominam o azul e o verde, cactos urbanos ladeando um posto de gasolina, mangueiras e sapotis, automóveis quase em disparada, estudantes de cursinho de pré-vertibular, nossa cotidiana engrenagem. Nesses 500 anos de tantos descobrimentos e encobrimentos, qual o entrelugar da POETICIDADE? Uma palavra-valise ainda não dicionarizada. Não poderia ser a simples prosa de conversação, linguagem direta no campo das denotações, fala cotidiana, palavra puxando palavra como sorvete, derretendo-se no canto da boca de qualquer adolescente. Nem mesmo outra possível e rigorosa “condensação” intencionada para a poesia que, em verdade ou verossimilhança, está muito mais nos livros do que na vida. Se não é prosa nem poesia, poeticidade o que há de ser?
A que será que nos destina ou nos desatina? Redescobrindo-se?
Nossa palavra preferencial, insistimos, palavra-valise nela transportando o Poe, dentro e fora da poética de Edgar Allan, a ética e a cidade – poeticidade – pode não ser uma feliz invenção de ou para ninguém. Mas que soa bonito, soa, ressoa, repercute aos brasileiros e estrangeiros de ouvido musical. Com todas as hesitações entre o som e o sentido, que Valéry tanto admirava por praticá-las. Poeticidade. Um significante alongando-se ou desdobrando-se em significados. Palavra indomável. Em suspense ou suspeita, quase em transe, como na terra dos papagaios das poetagens. Poderia ser a poeticidade um de nossos projetos, enquanto possibilidade ou virtualidade, do devir ou dos devires? Um tornar-se poeticidade?
Estamos aqui e a alhures para percorrer alguns labirintos da escrita, em todas ou, pelo menos, algumas de suas ambiguidades. Rima precária, mas necessária para a poeticidade. Se não é pura prosa ou poesia concreta, ela poderia ser um jogo de sedução entre ambas.
Uma dialética mais ou menos rarefeita entre a poesia e a prosa, a narrativa e o acontecimento, o mito e o retrato, o discurso e a intuição, o desvendamento e as surpresas. Nossa “boa palavra”, nossa “boa morte”, nossa felicidade em migalhas. Busca permanente em linguagem, através de paradoxos e contra-dicções. As mais ternas e violentas perplexidades. Sempre uma Aventura: ou quase: em busca de outras rotinas, ou melhor, através de outros roteiros. Poeticidade: o que está aquém e além do dito, do verbal, das palavras e conceitos. Um jogo de fissura entre chaves e chavões. Um jogo para enfrentar os cartolas de todos os estereótipos, doxas, opiniões inabaláveis.
Se o poeta Alberto Cunha Melo, no seu invulgar “Carne de Terceira”, já considerou “modernidade” uma gorda palavra, como então saborear a impoderável leveza de ser e ter poeticidade? Palavra inflada ou inflacionária?
Aos leitores – na condição histórico-existencial de co-autores do texto -, todas as potencialidades de sedução recíproca, à parte das leituras, com todas as suas mediações do corpo deste sujeitoobjetosujeito, com sua trama familiar, sua economia doméstica, sua renda, sua instrução, seus desejos e ambições, seus traumas com a Morte. Nesses 500 anos de descobertas extra-literárias.
Arriscar ainda é preciso. Nessa ousada miscigenação entre prosa e poesia, diálogo em conflitos, harmonia por demais passageira, o que poderemos ainda mais desejar? Miscigenação nos remete a todos os sincretismos, fusões e confusões, multiculturalismos, rejeições e apropriações, heranças e errâncias. Sincretismo que não pode ser confundido com sinCRETINISMO, ou melhor, com o exercício bajulatório em torno dos poderes constituídos.
Como ainda escapar das armadilhas conceituais?
Como ‘fazer de conta’ ou fingir por attitude, que esquecemos leituras, citações, influências, gostos e desafetos geracionais, toques de classe ou estigmas de sexo, marcas ideológicas, religiosidades, buscas de uma consciência possível, frases de efeitos com ‘defeitos de fabricação’, ruínas de narrativa, cadeias suspensas e cerradas de significantes, agências e instituições, indivíduos, sociabilidades e burocratismos? Todas as mediações extraliterárias da poeticidade?
Como poderíamos renunciar ou ocultar a pobreza tímida de nossas famílias católicas e a mais quimérica ambição de ultrapassar a mediana e a miséria filosofante de nossas classes medias? Renegando ou traindo nossos males e bençãos de “origem”, nossas casas de porta e janela, sem quintal nem biblioteca? Talvez as “ilusões da modernidade” – antes, durante e depois das literaturas -, pudessem ter “funcionado” como tábua de salvação. Que os Shoppings emergentes não nos levem ao esquecimento das feiras e dos mercados, dos camelôs, dos mendigos e dos professores primários. Mas tudo mudou, quem sabe para melhor: trocamos a singeleza de nossas casas pequenas por apartamentos razoavelmente confortáveis e, neles, padeceremos de falta d’água neste fim de século. Sem agouros nem profecias. Os mesmos sinos e atabaques: além de católicos tradicionais ou de “esquerda”, o homoerotismo e a Antropologia nos conduziram aos cultos afro-brasileiros. Assim, para cada Dom Helder, muitas Menininhas de Gantois. Outros carnavais: outros blocos de sujo e papangus convivendo com a mercadologia dos bicheiros e políticos do turismo oficializado. As mesmas carências de outroar: sem terra, sem teto, sem escola, sem trabalho, sem água. São Franciscanamente, pelas águas e ciúmes e carrancas do rio-fundador. Velho Chico… Sertões. Miscigenadamente. Ou danadamente. Ilusionismos de sempre.
Sem esquecermos a sedução exercida por Brecht, sobretudo a partir da década de 60. Com as mesmas vinte palavras girando ao redor do sol, como no poema que João Cabral dedicou a Graciliano Ramos. Com as mesmas vinte violências de todos os autoritarismos. Com um toque talvez brethtiano, o historiador Evaldo Cabral de Mello nos faz repensar Nabuco por ele mesmo: “A africanização do Brasil pela escravidão (pela escravidão, note-se bem, não pela presença Africana), é uma nódoa que a mãe-pátria imprimiu na sua própria face, na sua língua e na sua única obra nacional, verdadeiramente duradoura, que conseguiu fundar”.
O jogo infinito da poeticidade entre descobertas e encobrimentos extraliterários, registra e ressignifica a palavra NÓDOA: nó e doa, de doer. Nó cego, muito difícil de desatar. Nó cego de doer. Nó difícil de romper. Nós cegos, mas luminosos. Pesados. Doloridos. Projetos de libertação. Luminosa e corajosa cegueira de Glauco Matoso. Nosso aprendizado indispensável: quando a falta se transforma em fulgor e a carência se ultrapassa em contundência.
SONETO BRAZILIANISTA
A história do Brasil, vista de fora,
tem cara de chacina suburbana.
País continental, caldo de cana,
amargos episódios comemora.
Palmares e Canudos, quem deplora?
Mascates, Guararapes, quem se ufana?
Farrapos da polícia alagoana
são dívidas de sangue sem penhora.
Insistem que o país foi incroento,
o oposto de outros pontos do barril
de pólvora, um planeta de sargento.
Mentira deslavada! Esse Brasil
não passa de um quintal sanguinolento,
avícola da paz, guerra civil!
Através de uma prática rigorosa com Sonetos, Glauco Matouso redescobriu a luxúria dentro da língua/linguagem. Sem usar nem abusar de neologismos, escapando de raspão dos campos de concentração das vanguardas, ora históricas, ora histéricas, ora histriônicas, Glauco Matouso bem que poderia subscrever tópicos da “Aula” de Roland Barthes: “a nós, que não somos nem cavaleiros da fé, nem super-homens, só resta, por assim dizer, trapacear com a língua, trapacear a língua. Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem (Cultrix, p. 16).
A poeticidade nos remetendo à experiência de FRUIÇÃO do texto, através do descentramento simultâneo de autores e leitores, cúmplices de uma aventura de SEMIOSIS, onde se configura o infinito da língua/linguagem/metalinguagem, marco zero de todas as escrituras ou escriDURAS. Nada de novo sob o sol, mas acima do sol ou embaixo do caos/lama, o novo continua persistindo. O novo, o devir, o tornar-se, o turvo, o estorvo, a bastardia, as revoluções moleculares?
Se Jean-Paul Sartre instaurou O SER e O NADA, a psicanálise existencial enquanto projeto de criticidade e, portanto, apostando no futuro e apontando para êxitos e fracassos, tanto da prosa como da poesia, os experimentos com a poeticidade jogam através dos nós, cegos e luminosos, da psicanálise selvagem. Nós do real/do imaginário e do simbólico. Nós das grades da gramática, dos delírios da imaginação além dos sonhos e dos pesadelos e NÓS de todos os complexos culturais com suas mediações e intermediações. Desmontando as viseiras entre o poético e a crítica da cultura, desfazendo as viseiras entre as altas literaturas e as culturas de massa. Problematizando as possibilidades de uma pop-filosofia.
Tudo girando em torno das vinte palavras e violências ao redor do sol, reproduzindo antigas perguntas de um Edgar Morin, em “O Espírito de Tempo”, livro datado da década de 60, mas que parece em busca e trânsito para o Expresso 2222. Eis o texto de Morin:
“O que existia antes da cultura de massa? Holderlin, Novalis, Rimbaud eram eles reconhecidos enquanto vivos? O conformismo burguês, a mediocridade arrogante não reinavam nas letras e nas artes? Antes dos gerentes da grande empresa, dos produtores de cinema, dos burocratas do rádio, não havia os acadêmicos, as personalidades gabaritadas, os salões literários… A velha “alta cultura” tinha horror ao que revolucionava as ideias e as formas. Os criadores se esgotavam sem impor sua obra. Não houve idade de ouro da cultura antes da cultura industrial.
E esta não anuncia a idade do ouro. Em seu movimento, ela traz, mais possibilidades que a antiga cultura congelada, mas, em sua procura da qualidade média destrói essas possibilidades. Sob outras formas, a luta entre o conformismo e a criação, o modelo congelado e a invenção continua”.
Se a luta continua entre o conformismo diante das leis do mercado e a insubordinação em face dos micro-poderes das belas artes, a poeticidade sugere o desejo desejante de investir dentro e fora dos “guetos” da literatura, tanto das sub-literaturas como das super-literaturas. Como agenciar novas subjetividades ou subjetivações diante e dentro dos controles burocráticos, de ordem ou desordem econômica, religiosa, educacional? Sempre interrogando, ao contrário dos que postulam uma cultura por demais afirmativa, a poeticidade continuará no combate e até na provocação de outros processos de sociabilidade e socialização das culturas. Por isso, instauramos ou problematizamos todos os sustos, suspenses e suspeitas da poeticidade, que não pretende ser mitologia ou encantamento para ninguém. Como a palavra, o silêncio, o grito, a memória além do memorialismo, a retórica minimalista, a mais rarefeita dialética fenomenológica, mas também histórico-existencial, vislumbrada e exercitada pela artevida atrevida (WAS) de Paulo Leminsky:
“R
(anos-luz, anos-treva)
Ler, ver,
e entre o V e o L
entrever aquele
R
erre
Que me (revê) revele
(*) Ler trevas. Nas letras, lê tudo o que de ler não te atrevas. Ler mais. Ler além. Além do bem. Além do mal. Além do além. Horas extras ou etcéteras, adeus, amém. Busquem em outros a velocidade da luz. Eu busco a velocidade da treva”.
Buscamos a “velocidade da treva” ao mesmo tempo (sincrônico – diacrônico) em que desejamos a INTENSIDADE de uma alegria dos abismos, para nada salvar. Para nada perder. Para nada recuperar.
Por fora dos complexos messiânicos de “salvação cultural”.
Por dentro do experimental que se torna experimentário, segundo Moacy Cirne, o professor agitador do Balaio Incomum, outro Chico Doído do Caicó, na baia de Guanabara. Experimentário: operário da língua/linguagem, das experimentações. O contrário, portanto, dos intelectuários como burocratas da linguagem intelectual.
Pela luminosidade das trevas e abismos. Aproximando-se. afastando-se, sem jamais recuar. Por todos os descaminhos extraliterários da poeticidade, aportamos nas funções da linguagem, segundo Roma Jakóbson, através de um jogo de antíteses.


