A Revista Acrobata irá lançar um bombardeio de textos que cobrem várias fases da produção intelectual do pensador famigerado Jomard Muniz de Britto (JMB), sobrevivente da Bossa Nova e Tropicalistas de todas as eras.
Com curadoria de Aristides Oliveira, iremos conhecer (sem ordem temporal definida…) o pensamento que ultrapassa qualquer tentativa de categorização histórica, pois JMB entra e sai, percorre por dentro e por fora da contemporaneidade.
Através dos abismos da empatia.
Pode parecer mais fatal ou frugal das temeridades. Nesse clímax de tantas homenagens, a tentativa de tecer algumas brevíssimas considerações em torno ou a partir de quem, por unanimidade, vem sendo indicado como um dos maiores escritores brasileiros ou em língua portuguesa de todos os tempos e antecipações. Temeridade, portanto, em longa duração com a história das intimidades, privacidades e mentalidades. Além do menos, temeridade, porque a impressão que nos assalta e absorve é a de que, possessivamente, tudo já foi dito, desdito, reescrito e questionado por ele mesmo, talvez mais do que por impossíveis discípulos, estudiosos e hermeneutas.
O seu estilo ímpar, insuperável, fulgurante, o seu estilo, a maestria de saber, libidinalmente, o entrecruzamento de longos e curtíssimos períodos. Todos os ritmos. Todas as citações. Todos os prefácios. Todas as racionalizações apaixonantes. Seus advérbios. Por exemplo, tecendo comentários sobre “um pouco de sociologia da literatura”, vejamos sua ousadia adverbial:
“O que vem é realizando reabilitações de interesse geral para essa cultura e para esse sistema, de elementos que por este ou aquele motivo se acham subestimados artisticamente, literariamente ao mesmo tempo que culturalmente e socialmente. Como arte voltada para o socialmente inferior, a arte popular ou folclórica, especialmente a música, pode agir e tem agido no sentido de reabilitações valiosas para a cultura brasileira, sem se tornar definitivamente ou sectariamente etnocêntrica” (Alhos e Bugalhos, Nova Fronteira, p. 68 e 69).
Assim, o luxo, ou melhor, a volúpia dos advérbios em MENTE. Musicalidade e superoralidade ultra-esbanjando-se. Sem autocensuras, sem medo de ser feliz através da retórica, do prosaísmo, do didatismo, da prolixidade, dos excessivamente mestres professores. Ao contrário do tom professoral, sua adverbial melopéia conjuga-se com todos os tempos e contextos da informalidade, da conversação quase intimiste. Do coloquial muito mais dos alpendres e terraços do que das rotineiras salas e seminários das universidades. Ele, que nunca desejou ser professor no sentido tradicional, apesar das inúmeras insistências a respeito ou a despeito, é hoje sujeitoobjeto de múltiplas Cátedras em torno e a partir de sua obra catedral. Monumento dos monumentos e movimentos. Tropicologias.
Ser professor para ele, poderia representar apenas uma Vírgula em sua trajetória intelectual ou em sua biografia histórico existencial. Logo, para ele, que sempre colocou todas as vírgulas sob suspeita para melhor poder dispensá-las em nome da fluência e mental flutuação. Entre o gozo dos advérbios e a quase castração das vírgulas, ele foi ímpar e insubstituível na formação de neologismos.
Um Joyce tropical?
Dos neologismos, talvez o mais famoso de todos, em fiel tradução do inglês: EMPATIA. Com esse termo inédito, vislumbramos as potencialidades – hoje seria melhor afirmar as virtualidades – de e para nos situarmos no lugar, tempo, espaço, circunstâncias, afinidades, (ex-) interioridades do OUTRO. Além dos simples e simplórios psicologismos, muito antes dos hermetismos e das “lacanagens”. Multidisciplinaridades.
A empatia, não como substrato ou substância, mas possivelmente como fundamento existensivo-ecológico de todos os diálogos interculturais, interpessoais e intergrupais. Jogo de aproximações, identidades e alteridades, numa mesma e pagã oração. Núpcias de Apolo e Dionísio. Conversas entre Narciso e Goldmundo, segundo H. Hesse. Empatia abolindo as distâncias entre o senso comum e a cientificidade, dispensando e superando, assim, todo e qualquer “corte epistemológico”. Empatizar como fonte perene de projeção/identificação/transfiguração com os outros. Através dos outros. Mentes e corações. Percepções e imaginários. Corpos e ideologias, reinventando-se permanentemente. Encenações heraclitianas. Tropicalismos pré-socráticos.
Dessa empatia perspectiva, poderíamos considerá-lo nosso mais fecundo e promissor tropicalista do século XVI, na literatura em língua portuguesa, ensaísta de um novo tipo e tempo. Tempos mortos eternamente revividos. Tudo é reinvenção para ele, do mais retrô ao mais futurível/futurológico. Além do apenas pós-moderno, poderia também reconfigurar-se, empaticamente, como um inesgotável Marshall McLuhan dos trópicos. O Canadá seja aqui.
Persona abrangentemente polifônica. Máscara de todos os mascarados com e sem deuses e demônios. Um Proust generosamente franciscano. Um Nietzsche tropical acima do bem e do mal das ditaduras culturais. Um Joaquim Nabuco atravessando origens e abismos de nossa tragicomédia de escravidões. Um Roland Barthes assistindo ao espetáculo Sobrados em Mucambos, sob direção à adaptação-reinvenção de Antônio Edson Cadengue. Todos em nome do pai, patriarca, personagem desdobrando-se por si mesmo. Pai-fundador. Personagem-Instituição. Patriarca escultural. Pai dos trópicos. Pai-narrador- decifrador. Pai-irmão de Zé Lins. Pai-errante-de pernambucanidades. Pai-filho-espírito do & e do Y.
Esse saber tão bartesianamente saboroso de permanências e ultrapassagens, cristalizações e ressurgências, que é que nos reconduz da Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX até esses 500 anos de descobertas e incontáveis encobrimentos litero-antropológicos. Ao saber e sabores do texto originário:
“Na verdade, a escravidão no Brasil agrário patriarchal pouco teve de cruel”. A grande sensibilidade à música possivelmente terá tornado alguns escravocatas brasileiros particularmente benévolos e delicados em suas relações com os escravos”. Os escravos eram espancados quando surpreendidos em malfeitos, e punidos com um tronco ou com a máscara, quando apanhados em vícios perniciosos ou flagrantes de furto. A sinhá-dona trazia quase sempre um chicote. Era pelo Natal que se trocavam, patriarcalmente, presentes não só de perus e de bolos, como de porcos e até de escravos”.
Entre a delicadeza dos vinte anos e a intemporal crueldade, a EMPATIA como pressuposto de todos os ecletismos e pluralismos metodológicos. Ficções e teorizações. Razões e fricções. Místicas. Assombrações. Empatias desbravadoras. Reconhecendo e reconciliando o negro africano na condição de CO-colonizador. Mas o que é isto? Antes de todos, a coragem maior do que a empatia de transformar o neologismo em quase escatologia: co-co, cô-cô…O galo cocorocó noites e amanhãs tropicais. Antevisões do pai totêmico.
Se a empatia gerou a co-colonização, pelo sim e pelo não, pelo prazer dos paradoxos, pela talvez inconclusão de todos os projetos civilizatórios, entre o sadomasoquismo e a mais alegre de todas as festas e miscigenações, eis o ENTRUDO, nosso carnaval no país de todos os sincretismos. Todos os tempos e espaços. Religações. Todos os abismos. Todas as democracias?
Em nome e louvor do tempo TRÍBIO, outra expressão tão estranha quanto preferencial, tudo é recorrência musicalíssima: passado/presente/futuro/antes/depois/agora/instante/duração/eternidade/repetições/diferenças/eternos retornos. Do mesmo nos Outros. Do Outro nos mesmos. Círculos concêntricos do Brasil para o mundo em Apipucos.
Colúmbia seja aqui. Pai-filho, genial herdeiro de Boas.
Para terminar sem concluir, supremo gozo de todas as interpretações que sejam interpenetrações, a empatia, co-colonização e o Tempo Tríbio poderiam talvez configurar a tríade de um pensamento. Pensamento talvez bem mais metafísico do que desabusadamente antropológico. Metafísica de todos os paradoxos e de todas as reconciliações entre contrários. Através da empatia ainda poderemos falar em antropologia ficcional de nós mesmos, metaraciais e anarco-construtivos. Anarquismo construtivos pós-marxo-analógico-digital, que também poderia (im)perfeitamente rimar ou ritmar com a mais positive (não positivista) das co-colonizações. E, finalmente, auto-superando-se em tempo tríbio, tão estranhamente trivial, tão terceiramente transdialético, tão semiologicamente gustativo-açucarado, tão adverbialmente luxurioso, assim, com tantos infinitos advérbios, qualquer outro dia redescobriremos o Brasil de nossas utopias, entropias, cacofonias. O Brasil de todos os nominalismos. Do mais prolixo dos nominalistas. Da grande solYdão nos trópicos de Pernambucâncer. Celebrando, comemorando, cantando nossas felizes e patriarcais mistificações. Em tempo de Paixão e celebrações, afastem de mim esse Pai co-Criador! Aos filhos Sônia e Fernando, sempre tão substantivamente afáveis. Por outros Gilbertos.
Revista Symposium, ano 4, dezembro de 2000.
A grande solYdão
(ao centenário de Gilberto Freire).
Não decantada pelo mago Rilke
de amores e anjos terríveis.
Nem o sol da mais sólida soledade
Nas tropicais miscigenações.
No solar de mangueiras, licores de pitanga.
Tantas comendas, quantas ingratidões?
Desabafo na cidade sitiada
Em trópico de pernambucâncer:
Meus filhos, volúpia genética,
sem os lances de minha genialidade.
– Discípulos? – talvez por ventura
intelectuários.
– Dissidentes? – desaforadamente sectários.
(Salve-se a vaidade de um ex-Príncipe
da Sociologia).
– Madá, ô Madá, ô Magdalena, Magdeleine!
Larga esse tricô e vem me abrasar…
Coço as virilhas da poesia em pânico:
– Vem, ó menino da rua, menino senzalado,
desejado.
Foi eu quem inventou a morenidade
de teus suores e músculos e apetites.
Durmo sonhando com a eternidade de meu Y.
Recife, Brasil, 2000.
