10 Poemas de Edson Cruz

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Edson Cruz (Ilhéus, BA) é poeta, editor e mestrando em Escrita Criativa na Universidade de São Paulo. Fundou e editou a histórica revista digital de literatura CRONÓPIOS e a revista digital MNEMOZINE. Edita, no momento, a revista MUSA RARA (www.musarara.com.br). Estudou música, psicologia e letras. Têm 13 livros publicados, entre poesia, prosa, ensaios e infantojuvenil. E-mail: [email protected] Insta: @poeticas.da.escrita

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UM CANTO NA FLORESTA

         Edson Cruz foi um dos primeiros amigos que fiz na selva de São Paulo. Assim: nas plantas concretas de suas esquinas. Escritas. Pelo som de uma palavra. Umas páginas abertas. Waly, Ilhéus, logo acolá.
         Foi na Rua Girassol. Ou antes: na Purpurina. Ou no quintal de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Quem sabe ainda no Recife? Não importa em qual miragem. Essa amizade.
         Ele quem primeiro me abriu a porta de Bispo do Rosário. Aquela cela de seus mantos. Os panos do budismo. Goles de sabor saquê. A filosofia guia dos terreiros. Nos Campos de Augusto. Pôs para eu escutar a mosca de Walter Franco. Não me esqueço: de a gente na casa do guitarreiro Luis Vagner à Rua Simpatia. Um passeio afro sulrealista que fizemos em Atibaia, cidade chão constelação do nosso mestre André Carneiro. À vera, feito Eunice Arruda, o poeta desde sempre me plantou uns haicais bonsais. Compusemos até juntos umas ladainhas. São testemunhas Estela Luz, Fabiana Cozza, Sourak, Manoel de Barros, Adrienne Myrtes, Valter Hugo Mãe. Xangô, Ossanhe.
         O tempo é o melhor livro. Hoje ele, nuvem, me vem com este belíssimo Satori na Laje. Eu arrepio. Porque preciso. Esse clássico luminoso. Porque tem aí uma natureza expandida. Uma mente aguçada. E quieta. Na calmaria de sua poesia liberta-se o pão de cada dia. Perversos não são os versos, mas o que fica da linguagem à margem. Ela que nos alerta das milhares de luzes que ofuscam tanta miséria. Coirmão, este meu irmão, de Ricardo Aleixo, Nelson Maca, Geni Guimarães. Bashô, Buson. Tão mestre quanto quântico. Cruz que carrega lajeando as estrelas. Na companhia de Tom Zé e Waits. Das capivaras às beiras da Cidade Universitária. Salve e salve!
         Satori é um volume de belezas, delicadezas acesas. Um tanto de tanta alegria esse nosso reencontro aqui, nessas linhas. Em um mundo que cada vez mais necessita de samba e de mar. De uma ternura para poder voltar a sonhar. É possível. Não é pouca coisa o que a gente conseguiu cultivar.
         Em bom portunhol, “Gracias, muy querido amico”.
         O resto deixemos a floresta, que nos resta ao redor de nós, cantar.


Marcelino Freire


Melonegra

A noite a emitir o seu canto,
um tambor no âmago da Terra.
A fúria em seu sumário de guerras,
o amor amenizando o quebranto.
As vozes com seus murmúrios de rio,
o desejo a ondular com as serpentes.
A perspicácia de um Oxóssi eloquente
e a beleza de Oxum em desvario.


Mandinga

um negro tange sua Kora –
instrumento que a tudo abrange:
o pôr do sol se espreguiça.
o lume das estrelas se estica.
a vibração oitavada se expande
e o Atlântico Negro feito tsunami
invade todos os recônditos do agora.


Canto da Floresta
(inspirado em tradições Yanomami)

Yanomami thëpë, yarori pë
(Os espíritos da floresta cantam, a terra responde)

O céu desce sobre as folhas verdes,
o rio murmureja segredos desconhecidos.
Xapiri dança entre o fogo e as sombras,
nos olhos da noite, o mundo renasce.

Yanomami thëpë, yarori pë
(Os espíritos da floresta cantam, a terra responde)


Florestania
para Ailton Krenak

I
A floresta não é um lugar,
é um corpo que dança.
Cada árvore é um membro,
cada rio, uma veia
em diástole cósmica.
Os humanos são sopros,
tosses roucas no pulmão
desse sistema-mundo.

II
A onça não é um animal,
é uma cidadã da floresta.
Seus direitos foram inscritos
antes dos seres
nas entranhas das taperas.
Ela não precisa de licença
para ser a fera que é
para estar onde está
deveras.

III
O rio não é um recurso,
é um transcurso,
um parente na imensa árvore
genealógica ameríndia.
Ele canta para as pedras,
conta histórias para as raízes,
ensina a cada curva
mesmo quando turva
o sagrado fluxo da vida.

IV
A cobra não é perigosa,
ela é uma anciã.
Ensina a trocar de pele,
a deixar para trás
o que já não serve mais.
A cada etapa nos ensina
com seu cantar-se toda.

V
Os pássaros não são mensageiros,
são a própria mensagem.
Trinam segredos
do vasto mundo sem limites,
onde o céu, a terra, os rios e os mares
vivem sem degredo.

VI
Não somos donos de nada,
somos hóspedes
em uma casa compartilhada.
O planeta nos acolhe,
ele quer ser nosso amigo
mas nos cospe se necessário.


antes da escrita
do poema
a poesia me apalpa
com seus dedos
de aurora.


Uma única palavra
e o poema precipita-se todo
na beleza.


Na noite sem lua
todos os brancos são pardos.
Polícia nas ruas.


Guris no velório.
No caixão madeira pinus
o paizão sorri.


Em plena avenida
uma falha na Matrix:
Ipê-amarelo


Miles Davis

how many miles
must one walk
to become a Miles?


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