Por Floriano Martins
Em grande parte, aquilo que compreendemos como sendo nossa ideia de mundo, uma forma entranhada de convívio com o outro, quase sempre seguida de uma maneira de agir, está constituída pela leitura de livros. E mais entranhada se pode considerar esta leitura quando a tratamos como um sinal de convívio com o outro. Se escrevemos livros movidos por este cuidado – e aqui não se pode esquecer que o solilóquio é uma das manifestações de nossa entrega ao mundo – é também verdade que sua leitura se assenta em nossa percepção de uma familiaridade.
A muitos pode parecer estranho que se alcance tamanha afinidade com instâncias dentro e fora de nossa medida de tempo, o tempo dado como real, do imediato, dessa fratura ditada pelo atual ou contemporâneo. Percorremos desembaraçados, entretanto, as trilhas mais suspeitas quando somos tocados pelo afetivo. Nenhuma temporalidade nos indica o cainho quando nos entregamos à vertigem do ser. Os dias, os livros, os amores. As anotações que fazemos no pergaminho do tempo são pirogravuras. Entram e saem pelo porto do infinito e identificam uma proximidade imprevisível entre circunstâncias presumivelmente díspares.
Já não se trata tão-somente de ler no sentido corrente da interpretação como hábito ou lazer, tarefa ou mania, mas antes, uma disposição para participar do mundo, a partir dessa espiral reflexiva que transmite a leitura. É efetivamente trazer o mundo para dentro de si, na igual proporção em que se dispõe a dar tudo de si para participar deste mesmo mundo. Como o faz o filósofo, ensaísta e tradutor português João Barrento (Alter do Chão, 1940), ao integrar-se de tal maneira ao corpo da leitura que a própria respiração se confunde com o batuque que vem de todos os sítios dessa leitura, ao ponto de criarem uma partitura de convergências, uma simultaneidade de aparências, elos que se definem onde antes talvez nem se houvessem dado por conta.
Ao comentar o fato de que marca a pele dos livros ao lê-los, que rabisca anotações na própria carne dos livros, salienta que esta é uma forma de o amar, de lhes chegar logo ao corpo e de lhes dizer que os quero para alguma coisa mais do que a exploração de sua mais valia futura em alfarrabista, do que a imortalidade ou a morte a prazo na curta memória do nosso tempo que não sabe de livros, e conclui: essas outras formas de vida, a do espírito ou a de mera coisa, sempre eles as tiveram garantidas. Mas nem todos os que lhe leem lhes fazem sentir que têm corpo.
Ler assim é dar passagem a tudo que nos define, ambientando passado e futuro sob um mesmo arco, o da palavra, por sua completude e grandeza. Neste sentido, já não importa pensar em gêneros, como origem ou decorrência. Não há maior evidência do que essa credibilidade na condição anímica da leitura, de formação da própria alma de quem a ela se entrega. Já não importa que a resultante se manifeste na forma de crônicas, ensaios, artigos, prólogos, conferências, entrevistas… Não é este o ponto, posto que não cabe classificar e sim deixar-se habitar pelas razões do outro, pelos novos motivos que o outro sugere.
No caso de João Barrento, sobremaneira interessa destacar a integridade com que vida e leitura o definem. O presente livro, montando em cumplicidade com o autor, foi desde sempre pensado como epítome, esta ousadia desorbitada de abranger quantos mundos em um só, atrevimento possivelmente capaz de sugerir ao leitor brasileiro a intensidade da entrega deste ensaísta a um mundo revelado a partir da leitura. Sobressaltando uma sensibilidade que extrapola quaisquer receituários, não se limitando, como ele próprio afirma, a uma versão da imanência, mas antes considerando todas as forças, razoáveis ou não.
João Barrento conta com uma obra das mais expressivas no ambiente crítico de seu país, confirmada por 15 livros de ensaio, crítica literária e crônica, aos quais devem ser acrescentadas as inúmeras traduções que tem realizado, essencialmente do alemão, o que já lhe rendeu, dentre outros relevantes prêmios, a Cruz de Mérito Alemã (1991) e a Medalha Goethe (1998). Mais recentemente cabe citar o Prêmio PEN Clube Português de Ensaio e o Prêmo União Latina de Tradução Científica e Técnica em Língua Portuguesa, respectivamente em 2001 e 2005.
Sua dedicação à literatura de língua alemã é da mesma ordem que sua afinidade com aquela nascida em Portugal, trata-se do território de uma paixão, onde naturalmente se buscam as comparações, em que as relações se deixam perceber, imprimir, revelar. A sequência de textos coligidos na edição de O arco da palavra exprime essa relação conflitante entre o tangencial e o oblíquo, que só pode ser exposta pela pena de um amante das contradições, da complexidade do mundo e de um desfalecimento voraz das linguagens como forma de autopreservação.
Não à toa o título deste recolha de textos – a rigor, pensada como um livro outro, igualmente íntegro em relação aos demais – se define, mais do que pela referência a um de seus textos, pela amplitude generosa da leitura, seja a que foi percorrida pelo autor ou a que nos oferece como uma trilha desejosa de convívio. Encontram-se aqui reunidos ensaios, crônicas, resenhas, prefácios, conferências, de modo a permitir a cumplicidade do leitor com uma ampla visão de mundo deste intelectual português, expressa em um corpo ao mesmo tempo oblíquo e múltiplo, na forma precisa como se expõe a cultura em nosso tempo. O próprio João Barrento percorre a entranhada contradição dos discursos estéticos de toda uma época, concluindo que os seus perfis são, também eles, oblíquos e múltiplos, e a razão de ser deste fato está, em grande parte, nas suas próprias origens: na explosividade contraditória, na natureza rizomática do húmus que foram os primeiros movimentos modernos, de onde tudo veio.
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Escrito originalmente como prefácio do livro O arco da palavra, de João Barrento. Organização de Floriano Martins para a Coleção Ponte Velha da Escrituras Editora. São Paulo, 2006.



