As vertentes da escrita de Joana Ruas

| |

Entrevista concedida a Floriano Martins

Joana Ruas é uma jornalista cultural e tradutora, tendo trabalhado na Radiodifusão Portuguesa e no jornal Nô Pintcha da República da Guiné-Bissau. O seu trabalho tem sido reconhecido pela sua capacidade de analisar e interpretar a cultura e as artes portuguesas e africanas. Ela escreveu para a Agulha Revista de Cultura, colaborando em edições especiais, como a dedicada ao Centenário de Cruzeiro Seixas, onde abordou a obra de Natália Correia, D. João e Julieta. Também escreveu para TriploV, que se destaca pela pluralidade de temas e abordagens. Diálogo preparado originalmente como prefácio do livro Das estações entre portas, de Joana Ruas. Organização de Floriano Martins para a Coleção Ponte Velha da Escrituras Editora. São Paulo, 2009.

*****

FM | Considerando tua múltipla contribuição no ambiente literário, como criadora, ensaísta, historiadora, a qual desafio maior, em especial, te sentes essencialmente destinada? Ou indagando de outra maneira: quais forças te movem?

JR | É minha convicção que a obra literária é, ela mesma, uma indagação sobre as forças que interior e exteriormente nos movem. Escrever é fazer o inventário das ideias recebidas, buscar a nossa verdade na floresta dos dogmas, das religiões, das ideias de toda a espécie que nos assaltam a nós, aos nossos semelhantes e também aos nossos dissemelhantes. Escrever para mim significa a conquista de mim mesma pela ocupação progressiva do vasto horizonte inexplorado do imaginário. Escrever é ultrapassar a vida para ir para milhões de possíveis. Por isso não valorizo em especial o romance, a poesia ou o ensaio. É com humildade que abordo a obra de outro escritor ou simplesmente a vida de um dos personagens dos meus romances pois assim exprimo a minha admiração pelo modo como os seres humanos conduzem as suas vidas no espaço e no tempo que lhes coube viver.

FM | Em uma breve entrevista que deste ao TriploV, acerca da publicação de A batalha das lágrimas, encontramos três referências ao Brasil, duas delas específicas a escritores: Euclides da Cunha e Guimarães Rosa. Não consigo imaginar a situação inversa, em que o entrevistado é um autor brasileiro. Isto me leva a pensar que a literatura brasileira, de alguma maneira, tem sido mais percebida e frequente em Portugal do que a portuguesa no Brasil. Não me refiro somente à presença física, do livro, mas sim à sua ressonância. O que pensas a respeito?

JR | Penso, sinceramente que infelizmente nós, os falantes do Português nos desconhecemos uns aos outros ainda que fraternalmente. Os meus romances Corpo Colonial, A Pele dos Séculos e a trilogia A Pedra e a Folha de que A Batalha das Lágrimas constitui o primeiro volume, levaram a que me debruçasse sobre a realidade de outros povos e geografias com as quais contatamos de forma pejorativa ao longo dos séculos. Escrevi-os para me percorrer desde a mais longínqua memória de mim que é a minha infância exótica passada em Angola. Sobre os povos do mundo global, a Literatura Portuguesa só veio a enriquecer-se com os autores que escreveram sobre a guerra colonial. Sobre o colonialismo há poucas obras além da obra de Castro Soromenho. A Literatura Portuguesa não investiu o Sertão. Com uma rara e preciosa exceção: a do poeta Herberto Helder. A falta de um antepassado literário no que se refere à prosa dificultou a minha abordagem dessa realidade. Foi na Literatura Brasileira que encontrei a minha família literária, em Jorge Amado e José Lins do Rego, este último sobretudo no seu romance Pedra Bonita. Esta obra do genial escritor que foi Lins do Rego conduziu-me à obra excepcional de Euclydes da Cunha, Os Sertões – Campanha de Canudos e depois à obra de meu amado João Guimarães Rosa. Nestas obras encontrei o que buscava sem que o conseguisse exprimir: o universal triunfando pela destruição das existências particulares. Compreendi como era vasta a coletividade histórica. O sol do homem é o homem escreveu Michelet, historiador da Revolução e da História de França.

FM | Mas que bonita a intensidade de tua fala, este carinho declarado pelas matrizes, o mundo visível das afinidades. Bonito, sim, porém com um rastro de tristeza pela ausência quase geral de conexões entre nossas culturas, são quase como exceções os veículos de circulação, nem mesmo uma (ao menos uma) grande revista que navegue por toda a extensão da língua em seus quatro continentes e que torne efetiva essa viagem, algo que se possa tocar e reconhecer-se nela. Por que este grande silêncio ulterior em nossas culturas, querida? Tenho a impressão de que ainda que nos encontrássemos para um café, os falantes da língua portuguesa espalhados pelo mundo, apenas reproduziríamos a cena de um de teus textos aqui presentes, “Sentada de costas para os outros”.

JR | Esse grande silêncio de que falas é o silêncio fechado e não o silêncio aberto, esse silêncio que é uma forma superior de atividade pois permite que tudo o que se oculta tenha uma oportunidade de se revelar, a nós que o esperamos, e ao mundo, para o surpreender na sua costumada inércia mental. De certo modo a Agulha Revista de Cultura preenche a lacuna que existe entre as nossas culturas sobretudo pela sua disponibilidade dialogante.

FM | Este teu livro que estamos a publicar traz uma epígrafe de Antonin Artaud sobre a condição anárquica da literatura. Eu queria somar as palavras de Artaud às de Rilke, evocadas por ti em outro momento, quando este afirma que “crescer é ser profundamente vencido por uma força sempre maior”. Não resta dúvida de que em uma sociedade movida pelo lucro e a conquista, as palavras de ambos constituem uma insuspeitável resistência. Eu gostaria de te ouvir um pouco mais a respeito, inclusive já nos revelando um pouco da condição anárquica deste teu livro.

JR | Antonin Artaud advoga um princípio que me é muito caro e que consiste na afirmação de que o mundo da criatividade é aberto e a relação que o criador estabelece com a Família Humana, sendo criativa é igualmente aberta. Com esta epígrafe de Antonin Artaud, pretendi exatamente chamar a atenção dos leitores para o que ele me ensinou: exprimir o que nos aflige e condiciona, o que nos atormenta não só na nossa solidão, mas também como membros de uma comunidade. Dizer a travessia da noite, da solidão e do abandono num hospital que na nossa época frenética é tido como um lugar de parte alguma, dizer essa travessia restitui à palavra a sua verdadeira vocação comunicacional. Tentei exprimir que vivemos num mundo em que o eu perdeu a sua arqueologia e que o próximo, o nosso próximo é, nas nossas sociedades, apenas o vizinho do lado e mesmo o vizinho da cama ao lado.

Quanto às palavras de Rilke, acima referidas, elas refletem a minha postura face às obras artísticas dos outros. Jamais tomo os outros artistas como concorrentes. Nada me dá mais alegria que o reconhecimento da grandeza de uma obra. Para Rilke de quem exprimo o legado, o vencedor e o vencido formam um duplo. O vencedor nascido do vencido, afasta-se dele mas continua a viver da sua substância em vez de lhe oferecer a sua. No vasto domínio do espaço literário, o vencedor perpetua a matéria luminosa que lhe foi legada pelo vencido.

A verdadeira tragédia do homem é o facto dele existir como Ser precário no planeta Terra e, na medida em que o Homem depende do humano para assegurar a sua eternidade como espécie ao longo dos Tempos, urge tornar o passado visível pois todos os mundos do universo se precipitam no invisível como na sua mais próxima e profunda realidade, diz o poeta Rainer Maria Rilke.

FM | Este teu é um livro que me parece da mesma família de Collezione di sabbia, do Italo Calvino, obras em que um conjunto de reflexões não descarta a relação amorosa com a imaginação, em que os relatos ou resenhas de fatos ocorridos mesclam-se a uma força poética em que a realidade e seu revés se completam. Estás de acordo?

JR | Embora conheça mal a obra de Italo Calvino, não descarto a relação amorosa entre a realidade e a imaginação nesta minha obra Das Estações entre Portas. Sempre que alguém quer exprimir o que sente ou pensa, acha-se perante o que se não exprime, o que jaz em si de misterioso e secreto e que busca a palavra para a si mesmo se revelar, algo que quer surgir à luz do dia através de uma forma. É, como lhe chamou Paul Valéry, “Aventurar-se no silêncio do desconhecido entregue à abundância da invenção solitária”.

Caro poeta e amigo, agradeço-te o mérito imenso das tuas perguntas pois dão-me a oportunidade de aprofundar a expressão dos conceitos que pretendi transmitir.

FM | Sigamos viagem, então. Há uma passagem no livro em que o narrador menciona a luta “pela sobrevivência da memória”, justo ele, o mais traiçoeiro mecanismo de conexão do homem com a realidade. Como trafegas entre dois mundos, ensaio e narrativa, como dosificas o fascínio com que te procuram a memória e o desejo, o fato e a invenção?

JR | A tua pergunta é muito interessante pois és um poeta que produz poemas digitais, esses em que a máquina e os dedos captam através do olhar fragmentos da realidade: amorosa, erótica, visceral. Digamos que nos teus poemas há memória, mas uma memória instantânea. Por vezes temos a sensação de que a memória dos teus poemas digitais estaria na natureza captada ou capturada e, ao mesmo tempo, a memória subjetiva do poeta, a tua, se perdesse no mundo que vai descobrindo como viagem. No que me toca, a luta pela sobrevivência da memória é a luta pela sobrevivência do amor, da amizade e da subjetividade no que ela tem de confusão, de lacunas e de olvido.

FM | O que indago a seguir não se interessa naturalmente por um manual de instruções, mas antes se revela como uma curiosidade acerca de tua íntima sensação: como identificas a forma que deves dar à tua criação e sua manutenção?

JR | Neste particular reconheço que é difícil explicar todas as metamorfoses que me conduzem à realidade de uma forma literária, seja poema, romance ou conto. Não parto de teoria alguma, pelo contrário, é a matéria a narrar que me trabalha. Dou ao que escrevo o vazio de uma energia disponível.

FM | Viagens, leituras, sonhos, aqui não mais se trata da forma e sim da ramificação do espírito, pela sua determinação diante do que deve ou não validar-se como itinerário substancioso, recordando aqui a fala de um de teus personagens, ao dizer que busca “a arte do equilíbrio na desilusão”. O que Busca a Joana Ruas em si mesma e no outro com que dialoga?

JR | O que busco é a comunicação e a amizade sem perda de autonomia, isto é, sem perda da minha liberdade subjetiva e assim alcançar uma forma de agir justa face ao desenrolar dos factos da minha vida pessoal e coletiva.

Deixe um comentário

error

Gostando da leitura? :) Compartilhe!