O mundo espiritual de Luiza Silva Paixão.
Quilombo Mimbó: histórias de vida é uma pequena série de entrevistas que irá revelar um pouco das trajetórias pessoais de alguns moradores(as) do Quilombo Mimbó, situado na região de Amarante (PI). De acordo com o portal G1: o “local, onde vivem mais de 600 pessoas que conservam no sangue e na sua cultura uma história de mais de 200 anos de luta e resistência contra o escravismo. A comunidade é formada em 96% por pessoas da mesma família, que carregam um sobrenome que traduz sua vontade de permanecer juntos: Paixão”.
Sempre tive vontade de conhecer de perto a comunidade e após assistir uma palestra da Leonarda Carvalho, moradora do quilombo, pedi a ela que me levasse até lá. Marcamos um encontro com João Neto Paixão Silva, Luiza Silva Paixão, Idelzuita Rabelo da Paixão e Elisete Pereira Barreto e colhemos narrativas inspiradoras e carregadas de sabedoria. Nessa primeira parte, vamos conhecer Luiza Silva Paixão e sua relação com o mundo espiritual através da experiência com a Umbanda.
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ARISTIDES: Fiquei interessado em saber um pouco mais da disposição das imagens no seu espaço. Como é que você pensou essa organização? Se tem alguma questão simbólica de um estar do lado ou estar do outro. Como foi que você organizou?
Isso aqui foi organizado porque temos filhos de santos que se dedicam mais, sabe? Então elas… Planejou fazer esse ponto aqui para atender as pessoas que querem manter o seu particular. Porque lá na tenda é muito cheio… Como diz aquela velha história… É segredo.
Então se a pessoa quer segredo, a gente mantém o segredo. Então a gente traz as pessoas… resolvemos fazer isso aqui para chamar mais… para as pessoas ficarem mais à vontade, relaxar… e os mensageiros chegam e atendem. Aí falam o que tem que ser falado para aquele cliente sem precisar dar o saber a todo mundo. Entendeu?
Eu tenho uns médiuns que eles são muito inteligentes. Eles têm a ideia, aí os dois já vão dando aquela ideia pra eles. “Você faz por aqui, você faz dessa forma” e eles vão aplicando aquilo que eles vêem nesse mundo. Organiza tudo sobre orientação espiritual. Quando um pensa de um jeito, o outro tá de acordo, aí vão fazer pra ver se dá certo e se terminar dando certo.
ARISTIDES: Como foi que você entrou nesse mundo espiritual?
Meu filho, eu não sei nem me dar explicação direito como foi que eu entrei. Eu só sei que eu comecei com idade de 10 anos. Hoje eu me encontro na idade de 76 anos. Então eu estou com 66 anos que me envolvi sem saber que estava me envolvendo. Quando eu me dei conta, já estava dentro. Aí eles foram me orientando, eles vão mostrando como é que é, aí a gente tem que procurar entender que linguagem é aquela que eles estão passando pra gente, entendeu? É som, eles falam no ouvido, dão a intuição. “Você faz isso e isso”. Eles não dão detalhes. Se a gente quiser que entenda o que ele tá falando, o que ele tá dizendo, como é que é pra gente fazer.

Você atende, escuta pessoas apenas da comunidade ou vem outras pessoas pra cá?
Vem outras pessoas de fora. De acordo com o que vão sabendo, como é que ocorre aqui, aí vão dando as informações. Aí vai vindo as pessoas e a gente vai recebendo. Graças a Deus. Põe a fé em Deus e neles, nos pretos velhos, São Jorge, Santa Bárbara, que foi a primeira fundadora, material, né?
E a gente vai acompanhando tudo que vem. Eu, pelo menos, não precisei sair, assim, pra fora, pra aprender, pra entender, pra você me dar aula, Não estudei, não pesquisei… Não tenho estudo nenhum, o meu estudo é natural, que é puro, não é através de livro, não é através de professores. Os meus professores são Deus e eles, entendeu? Se você tiver algo de errado, eles dizem. Se tiver jeito, eles me dizem. Se não tiver, eles me dizem. Aí eu só sigo aquilo que eles me orientam. E assim estou até hoje.
ARISTIDES: Você falou que muito nova, com 10 anos, começou a entender.
Eles começaram a me pegar… É muito difícil de entender o que eu vou falar.
ARISTIDES: Eu estou aqui para ouvir. Uma hora a gente entende.
Eles fazem assim, se você nasce com aquele dom… aí se ele ver que você é capaz de… ou acordado ou dormindo, eles vêm… aí a gente pega, mas eles gostam de pegar. Quando o medium nasce com aquele preparamento para aquilo aí eles te aproveitam e te adormecem, botam para você dormir. Aí ele pega o teu anjo de guarda e leva para o espaço. Então tudo o que a gente vê lá… a gente vai para uma aula. Ao invés de ser a aula daqui, a aula é de lá. Aí quando eu volto, o meu órgão de guarda volta para o meu corpo, aí ele vai me contar. Então ele, porque o vigia tem que ficar do corpo, né? Então ele pega o de guarda e leva, assim, assim, assim. Então quando eu venho de lá da aula, eu tô sabendo o que é que eu vou fazer ou o que eu deixo de fazer. E isso é meio estranho pra gente entender, né?
ARISTIDES: E esses ensinamentos nessa aula que você fala, é segredo?
É.
ARISTIDES: Que você ouve lá, não pode ser dito?
Não posso comentar tudo, entendeu?
ARISTIDES: Só o que ele se permite?
Se ele não autorizar, não posso falar. Porque na ciência já diz, a ciência ela tem o seu mistério, o seu segredo. Tudo na vida, seja espiritual, seja material, tem o seu segredo.
ARISTIDES: E quando foi, a partir dos seus 10 anos, quando você começou a ter essa…
É me pegando, me levando, me mostrando.
ARISTIDES: E quando foi que você começou a entender que era hora de ouvir e ajudar as pessoas, se assumir enquanto uma pessoa que tem esse dom…
30 anos.
ARISTIDES: Então dos 10 aos 30 você estava indo num processo… Em aula, né? De aprendizagem. E dentro do que pode ser dito, que tipo de lição você aprendeu desses 10 aos 30 anos, no sentido mais geral, que é muito tempo, pra se perceber: “agora eu tenho que fazer algo a mais, eu não posso estar só nesse lugar, eu preciso ir pra outro, que é assumir esse espaço”.
Assumir esse espaço, eu tive muita dúvida. Será que eu estava preparada? Será que eu não estava? Mas quando eles me autorizaram que eu estava preparada, aí eu tomei a decisão de me decidir. Então eu vou ver como é que é aqui. É uma coisa muito difícil de a gente controlar… muitas cabeças… orientar, porque cada pessoa tem a mente diferente, né? Nem todos pensam como eu penso, como ela pensa. Aí aquele que ele vê que tem aquele dom que precisa ter, aquela preparação, eles vão preparando e as pessoas vão se envolvendo também. Aí sem querer ou não, eu me torno professora. Que o povo chama Mãe de Santo, né? É assim que dá para viver. Muitas coisas eu oriento. Mas às vezes as pessoas não querem, filho, entender. Aquilo que eu estou falando eles acham que eu estou ficando maluca. Estou obcecada. Aí eu deixo que o tempo ensina como ele me ensinou. Agora eu fico só na observação, como é que aquela pessoa vai lidar. Quem é que está fazendo essa mensagem? Será que sou eu? Mas será que você pode ter certeza, confiar, acreditar que sou eu?
ARISTIDES: E essa resistência que você falou…
As pessoas talvez não acreditam em tudo, me chamam disso, me chamam daquilo… Para mim [essa resistência] foi muito… foi muito bom. Até porque, quando as pessoas estavam me dando… eles pensavam que estavam me tirando o direito de eu confiar e eles estavam me dando o direito de eu confiar mais. Então eu tinha que fazer com que eles cressem que eu estou certa. Porque você não vai lidar com uma coisa que você não tem certeza para onde é que você vai, o que é que você está fazendo ou deixa de fazer. Se você pega um livro para ler, é porque você sabe ler. Se você não sabe ler, você vai adivinhar aquelas letras para formar aquela palavra? Não vai. Para mim seria uma grande decepção chegar pra você e falar o que eu estou falando sem eu ter certeza do que eu estou falando. Se eu falo, porque eu me garanto. Eu não leio mão, não jogo carta, eu só me comunico. Essa semana eu passei por uma experiência Leozita [referindo-se a Leonarda Carvalho, que gentilmente nos apresentou a Luiza Silva Paixão], da minha bisneta. Eu falei com os pretos velhos, porque minha filha já estava, minha bisneta já estava com 10 dias hospitalizada sem nenhum resultado. Que eles se reunissem e me fizessem uma pesquisa por dentro dela para saber o que estava acontecendo. Aí o que foi que eles fizeram? Reuniram, mandaram eu fazer a obrigação aqui, que aquela noite eles iam fazer o processo nela pra saber o que era que tinha. Aí juntou muita secreção, estoporou pelo ouvido e pela boca. Aí eu perguntei: !mais de quê, preta velha? O que foi causado isso aí, se não é papeira, se não é essa cachumba que o pessoal chama?” E os médicos não estão esclarecendo, não estão encontrando a solução. “O que foi que aconteceu? Se tu souber o que foi que eles responderam… Água no ouvido da menina, no banho de piscina que ela foi tomar. Apodreceu a água dentro.
LEONARDA: E isso você soube se comunicando?
Me comunicando. Aí eles fizeram a lavagem espiritual. Aí prendeu a menina, privou a menina todinha. Aí a menina ficou toda inchada. Muito inchada. O pai dela tinha pedido até pra tirar do hospital. Morresse em casa, morresse satisfeito. Aí fizeram a lavagem. Aí mandou que eu desse o óleo doce pra menina. E eu mandei a mãe dela dar, dar óleo doce pra criança. Minha filha mais lá foi descarrego que nem prestou. O médico ia dar alta pra ela amanhã, domingo. Já deu foi na sexta-feira. Dez dias que tava lá. Tá bem aqui brincando, é a coisa mais linda.
ARISTIDES: Quantos anos?
Três. É por isso que eu passo a acreditar e passo a praticar. Se você está com problema, o seu médico te olha, o seu médico te revira todo, ou às vezes não tem a solução, ou às vezes não resolve o problema, Eu peço para eles olharem, fazer a parte deles. Porque tem a parte de medicina, do campo espiritual, tem as que operam, tem as que fazem tudo o que for preciso. Engessam. E eles dão conta. É um apoio, um auxílio. Mas também para isso, para fazer isso, o meu dom é diferente, não precisa eu estar incorporada. Se eu incorporo, mas as pessoas não imaginam. Para mim, é honra. Eu honro muito o mundo espiritual, a Umbanda. Por isso eu sou filha de Umbanda. Sou umbandista com todo prazer. Eu me orgulho. Não sou essa sábia, de saber tudo, porque só quem sabe tudo é Deus. Ele é só quem sabe tudo. E faz bem a gente não saber de tudo. Porque se muita gente soubesse de tudo, o mundo estava acabado. Vocês sabem. Estão acabando as nações.
E praticar o bem. Trabalhar sempre com o bem.
Agora, se você tiver uma boa natureza, um bom coração, você dê importância àquele dom, vê que ali é real, aí se você quiser ajudar, ajuda, porque tem as ajudas de tudo que a gente precisa, porque nós não temos condições financeiras para fazer tudo sem dependido, e a gente depende muito, A gente corre muito. Agora mesmo, nós fizemos uma festa, 24 de maio, nós gastamos o que nós não tínhamos, mas Ele foi dando jeito, ajudando aqui, eu tô ajudando aqui e lá.
Qual é a periodicidade das atividades aqui, dos eventos religiosos?
Nós executa o ano todinho. Nos terços, nos tambores, no dia de tambores. A gente toca o tambor nas quartas, nas segundas, nas sextas. A gente vai cultivando o ano todo. Até chegar 4 de dezembro que a gente bate para Santa Bárbara. Aí nós fazemos outra pequena festa de criança. Uma festa do verdadeiro dono da tenda, que é São Jorge, em Santa Bárbara. A gente reúne todo mundo. É uma faixa de 30 médiuns. É uma carga pesada mesmo.
ARISTIDES: E quem pode participar? Só quem é praticante? Ou outras pessoas podem?
Outras pessoas podem vir. Podem vir sim, assistir, valorizar, se achar vantagem. Mas vir de uma maneira de vir com fé, de crer, de achar que aquilo ali existe, mas para vir só para curiar e depois criticar, é melhor que nem venha. É melhor que nem venha. Deixa para vir enquanto crer que aquilo ali existe.
ARISTIDES: Como é que você acha, o que você pensa de uma sociedade como a nossa no Brasil, que ainda é tão preconceituosa com a Umbanda, Candomblé, com religiões afro de uma forma geral?
É como dizem: “eles sabem o que falam, mas não sabem o que dizem”. Então isso não me incomoda. Se eles quiserem crer, crer. Se não querem, o que importa é que eu creio. Porque isso não é obrigado a todo mundo crer, todo mundo aceitar. Os evangélicos, eles falam muito do espiritismo, que é demônio, que é não sei quem, é Zé Pilintra, Zé “não sei quem”. Eu não labuto com essas coisas assim como negatividade. Eu só puxo uma linha dessa daí. Se eu crer, se eu não crer, só pra ela vir bagunçar a minha credibilidade, eu prefiro deixar ela lá que ela tá no lugar dela. Eu mexo só com o que eu creio. É como as pessoas, se vier pra criticar, é melhor que não venha. É como disse, se não ajuda, também não atrapalha. Já fui criticada de “macumbeira”, “feiticeira”, “cobra”. Mas como eu tenho consciência que eu não sou nada disso, pode chamar o nome que quiser. Não me atinge.
ARISTIDES: Quando foi que você criou esse espaço?
Criei esse espaço há oito anos. Ah, meu filho, é tão difícil. Você nunca vai entender, não. Você vai ouvir, mas não vai entender. Aqui cada qual [santo] tem o seu significado. Nossa Mãe do Perpétuo Socorro. Foi uma grande protetora. Nossa Senhora das Graças. Cada imagem dessas… Ela tem um sentido. E o sentido que eu quero, eu peço pra cada um. Ajuda cada um. De acordo com o que ela representa, entendeu? Se ele representa um guerreiro militar, então se eu tô numa dificuldade, numa batalha, eu peço ajuda a ele. “Me dá tua força. Me orienta. Me ajuda aqui nesse que eu tô precisando”. Aí acontece. Eu estou precisando de um socorro e eu peço para ela, que já que você é nossa Mãe do Perpétuo Socorro, me socorra. Nossa Senhora da Saúde, tem o seu sentido. “Me dê minha saúde”, entendeu? Então, é assim. A gente vai cultivando cada um de acordo com o seu mistério, com o seu poder. Quando eles foram feitos, no sentido em que eles foram feitos, a gente pede ajuda.
ARISTIDES: Você sempre morou aqui?
Nasci, me criei, envelheci aqui. Eu já tô velha, tenho só minhas filhas de santa que ajudam a cuidar de mim. E tem hora que eu tô cansada, que o campo espiritual, o mundo espiritual é muito cansativo. Tem dia que a gente tá cansada, debilitada, e as pessoas não entendem. Eu fico perto das minhas filhas de santo porque elas me cuidam muito. Quando eu preciso, estão todas no ponto para me ajudar. A minha guia. Aqui, mais de um ano, eu já estou passando para a nova geração, que é para nunca morrer.
ARISTIDES: E tem na comunidade pessoas da nova geração que querem dar continuidade ao seu trabalho?
Tem.
ARISTIDES: Isso aí é uma coisa que você tá tranquila, né?
Tô tranquila. Porque já tenho em mente quem é que vai ficar pra me entregar. Eu tive uma pessoa que me orientou, mas ela já partiu há 19 anos. Também ela não me orientou nada, ela só disse: “o tempo vai te ensinar”.
ARISTIDES: E ensinou, né?
Está ensinando. Não só ensinou, como está ensinando.
ARISTIDES: E o que você pode dizer que aprendeu com esse ensinamento do tempo?
Em primeiro lugar, paciência. Porque lidar com o ser humano é coisa difícil. Eu não puxo corrente de nenhum filho de santo meu que tiver o dom à corrente que venha. Sem manifestar e dizer: “eu estou aqui, eu comando esta cabeça”. Só vem pra você, acaba que vem a pluma. Estou aqui pra preparar, deixar tudo bonitinho, como é que é pra preparar a matéria que eu escuto, já vem preparado. Ninguém não vem dizer pra mim que…
LUIZA: Ah, qual é o seu nome?
Aristides.
Para eu pegar o espírito e colar para jogar na sua cabeça, quem disse isso está mentindo. Quem disse que eu faço um trabalho para precisar de uma ajuda: “eu faço dentro de 24 horas” está mentindo. Porque o mundo espírita gosta muito da verdade. Porque se eu, como cabeça, mentir para ti, tu não vai castigado, quem vai para o castigo sou eu. Porque estou usando de má fé com o nome dele. Então, se eu estou usando, tem que ser ele mesmo. Aqui eles já me mandaram parar duas vezes. Estou teimando e estou continuando…
ARISTIDES: Você quer parar?
É bom. Vamos respeitar o pedido deles, né?
ARISTIDES: Tudo bem.



