Nuno Brito nasceu no Porto em 1981. É autor de livros de poesia e conto. Participou em antologias coletivas de poesia portuguesa no México no Brasil, em Espanha e na Grécia. Em 2009 obteve o Prémio Literário da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto na categoria de Poesia e em 2010 na categoria de Conto.
É Doutorado em Literaturas Brasileiras e Portuguesas pela Universidade da Califórnia onde foi Leitor do Camões Instituto da Cooperação e da Língua entre 2020 e 2022. Foi Professor de Literatura Portuguesa na Universidade Nacional Autónoma do México entre 2012 e 2014. Atualmente é Professor Visitante no Departamento de Línguas e Literaturas Românicas da Universidade de Búfalo em Nova Iorque onde vive com a sua família desde 2022 e onde é editor da Revista Farol: Journal of Literature and Other Arts.
Poemas de “Olá Liberdade”, Porto Exclamação, 2025.
Um animal feliz entre outros
Amo o mundo como uma criança que ri
inteira e feliz e sem um dente da frente
e rio inteiro do mundo inteiro porque rir do mundo
é amá-lo verdadeiramente
e vê-lo verdadeiramente como ele é e pode ser.
Amo o mundo como uma criança que ri
Inteira como um dente de leão a espalhar-se
pelo campo todo para voltar a nascer outra vez
em vários sítios diferentes ao mesmo tempo
e ser completo e inteiro em todo o lado e até ao fim
Amo o mundo como uma criança que ri
Feliz e inteira e sem um dente da frente.
Um Coração para o Sol
Sentir é dois
Rainer Maria Rilke
Atenção.
Um coração de pássaro está a nascer
no centro de uma autoestrada de prata.
Estamos em Festa!
Nós. Todas as pirómanas ainda por nascer.
Estamos humanas e quentes escondidas entre campos de algodão
Nós que temos várias cores e nós que temos várias mãos.
Nós e os nossos irmãos e os bombeiros ainda por nascer.
Bombeiros gigantes do tamanha de embondeiros,
com coração de farol. Nós os bombeiros gigantes
com a ilha dos amores por marca de nascimento
solar da nossa condição humana e farol e dançante a nossa condição apaixonante
Estamos em Festa!
Porque sentir é dois
e porque amar é mais
e porque amar é um
estamos em festa!
De Passargada a Instambul Nós os Bombeiros da Califórnia e os Bombeiros de Búfalo!
Estamos em Festa Neste exato instante
Neste instante luz em que o coração do sol
Se transforma em asa de borboleta E em espuma de um amor maior:
Oração de Esperança
Povo das nove montanhas
Que também sois baleias
E que também sois girafas
E que também sois deserto
Enchei os vossos olhos de sol,
Porque também sois SOL
Povo das nove montanhas
Que também sois semente
E sémen
E criação
Enchei os vossos olhos de sol
Porque também sois SOL
Povo das nove montanhas
Que também sois rebanho,
E também sois serra e conjunto de limões
Enchei os vossos olhos de sol
Porque também sois SOL.
Escola do Sardão
Ama como a estrada começa
Mário de Cesariny
Desenho um caminho no chão para carros de brincar: tudo o que desejo é fazer a maior estrada do mundo de terra batida com a palma da mão, o recreio da escola já está transitável de ponta a ponta, quero unir o meu país com uma estrada de brincar, de terra batida, quero chegar a Alcácer do Sal e depois a Santarém, vou chegar a Canal Caveira onde o carro do meu avô para para comermos o cozido a caminho do Algarve, atrás dos camiões que deixam cair tomates – o nosso carro pisa os tomates da estrada – vou chegar, com a minha estrada de terra batida à ponta do meu país, a minha palma da mão está negra de tanta terra, as unhas negras, estou cheio de pó na roupa branca, sou um boneco de barro: estou cheio de amor e ternura pela minha estrada e pelo mundo que ela humildemente e a escala menor também une, não quero que nenhum carro ande nela, quero que ela cresça quero que ela não acabe nem depois de Portimão, quero que a minha estrada me acompanhe nos sonhos e seja eterna e se um dia de domingo, quando não há escola, um ouriço a distraído a cruzar, sem seguir nada da sua rota estarei ainda mais feliz porque também para ele a estrada não serve para nada e é por isso mais completa. Continuo-a à noite e a minha mão confunde-se com a terra, sou feliz quando durmo cheio como um poço que contém em si todas as estrelas e não precisa de nada porque está cada vez mais cheio. Vazio e inteiro adormeço e continuo a estrada que vai cada vez mais para dentro e não tem fim. Com a palma da mão segura no dorso da terra quente.



