3 Poemas de Mário Cesariny de Vasconcelos (Portugal, 1923-2006)

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Apresentação e seleção de Floriano Martins

A poesia de Mário Cesariny de Vasconcelos sempre esteve no palco. E tanto se confundiu com os enredos encontrados no camarim que por vezes não sabia o que era. Mas é bom que se diga que a ela nunca lhe preocupou ser coisa alguma. Seu humor descarado por vezes a disfarçava de poema, prosa poética, sketch, narrativa, livre tradução, colagem, pastiche, rapto. Esta acidentada viagem pelo interior de si mesma a aproximava mais de Dadá do que do Surrealismo. Seu ímpeto imagético devia mais a Dalí e a Artaud do que a Breton. Daí o espectro tragicômico de sua caligrafia. A ironia transbordada do casulo de conflitos singulares. Sua obra poética é de estrutura intensamente fragmentada e, se levada ao palco, acenaria com uma multiplicidade orgíaca de truques, a sedução estética de sua imensidão profana: Estava tudo tão tremido ao longo do mar e a gente sentia que o sol nos tocava com força. Levei nos braços alguma terra verde. Lá havia muito sal. No seio daquela estátua mutilada no ventre pela cruz vermelha do asco mais inocente. Esta poesia que espelha sua vida em um labirinto de vertigens se encontra em livros tais como Discurso sobre a reabilitação do real quotidiano (1952), Manual de prestidigitação (1956), A cidade queimada (1966), e Primavera autônoma das estradas (1980), dentro alguns outros.


ESTADO SEGUNDO, XVII

O fogo, rapidamente ateado pelos barqueiros, atingiu enfim a outra margem: os peixes fogem em sobressalto apinhando-se em cima duma rocha onde, julgando-se seguros, contemplam o espetáculo. A casa, realmente, está a chegar ao fim. Só as paredes mestras resistem ainda e com elas um pequeno guarda-chuva preto abandonado na confusão do incêndio. Os bombeiros envidam esforços sobre-humanos para salvar de entre as ruínas o pequeno objeto, juntando-se-lhes uma multidão ululante e caótica. Furtando-me às Magirus furo as chamas e levo-o. é sensível e triste como uma criança. Desenvencilha-se da mão que lhe estendo para diligenciar andar sozinho, embora não tente fugir e caminhe sempre a meu lado. As últimas derrocadas e as sirenes dos carros, no lado de lá da cidade, parece que saúdam a urgência da nossa fuga e da nossa boda.


***

Tantos pintores

A realidade comovida agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem

Tantos escritores

A realidade comovida agradece
E continua a fazer o seu frio
Sobre bairros inteiros, na cidade, e algures

Tantos mortos no rio

A realidade comovida agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito

Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gosta da realidade
querem-na para um bocado
não se lhe chegam muito pode sufocar

Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem verdade
dá voltas à solidão da realidade


ANDRÉ BRETON

A Antonin Artaud

“Noite suja, noite de flores, noite de estertores, noite capitosa, noite surda cuja mão é um papagaio de papel abjeto por todos os lados retido, preso a fios negros, fios vergonhosos! Planície de ossos brancos e vermelhos, que fizeste da tua fidelidade que era uma bolsa de pérolas unidas com flores, inscrições disto e daquilo, significados para tudo? E tu meu bandido, bandido, liquidas-me, bandido da água que desfolhas punhais nos meus olhos, de nada te amerceias, água cintilante, querida água lustral! As minhas imprecações hão-de seguir-vos durante muito tempo, como uma criança assustadoramente bela agitando na vossa direção a sua vassoura de giestas. Em cada haste uma estrela e não é muito, não, chicória da Virgem! Já não quero ver-vos, quero crivar de chumbos as vossas aves que já nem folhas são, correr-vos da minha porta, corações de pepino, cerebelo de amores. Basta de crocodilos no telhado, basta de dentes de crocodilo em couraças de samurais, basta de jatos de tinta e renegados por todos os lados, colarinho vermelho, olho de groselha, pelo de galinha! Acabou-se, não mais esconderei a minha vergonha, ninguém mais me acalmará, por nada, por menos do que nada. Se as máquinas voantes estão grandes como casas, como havemos de festejar-nos, alimentar o que nos vai roendo, erguer as mãos sobre os lábios das cascas que falam sem fim (estas cascas, quem as calará de vez?). Basta de segredos, basta de sangue, basta de alma – mãos para amassar o ar, doirar uma só vez o pão do ar, fazer estalar a goma das bandeiras que dormem, mãos solares enfim, mãos geladas!”

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