3 Poemas de Maurizio Medo (Peru, 1965)

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Curadoria e tradução de Gladys Mendía

Maurizio Medo (Lima, Perú, 1965) dirigiu projetos como o espaço de criação Transtierros ao longo de uma década, e o projeto de divulgação crítica País Imaginário: Escrituras e transtextos, um estudo em três volumes. Ele publicou alguns livros de poesia, como Manicomio (Primeira edição: Santiago de Chile, La Calabaza del Diablo, 2005; segunda edição: Lima, Editorial Zignos, 2007; terceira edição: Monterrey, La Regia Cartonera, 2013; quarta edição: Guadalajara, Mantis, 2012; quarta edição: Madrid, Varasek. Colección Buccaneers, 2015); Quando o destino deixou de ser véspera (poesia reunida 2005-2015) (Cáceres, Ediciones Liliputienses, 2016); E um trem lento apareceu na curva (Madrid, Ay del seis, 2016); As interferências (Madrid, Ay del seis, 2019); e Trem Europa (Madrid, Colección On the Road, Varasek, 2024). Atualmente, dirige El Laboratorio.


[AS COISAS MUDARAM TÃO RÁPIDO]

As coisas mudaram tão rápido que o futuro parecia estar acontecendo. Por isso, antes que ele conseguisse partir completamente, encontramos uma maneira de pedir-lhe coisas, comprometendo-nos a devolvê-las com uma lógica retrospectiva, sem saber muito bem como coordenar com o enredo. Ignorávamos o desfecho dessa narrativa, mas não as canções de sua trilha sonora. “As coisas mudaram” poderia ser o título de alguma delas, como se fosse uma experiência imersiva na amplitude modulada, até que a história diminuísse a velocidade. Vou buscar tabaco onde Cristo perdeu o isqueiro, e algumas toneladas de argamassa para colar os pedaços de um país que, até agora, não conseguiu ser. Eu só falo do Trem; depois, poderei te contar algo sobre Clyde Barrow. As coisas nunca mudaram. Num trem, tudo é contemporâneo, e não porque o interessante ocorra na sombra, como exclamei certa vez, atordoado na boca do túnel. O movimento não se confunde com o espaço percorrido. O espaço é o passado, o movimento é o presente. O que vemos pelas janelas é aquilo que se desenrola tempo suficiente para acreditarmos que, depois de atravessar a boca do último túnel, encontraremos a terra prometida, aquela que jamais conhecemos. O perfume de Clyde contrastou com o cheiro de pólvora queimada, talvez para que o tempo o recordasse. Bonnie escrevia poemas.


[NÃO FALEMOS DELES]

Não falemos deles, os poemas acontecem uma vez, depois desaparecem. Nós passamos por eles em um espaço que o enredo não quis nos conceder. Não como experiências, pois poderiam mudar de sentido. A poesia faz isso. Coloca as palavras em perigo, enquanto a fala experimenta com a lógica heterônoma de seu próprio material, tanto que, quando acreditamos vislumbrar um final, uma mão invisível desenha uma curva que nos conduz novamente ao início. Esse artifício cíclico indica que o trabalho está apenas começando. A posteridade é anacrônica. Deveríamos nos perguntar: o que fazemos enquanto isso? Non siate dunque in ansia per il domani, perché il domani si preoccuperà di sé stesso, recitava a nonna com tal entonação que tornava verossímil a ficção dos velhos evangelhos, como se cada um deles revelasse uma verdade consigo, mesmo quando mentiam.


[NÃO ME TRADUZIRAM]

Não me traduziram para o idioma do país onde o diabo urina toda vez que Deus desacelera a vertigem que gira na direção contrária. No noticiário da noite, ele deixou de falar de si no plural majestático. O entrevistador, ao vivo e quase às lágrimas, exclamou aflito: “por que se sofre tanto?” Também não consegui acreditar nele.

Na política, o discurso protege aquilo que mente. Talvez isso se deva ao meu desdém. Antes de assistir aos noticiários, preferi aprender bem o som dos diferentes acentos auditivos dos seus patrocinadores, negociar sua retórica, arrastá-los por outras fronteiras simbólicas e construir com eles uma dramaturgia na qual todos esses sons sejam o eco descontínuo de um relato reticular, e não o de uma poética analógica.

No meio da neblina, no fundo da Sala de Máquinas, compreendi que, na dimensão particular das notícias, qualquer um pode dominar um sofrimento, exceto quem o sente. Não acontece mais nada. As guerras de armas biológicas, a supremacia da internet, a fascinação pela carne sintética, os deslizamentos de terra, os tsunamis, e até o auge das criptomoedas acontecem nos momentos em que a realidade se posiciona junto à janela e olha para outro lado, até que Deus diga basta, longe das manchetes.

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