Curadoria e tradução de Gladys Mendía
Nicole Bolaños (San José, Costa Rica, 1994). Estudou literatura, linguística e filologia clássica. Seu primeiro livro de poesia, Catafalco, ganhou o prêmio Eunice Odio 2024. Se tivesse mais tempo, leria e escreveria menos.
Bordas arredondadas de signos gráficos
sobre a rede de pixels
refiro-me: luminâncias do escrito
que na retina mudam para outra coisa que se pode julgar
e o leve bater de quem duvida
se a composição é a exata
a que mais se assemelha ao substrato da língua individual
polpa que segrega pensamento fragmentado
seus códigos de menina sozinha
(se for verdade que na gramática
está a essência da coisa
ou que “teologia como gramática” divina
poderia encontrar-se no anterior
uma pessoa
ou seu equivalente furtivo em dobras e desdobramentos)
Dissolvida
aspira devagar o transe pela boca
e espera alguns minutos até ficar envolta
no canto das deusas
como uma virgem em Delfos
centenas de grilos em coro à distância
parecem um mantra enlouquecido
elevam o traço, transbordam tigelas de espuma
descem línguas de fogo para lamber as pálpebras
e colocam uma nova chave sobre os olhos vermelhos
aparecem
fios soltos sobre a mesa, padrões
agulhas longuíssimas
a destreza de uma tecelã que assimila sua herança
sem pudor
A Fr. Antonio Barrios
Será verdade, padre
que tudo se trata de aprender a amar
assim como Ele…
e será verdade que amou assim
e que, se eu deixar descansar —primitiva—
o vinho escuro sobre o arco do meu lábio
ele cairá como um véu
que finalmente me fará silenciar
ou minha palavra, se ainda possível
será suave, um sangrar suave
sempre o eco do amor perfeito


