Curadoria e tradução de Gladys Mendía
Ilich Rauda San Salvador, El Salvador, 1982. Poeta e narrador. É secretário da Associação Salvadorenha de Médicos Escritores Alberto Rivas Bonilla. Membro fundador dos grupos literários: Círculo de la Rosa Negra (2003) e Delira Cigarra (2006). Médico especialista em Medicina de Família pela Universidade de El Salvador. Recebeu o Prêmio Único de Conto Infantil nos XXV Jogos Florais de Usulután (2017). Publicações: Maíz del corazón (Publicaciones Papalotquetzal, 2016); Aventuras en los antiguos reinos del misterio (Dirección de Publicaciones e Impresos, 2018); Círculos del sueño (Proyecto Editorial La Chifurnia, 2022), Poemas urgentes (Projeto Editorial La Chifurnia, 2023). Textos seus figuram nas antologias: Dictadura Vintage (La Chifurnia, 2021) e La paz no se logra con el deseo (La Chifurnia, 2022).
O GRITO
Não há flores que cubram os ossos
nem assombros em seu fim
nem espinhos para coroar tanto horror
nenhuma palavra para os últimos gestos
para tanto grito de dor suspenso
não há humanidade
apenas calafrio
choro inexorável
soma de ira
raiva pura e animal
de costas para o sicário
para as prisões
ou diante dos púlpitos e câmeras
cidade amordaçada em tempo lento
depois das festas
dos risos estridentes
das bebidas e ressacas
depois do Colosso
e sua algazarra de multidões
sempre reinará ao fim do grito
um silêncio profundo de cemitério.
INVOCAÇÃO DO AMOR
A Leyla e Argelia
Depois do eclipse das armas
dos homens calendáricos
envelhecidos de tanto ódio
cancerígenos em sua fome
Só teu corpo é imenso
em teus cabelos de raízes ansiosas tropeçamos
Os mapas não bastam para tuas curvas e veredas
E se pressentimos as auroras
teus olhos nos cegam com sua claridade
teus lábios são frutos prometidos que se desfazem na montanha
tuas esperanças, teus clamores infantis
são os cenzontles, os chiltotas.
Depois do eclipse
os animais sonham tempos antigos de fogo
os metais esfriam
a cidade silencia sua engrenagem
E sem sombras possíveis, nem ruídos
restam-nos apenas estas mãos simples
para reconhecer-nos os rostos, as formas humanas
somente estas bocas, para incendiarmo-nos com teu nome.
A MAÇÃ E O FILHO
Eu tinha um filho
(…)
Vi-o brincar nos últimos degraus da missa
Federico García Lorca
Mamãe, devo confessar
somente teu abraço é digno do meu retorno
como o livro mais belo,
e depois, eu também
tenho medo
como meu filho menor
do frio de Nova York
de seus abismos de vidro
que fingem lápides de titãs em Marte
onde nenhum rosto humano se mostra.
Temo os deuses ignorados
sob as pedras do Central Park
seu zoológico humano
seus pulmões de fumaça e fogo
Seus shoppings
tenho medo inclusive
da minha pele branca
e do meu inglês taciturno
do teu orgulho e da minha vergonha.
Sobretudo, mamãe,
tenho medo dos teus medos
das tuas lágrimas que congelam
das tuas mãos
em prece
que não atravessa as paredes
de todas as catedrais reunidas
de New Jersey
nem consegue atravessar o Hudson
num nado desesperado
de palavras reunidas com tua fé.
Tanta razão tinha Lorca
e apenas meio século como um sopro
sua palavra ainda ressoa
nestas terras estéreis
sem ciganos fiéis para acompanhá-lo
na magnitude de sua poesia.
HISTÓRIA DO PAI
Pai,
quando escuto teu batimento
ou me aproximo do teu pulso:
é um rio de potros que me fala
conta-me dos teus humores mais vítreos
dos teus amanheceres infantis
e das tuas esperanças mais vermelhas.
Hoje amanheces menos cristalino,
e mais próximo da tua terra de sóis e muralhas d’água
pela porta da tua pupila ampliada e estelar,
me fala teu ritmo sanguíneo,
que habitaram lencas
e conheceste o vento arco e a fúria das lanças
numa juventude de potros negros e de ébano
nascemos filhos da tua história em rebeldia
herdeiros de séculos tumultuosos
sem cinzas pascais
ditosos de ideias.
Chegará o tempo em que só poderei ver-te através da lágrima
mas não temas, pai, será lágrima vermelha
pai meu, estrela e horizonte
em meu coração teus relinchos não serão crepusculares
mas o pulsar reunido da tua terra, selvagem de esperanças.
IN GODOT WE TRUST
Hoje mais do que nunca creio em Godot,
em seu poder imenso
Pois vi sua máxima ternura
seu amor desmedido desdobrado
Obrado no milagre de uma terra
dividida à força de baionetas e muros elétricos
Vi seus exércitos terríveis,
suas guerras intermináveis nos desertos
seus porta-aviões cortando os mares antigos
seus anjos metálicos sobre os céus
seus resplandecentes arpejos de metralha
seus olhos voadores: mísseis e drones
capacetes com adesivos de querubins
orações nos fuzis dos franco-atiradores
um pandemônio orgiástico de sangue universal.
Mas sobretudo creio em Godot
porque contemplei
suas mandíbulas divinas
devorando tudo
com seu apetite inalterável:
voraz por crianças
que ainda não aprenderam a soletrar seu nome
entre a fumaça da pólvora das cidades.


