Os Arquivos à Deriva de Jomard Muniz de Britto #6

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A Revista Acrobata irá lançar um bombardeio de textos que cobrem várias fases da produção intelectual do pensador famigerado Jomard Muniz de Britto (JMB), sobrevivente da Bossa Nova e Tropicalistas de todas as eras.

Com curadoria de Aristides Oliveira, iremos conhecer (sem ordem temporal definida…) o pensamento que ultrapassa qualquer tentativa de categorização histórica, pois JMB entra e sai, percorre por dentro e por fora da contemporaneidade.

NADA MAIS CHOCA. ACABOU A TRANSGRESSÃO?


Perguntar é preciso?

Com incertezas. Sem compulsões.

No contexto do capitalismo tardio, recomeçando ainda mais.

Dos fundamentalismos à direita e à esquerda revolvendo e persuadindo.

Dos centralismos democráticos reconciliando-se com atitudes abusivamente corretas, das glórias e misérias de uma cultura chapa branca bem e mal financiada pela Viúva com seus aparelhos estatais, das múltiplas vanguardas canônicas quase arquivadas, arqueológicas, genealógicas, teratológicas.D

Das experimentações implodindo e explodindo pelas bienais, avenidas e becos sem saída da gratuidade, dos grupelhos e personalismos, dos impasses entre a desinformação e a hiperinformação, leituras do mundo.

Perguntar pelo verbo transgredir tentando escapar das culpabilidades moralizantes e dos descontroles do imaginário, das linguagens do inconsciente, dos egos embriagantes e dos complexos de fundação nacional.

Desde que Roland Barthes assegurou que o sistema tende a recuperar todas as rupturas, essa bem maldita dialética entre transgressão e recuperação nos excita, constrange e arrebata.

Como deslizar, ultrapassando dualidades e dicotomias?

Apolíneos e dionisíacos, surreais e dadaístas, nacional e popular e internacional pra pular.

Brega e meta-kitsch, vanguardas arquivadas e vanguardas permanentes, imitação reprodutora e mimesis transfiguradora.

Logocentrismo e dissipações cognitivas.

Para quem outro Rosa ou Clarice?

Por quem outro Cornélio Pena via Luiz Costa Lima?

Desafios ao pensamento no horizonte de expectativas.

Além do verbo palavra, além do verbo ação, palavração, argumentações e corporalidades, transgredir vale quanto pesa uma prosa em auditório ou sala de aula sem paredes.

Locus onde os apocalípticos de agora são os oswaldianos terroristas de sempre. E os integrados transpiram cada vez melhor com a elegância das celebridades, na cultura chapa branca, multiétnica, multicultural, multiqualquercoisa.

Presenças do subdesenvolvimento, mundialização e pós-culturalismo.

Transgredir pode ser e não ser o conflito impossível entre realidade e linguagem, esfera pública e fraturas da subjetividade, dicotomias e complexidades, normas e desviantes, estética da fome e dos pesadelos, utopias concretas e pop filosofemas.

É possível transgredir ao seu modo, convivendo com o difícil das diferenças, tensionando imaginários e racionalidades, ainda sem medo de ser feliz ou mesmo infeliz.

Por quem os sinos clamam e redobram dentro da máquina do mundo?


Recife, Sampa, novembro 2004.

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