6 Poemas de Luís Perdiz

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Luís Perdiz nasceu em Campinas (SP). Escritor, compositor e editor de livros, coordena a Editora Primata, dedicada à literatura brasileira contemporânea. Atua também na produção e apresentação de eventos de poesia e experimentações musicais, como o Festival Primata e o Sinais de Saturno. Dentre outras publicações, é autor dos livros Desejo de terra e A selva nos seus olhos, ambos contemplados com a bolsa de Criação e Publicação Literária ProACSP. Com prefácios assinados por Jorge Mautner e Claudio Willer, suas obras transmitem suas principais influências: o modernismo brasileiro, a tropicália, o surrealismo e a geração beat.


NEON E SANGUE

os engraxates pastoreavam a grandeza alarmada dos motores
sob o sol histérico degolando nossas mentes andinas

o museu assassino com risos de fuligem adotado em passos arquitetos incinerava vestindo lindas fardas e olhos de vulcões solteiros

esse porre de marfim cavalgava mudo nos vales inconscientes
enquanto a penumbra pelos poros assobiava um gigante estrangulado

as ruas evaporavam antigas miudezas no dedão das alvoradas
e o brinco esquecido no cemitério perfilava na garganta de lembranças

nossos corpos em toque de recolher atarefados no deserto
escavavam empalidecidos até encontrar um jipe para último amor


PLAYGROUND

o que mais me revelava naquele
playground vazio
era o silêncio

igual ao meu
infância fantasia atravessada
merthiolates colos contrastes
amigos imaginários
todos eles filhos únicos

ensimesmado
pressentia sons de macondo

outras partes longas
indefinidas
longe do baile de minotauros


A HORA DA PANTERA

I

o meu amor meu bêbado amor que ruge
na órbita tenaz de cabelos e orquídeas
no subterrâneo vicejante da floresta do tesão
a argyreia dos olhos trespassa a senha dos ciclones
desarma o fogo e o laser dos saguões cinéticos
e com seu batom negro devora o próximo planeta

II

o meu amor meu vertiginoso amor que salta
pelos viadutos abismos arvoredos farpas
dilacera o aro do tempo com patas atômicas
arranha verbos vorazes na espinha das almas
ressurge ofegante no sofá-cama escarlate
luzente entre gozo e caos


TEMPLO

nunca intacto
repouso nesta superfície de cascalhos
sonhos aprendidos ao hálito da terra

lágrima primata incrustada na labareda
planície viva do princípio
tarde marmórea por onde encontro

suas coxas quentes
secretamente solares


VOCÊ ME ENCHE DE AREIA

gargalhada nua e seca
me atrevo na pulsação réptil
e a imobilidade da árvore fascina a fome inexata

dois meses desfizeram meu herói amador agora vivo em conchas
pirâmides se entulham em meus pulmões
sou um golpe cinza numa guerra sem mira entre vespas
as lunetas estão sangrando juros
um atlas só de rostos me envolve feito âncora
sabor cru e indomável de vida afunda vida afunda vida afoga
olho já sem filme
osso já sem firme
retorcidas possibilidades evaporadas num aquário
blues suspenso da extinção
estiagem a dois resgatada em sua sede
cessem os monstros assassinos páginas de números
hospícios hospitaleiros balas anestésicos
                                    quero a euforia turva dos contrastes deslumbrantes
as ostensivas horas da tempestade feito whisky
numa sacada de primavera tingida em chagas


FUTURO EM FÚRIA

todos os eletrônicos sagrados ruíram com cócegas
têmporas lapidadas se derreteram em química miragem

viveram pólvoras por detalhes
retalho pelo retalho em amarga voz

semblante animal lívido próximo à porta
sonegávamos entreabertos as sirenes do teatro lógico

o dia mastigado no bolso anterior
cada entulho vespertino em sua espécie ávida
vapores e capacetes abandonados no esgoto

éramos dois esqueletos momentâneos do destino
numa carne viva e suntuosa
esperando esperança

 

 

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