“A selva nos seus olhos” novo livro de poemas de Luís Perdiz

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Por Floriano Martins

A selva nos seus olhos é o novo livro de poemas do escritor, editor e compositor paulista Luís Perdiz, lançado pela Editora Primata (2026). A obra foi contemplada pelo Programa de Ação Cultural (ProAC/PNAB) do Estado de São Paulo e marca a primeira publicação de poemas inéditos do autor desde Desejo de terra (2019). O livro propõe uma imersão no que o autor chama de tempo da floresta, afastando-se do ritmo acelerado do mundo tecnológico. Abrange assim, temas como erotismo, natureza, transfiguração sensorial, mantendo uma acentuada musicalidade. A poesia investiga a conexão profunda entre o corpo humano, o desejo e a terra, misturando suores, peles, seivas e elementos naturais. Os poemas evocam imagens sinestésicas fortes, transitando entre seres visíveis da fauna brasileira e o misticismo indígena. O texto destaca-se pela sofisticada elaboração de imagens e ritmo sonoro marcante.

O projeto literário expandiu-se para além do papel e ganhou vida em múltiplos formatos: um álbum musical, que traz leituras dos poemas por Luís Perdiz com arranjos instrumentais do músico Bruno Gazoni; uma versão em áudio completa para aproximar o público da oralidade dos versos, e leituras públicas e pockets shows que fundem literatura e música, com passagens por espaços culturais variados em São Paulo. Luís Perdiz é um escritor, editor e compositor nascido em Campinas (SP), fortemente influenciado pelo modernismo brasileiro, tropicália, surrealismo e a geração beat. Suas obras são marcadas por uma linguagem sinestésica que une o erotismo e as paisagens naturais brasileiras.

Suas obras já receberam prefácios e elogios de grandes nomes da cultura nacional, como Jorge Mautner e Claudio Willer. O poeta estreou com Saudade Mestiça (2016). Depois, lançou Visão Incurável (2018), a antologia Você me enche de areia (2023) e Desejo de terra (2019).

A versão musical do livro não funciona apenas como uma leitura de fundo, mas como uma extensão sensorial projetada para fazer com que os poemas atuem como um poema-canto contínuo. Toda a atmosfera sonora do disco foi construída pelo músico Bruno Gazoni, que desenvolveu arranjos instrumentais específicos para casar com o ritmo da fala do poeta. O álbum traz o próprio Luís Perdiz recitando os versos. O objetivo é resgatar a tradição da poesia falada, criando uma experiência imersiva no que o autor chama de tempo da floresta. O projeto conta com colaborações de vozes da cena contemporânea paulistana, como a cantora e compositora Malu Maria, que participa em uma das faixas do audiolivro. Este livro possui uma forte condicionante, o tema da natureza, o que situa seu autor como pertencente a uma linhagem dos poetas da natureza. O poeta possui um olhar selvagem, com uma virtude visionária que lhe permite identificar as forças interiores da paisagem. Pode-se dizer que ele não apenas contempla a natureza, mas a incorpora de forma visceral e mística. Estes aspectos aproximam sua obra do xamanismo literário e do surrealismo, onde o poeta atua como um decodificador das energias ocultas da terra. Ao ler A selva nos seus olhos, é possível perceber o diálogo do autor com grandes nomes dessa tradição, destacando sinais de identificação em truques de linguagem que abordam o olhar atento ao insignificante e a comunhão integral com a terra e os animais, ao mesmo tempo em que é possível detectar a presença da poesia como uma forma de gnose, transe e expansão da consciência através do contato com o sagrado e o selvagem. Há também ali uma fusão mística com divindades como Jaci e o transe cósmico, acentuando ainda a concepção da paisagem em um ambiente antropomórfico, onde ela ganha carne, suor e desejo e os corpos dos amantes se transformam em rios, folhagens e terra úmida. Graças a esse olhar visionário do autor é que se rejeita o tempo mecânico das metrópoles, convidando o leitor a desacelerar e sintonizar com o ritmo biológico e ancestral das marés e do crescimento das plantas.

As nuvens noturnas
são pedaços da eternidade.
Lar dos espíritos
e dos sonhos xamânicos
que atravessam os milênios
e cintilam em nós
à beira da praia
neste outro infinito
onde a espuma do copo
se mistura com a do mar.

Podemos considerar aspectos transcendentes, como o olhar que enxerga divindades, deuses e forças místicas na paisagem, o sexo e o erotismo vistos como rituais de conexão com o cosmos e com a própria terra, o entendimento da natureza sem o filtro do pensamento ocidental, a percepção da floresta com seus sentidos puros, antes das palavras e das definições científicas, a transfiguração constante dos elementos da natureza, tudo isto desembocando em uma plasticidade mágica que contempla a facilidade com que um rio vira veia e uma árvore vira um braço na construção das imagens poéticas deste jovem poeta que, embora a crítica o aproxime de autores como Roberto Piva, Herberto Helder, Michael McClure, dentre outros, não posso deixar de perceber uma íntima afinidade – diálogo ulterior repleto de revelações – com Raul Bopp. Assim como o autor de Cobra Norato, Luís Perdiz sabe como evocar em tua criação o tempo da floresta, sabe que os olhos ardem para atingir a beleza, e que, ao final de cada viagem, todos somos engolidos pela vida.

[SEDUÇÕES NA MELODIA DA NAVALHA]

Seduções na melodia da navalha.
Folhagens no front à flor da pele.
Jangadas dissipadas na névoa.
A polpa do crepúsculo
escondida num poema.
Os olhos ardem para atingir a beleza.

[DIAS DE LAGARTO]

Dias de lagarto.
Pedras que abraçam
com calor ancestral.
Flor laranja solitária
na Cachoeira da Capivara.
Quatro olhos de sagui
protegem nossos corpos
pincelados com os mesmos
brincos e cachos negros.

[ÉRAMOS TRÊS NAS PEDRAS]

Éramos três nas pedras
eu, você e a feiticeira.
Tocamos flauta de bambu
mastigamos cogumelos
e estendemos uvas
na velha canga indígena.
Nossos corações se abriram
com antigos mantras
enquanto caminhávamos para
o dormitório estudantil.
O Tarot nos disse:
águia, búfalo,
leão da montanha,
serpente no centro
da Grande Roda da Medicina.
Uma canoa pesada
que precisa do vazio
para novas correntezas.
Naquele entardecer
antes da tempestade
o paraíso ecoava nas raízes.

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