Por Ana Victoria Leite Rocha
Ana Victoria Rocha é uma historiadora negra, natural de Uruçuí, no sul do Piauí. Licenciada em História pela Universidade Federal do Piauí (UFPI, 2023), atualmente é mestranda no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Ceará (UFC), com financiamento do CNPq.
Sua trajetória acadêmica é marcada pelo engajamento em projetos de pesquisa e intervenção social. Como bolsista do Programa Residência Pedagógica, sob orientação da Prof.ª Dr.ª Pamela Michellet, atuou em projetos de “Educação Antiracista” em escolas estaduais de Teresina. Desenvolveu, ainda, pesquisa científica orientada pela Prof.ª Dr.ª Cláudia Cristina Fontineles, investigando o processo de promulgação da PEC das Domésticas (2013) e a cobertura jornalística – tanto em veículos hegemônicos quanto independentes – durante esse marco legislativo.
No mestrado, Ana Victoria aprofunda essa linha de investigação, analisando como os jornais Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo noticiaram o longo percurso de lutas e negociações que resultaram na Emenda Constitucional n° 72/2013. Sua pesquisa busca compreender como o tratamento midiático desse avanço legal dialogou com as estruturas raciais brasileiras, revelando narrativas que perpetuam ou contestam a invisibilidade e a subalternização do trabalho doméstico.
Seu interesse pelo tema, no entanto, precede e transcende a academia: é fruto de sua vivência pessoal. Criada em uma família onde tias e outras parentes há décadas se empregam como trabalhadoras domésticas, Ana carrega consigo a consciência aguda de como esse trabalho é atravessado por relações de gênero, raça e classe. Sua pesquisa é, assim, movida por um compromisso intelectual e afetivo em dar visibilidade a histórias silenciadas e em tensionar as estruturas que naturalizam a exploração.
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No tecido social brasileiro, entrelaçadas às dinâmicas mais íntimas dos lares, encontra-se a figura da trabalhadora doméstica. Mulheres cujas existências e labutos foram sistematicamente silenciados nos registros oficiais da história, relegadas às margens das narrativas hegemônicas. O que verdadeiramente sabemos sobre essas mulheres? Quais são as histórias sussurradas nos intervalos do serviço pesado, as dores caladas, as resistências cotidianas que não encontraram eco nos livros? Quais são as representações construídas em torno desse trabalho que impregnaram no imaginário social brasileiro?
As narrativas que tradicionalmente circundam o trabalho doméstico são, em grande parte, construídas por vozes alheias a essa vivência: por uma academia distanciada, por uma literatura que frequentemente as reduz a tipos sociais e por um imaginário social e coletivo impregnado de heranças coloniais e patriarcais – além de representações midiáticas e televisivas que, por décadas, as relegaram à condição de sujeitas invisíveis. Esse imaginário perpetua estereótipos despersonalizantes, que oscilam entre a figura da “segunda mãe” devotada e a da servidora silenciosa, cujos corpos e subjetividades são apagados em função da conveniência daqueles que usufruem de seus serviços.
Este escrito emerge, portanto, de um esforço crítico para tensionar esses questionamentos. Não se propõe a responder por elas, mas a criar um espaço de interlocução que amplifique e dignifique suas vozes. Parte do pressuposto ético e político de que é urgente ouví-las. O grande desafio, contudo, persiste: como ampliar este debate para além dos muros da academia, quando são justamente essas mulheres que, por uma histórica e violenta exclusão, ainda não habitam estes espaços privilegiados de produção de conhecimento? Quando lhes é estruturalmente negado o poder de narrar, construir e definir os termos de suas próprias experiências?
Este artigo configura-se, assim, como um convite à escuta. Representa um primeiro passo no extenso caminho de desconstrução das narrativas impostas e na luta pelo direito inalienável de que as próprias trabalhadoras domésticas sejam as autoras de suas histórias. Trata-se, além disso, de rompermos com as representações que naturalizam suas subalternidades, trazendo-as para o centro dos debates trabalhistas e reafirmando-as — em toda a sua potência e dignidade — como trabalhadoras.
A Ferida Aberta: O Imaginário Social construído na figura da trabalhadora doméstica.
Falarmos do trabalho doméstico é espremermos entre os dedos uma ferida sécular da história do Brasil: uma que nunca cicatrizou, porque sangra racismo e sexismo todos os dias. É remexermos em uma dor silenciada, em lágrimas que nunca foram ouvidas, mas sim engolidas no cansaço solitário de quem serve. É desvendarmos a essência de um ofício cuja marca histórica é a subalternidade – a condição de ser sempre “a moça que trabalha lá em casa”, nunca uma mulher com nome e história.
É reconhecermos a ambiguidade perversa que habita a violência mascarada de afeto condicional expressa na frase tão comum: “mas ela é quase da família”. Essa falsa proximidade nega, na prática, a plena cidadania e o reconhecimento profissional dessas mulheres, explorando a intimidade do ambiente doméstico para ocultar relações de poder assimétricas.
É darmos nome à violência psicológica cotidiana: as revistas humilhantes nas bolsas ao final do dia, a sensação constante de ser tratada como cidadã de segunda categoria, a subalternidade velada sob o elogio interesseiro. É enxergarmos, com clareza cortante, a arquitetura simbólica que as confinam e as inferiorizam: o elevador de serviço, a entrada dos fundos, e sobretudo o quartinho de empregada — aquele cubículo presente nas plantas das grandes mansões brasileira, que marca uma geografia e secular.
Aquele cômodo mínimo não é apenas espaço: é a materialização do lugar social que lhes foi destinado. Um silêncio feito de paredes, um “afeto” que cabe em poucos metros quadrados. É na arquitetura da casa que se revela a arquitetura do preconceito. Preconceito este com raiz escravista. Na história brasileira, temos mais tempo com o sistema escravista do que sem ele: foram trezentos anos de escravidão, cujas marcas da opressão é possível percebermos na arquitetura, um quartinho minúsculo, muitas vezes pouco ventilado e com um claro objetivo de segregar e distinguir.
E por falar em escravidão, é de lá que se origina esse trabalho. Dentro das múltiplas funções exercidas pelos escravizados, existiam os escravizados domésticos, que atuavam no interior da casa dos escravizadores. E é nesse contexto que foram herdadas tanto as práticas culturais quanto o imaginário social construído em torno da figura da doméstica. A intelectual Lélia Gonzalez denominou esse fenômeno como “neurose cultural brasileira”:
Quanto à doméstica, ela nada mais é do que a mucama permitida, a da prestação de bens e serviços, ou seja, o burro de carga que carrega sua família e a dos outros nas costas. Daí, ela ser o lado oposto da exaltação; porque está no cotidiano. E é nesse cotidiano que podemos constatar que somos vistas como domésticas. Melhor exemplo disso são os casos de discriminação de mulheres negras da classe média, cada vez mais crescentes. Não adianta serem ‘educadas’ ou estarem ‘bem-vestidas’ (afinal, ‘boa aparência’, como vemos nos anúncios de emprego, é uma categoria ‘branca’, unicamente atribuível à ‘brancas’ ou ‘clarinhas’). Os porteiros dos edifícios obrigam-nos a entrar pela porta de serviço, obedecendo às instruções dos síndicos brancos.[1]
Ao cunhar o termo “mucama permitida”, Lélia expõe com precisão a continuidade histórica entre a escravização das mulheres negras e a atual condição das trabalhadoras domésticas no presente. Mesmo após a abolição formal da escravidão, o que ela identifica como a neurose cultural brasileira segue operante, reproduzindo dinâmicas racistas que confinam essas mulheres a espaços de invisibilidade e servidão.Essa neurose não se manifesta como um fenômeno individual, mas como uma estrutura psíquico-social que sustenta o racismo e sexismo, dificultando o reconhecimento das domésticas como profissionais plenas, dignas de direitos e respeito.
Não se trata, contudo, de ignorarmos as transformações históricas ou de reduzirmos a realidade do trabalho doméstico somente como um mero fruto da escravidão. É preciso situarmos as complexas relações de poder e os jogos de interesse que se desdobraram ao longo do tempo. Logo após a abolição inacabada de 1888, as principais capitais brasileiras testemunharam um aumento significativo e uma diversificação do contingente de trabalhadores domésticos, que passou a incluir libertos, trabalhadores livres, nacionais e estrangeiros.[2]
Paralelamente, emergiram iniciativas voltadas ao estabelecimento de normas regulamentadoras para a atuação desses trabalhadores, impulsionadas sobretudo pelos poderes públicos e patronais. Tais esforços refletiam menos uma preocupação com a proteção dessas trabalhadoras e mais um interesse em disciplinar e controlar sua alta rotatividade, consolidando práticas que as submetiam às vontades das famílias empregadoras.
A implementação de instrumentos como a caderneta de trabalho e a matrícula obrigatória[3] evidenciava um claro projeto de controle, destinado a limitar a mobilidade das domésticas entre os espaços públicos e privados. Sob o pretexto de garantir segurança e estabilidade aos lares, ocultavam-se dinâmicas de poder que buscavam subjugar e disciplinar um grupo majoritariamente composto por mulheres negras e de baixo prestígio social.
Como demonstra a pesquisadora Natália Peçanha, o pós-abolição tornou-se um terreno fértil para a construção e disseminação de estereótipos sobre as trabalhadoras domésticas. Em sua análise, Peçanha destaca a importância de uma abordagem interseccional para compreendermos como raça, classe e gênero convergiram na produção de estigmas contra essas mulheres, frequentemente retratadas pela imprensa carioca do final do século XIX e início do XX como figuras perigosas, indolentes ou moralmente questionáveis:
A preocupação em relação à classe dos/as trabalhadoras mostrava-se como algo visível no mundo capitalista, tornando o serviço doméstico uma atividade que foi alvo de constantes argumentos acerca da idoneidade e periculosidade de trabalhadoras/es no alvorecer e consolidação do capitalismo. Desta forma, a questão da classe e do gênero, uma vez que a feminização do serviço doméstico foi um dos motivos para sua degradação, mostra-se como um ponto fundamental para o entendimento das diversas representações negativas em relação a esta atividade. Entretanto, sobretudo para o caso brasileiro, a questão racial andou junto, e, muitas vezes, determinou políticas de controle e disseminação de representações negativas sobre os comportamentos e práticas sociais das trabalhadoras negras.[4]
Esse processo de criminalização não foi por acaso: diante do “dilema” representado pela população negra recém-liberta, as elites brasileiras buscaram formas de controle que dessem continuidade à ordem anterior sob novas roupagens. No universo do trabalho doméstico, a resposta foi a construção de uma narrativa unânime que associou essas trabalhadoras à ideia de perigo e desordem, justificando assim práticas de vigilância, disciplinamento e exploração que perduram até os dias atuais.
Esse mesmo cenário de controle e estigmatização encontrou ressonância significativa no campo literário brasileiro do final do século XIX e início do XX, onde as narrativas ficcionais passaram a operar como mecanismos de reforço dessas mesmas hierarquias sociais. Autores consagrados do período frequentemente retratavam as empregadas domésticas como figuras suspeitas, agentes de contaminação moral e física que ameaçavam a ordem doméstica.
Nesse contexto, a obra A Viúva Simões, de Júlia Lopes de Almeida, emerge como exemplar ao ilustrar os temores das elites urbanas em relação à presença dessas trabalhadoras no espaço privado. Como analisa a pesquisadora Sonia Roncador[5], a representação literária das domésticas – então denominadas “criadas” – vinculava-se à percepção de que elas poderiam introduzir perigos externos no âmbito familiar, seja através de supostos delitos como furtos e chantagens, seja pela potencial contaminação por doenças ou influências morais indesejadas.
Essa construção narrativa nunca foi neutra: ao associar a rotatividade das trabalhadoras – uma estratégia de sobrevivência e resistência – a ideias de deslealdade e periculosidade, a literatura naturalizava a necessidade de seu controle e vigilância. Através de personagens unidimensionais e carregadas de estereótipos, consagrava-se um imaginário social que justificava a opressão sobre essas mulheres, majoritariamente negras e pobres, transformando-as em bodes expiatórios dos medos e ansiedades das classes dominantes em um período de intensa reconfiguração social que foi o pós-abolição.
No imaginário social brasileiro, construído sobretudo pela televisão e pela mídia, a figura da trabalhadora doméstica foi lentamente cristalizada em estereótipos que confinam, diminuem e sexualizam. Ela aparece como a “mãe preta” de sorriso fácil e lealdade incondicional, a nordestina de sotaque caricato ou a mulher negra de corporeidade exacerbada e hipersexualizada. São representações que ecoam, sem pudor, o arquétipo da “Mammy” estadunidense – aquela que existe apenas para servir, amar e nutrir afetivamente a família branca, sem jamais expressar cansaço, desejo próprio ou dor.
Monteiro Lobato consagrou essa imagem com Tia Anastácia, mas as telenovelas e programas de TV prosseguiram meticulosamente no trabalho de apagamento de suas humanidades. Seja como empregada irreverente que alivia as tensões domésticas com suas tiradas cômicas, seja como figura submissa que encontra sentido existencial no serviço alheio, ou ainda como objeto de desejo velado do patrão, todas essas versões compartilham um mesmo projeto: naturalizar a subalternidade e racismo explícito.
Como bem lembra Lélia Gonzalez, essa não é apenas uma distorção midiática, é uma neurose cultural. Uma compulsão em reproduzir, simbolicamente, a “mucama permitida” do passado escravista, agora travestida de personagem secundária, sempre à sombra dos protagonistas brancos. Suas vidas não importam por si só, valendo apenas em função do que podem fazer pelos outros.
Essas representações não são inocentes. Elas ensinam, desde cedo, a quem deve servir e a quem deve ser servido. Moldam afetos, constroem expectativas e legitimam desigualdades. Ao ridicularizar, eroticizar ou infantilizar a trabalhadora doméstica negra, a mídia não apenas reflete o racismo estrutural: ela o fertiliza, garantindo que geração após geração continue a ver aquela posição como um “lugar natural” – nunca como resultado de uma história de violência não reparada. É assim que se perpetua a mais cruel das heranças: fazer com que o afeto disfarce a exploração, que o sorriso oculte a resistência, e que a ficção justifique a opressão.

Figura 1: Zilka Salaberry e Jacira Sampaio como Dona Benta e Tia Nastácia (1977-1986).

Figura 2: Em primeiro plano, ao centro, Judith e Purezinha aparecem sentadas, com os braços apoiados sobre uma mesa. Abaixo delas, estão Edgard, Martha e Anastácia, que segura Guilherme Monteiro Lobato no colo. À esquerda, junto à janela, observa-se uma mulher negra não identificada.
Na imagem acima, encontramos possivelmente a inspiração de Monteiro Lobato para sua personagem Tia Nastácia. Anastácia posiciona-se à direita, segurando em seus braços Guilherme Monteiro Lobato, em fotografia datada de 1913. Este registro familiar transcende o âmbito pessoal, revelando-se um documento histórico que articula as bases afetivas e ideológicas que viriam a fundamentar a obra do autor. A presença de Anastácia – mulher negra que atuava no ambiente doméstico da família Lobato – materializa a relação complexa e hierarquizada que Monteiro Lobato posteriormente representaria literariamente na figura de Tia Nastácia.
Esses veículos de comunicação não apenas moldaram a percepção pública sobre as trabalhadoras domésticas, mas também refletiram predominantemente a perspectiva das classes dominantes, frequentemente distorcendo a realidade e negligenciando a complexidade de suas lutas por reconhecimento e direitos. Como destaca bell hooks, é fundamental analisarmos tais representações em um contexto onde a supremacia branca ainda permeia as estruturas sociais, culturais e políticas. Uma crítica atenta a essas construções midiáticas revela como as narrativas sobre a negritude são elaboradas e disseminadas, reforçando estereótipos que desumanizam e marginalizam pessoas negras. hooks argumenta que “a luta por uma representação justa vai além da simples crítica às imagens estereotipadas; trata-se de transformar a forma como a negritude é percebida e vivida na sociedade”.[1]
No caso específico das trabalhadoras domésticas, essa análise ganha contornos ainda mais urgentes, pois é preciso desnaturalizar as desigualdades sociais e raciais que estruturam suas trajetórias. Como propõe Patricia Hill Collins[2], as “imagens de controle” são construções sociais que distorcem o comportamento e a identidade dessas mulheres, frequentemente associando-as a um “outro” subalterno, o que perpetua lógicas patriarcais e econômicas excludentes. Collins alerta que tais imagens não correspondem à realidade dessas trabalhadoras, mas funcionam como mecanismos de opressão que reforçam hierarquias sociais.
Torna-se imperativo, portanto, rompermos com essas representações limitantes, interrogando as perspectivas políticas a partir das quais são produzidas e consumidas. A construção de uma identidade negra que resista à submissão aos padrões da branquitude é fundamental para valorizarmos a experiência negra em toda sua complexidade. A promoção de narrativas contra-hegemônicas e a criação de espaços seguros para expressão cultural e artística negra são passos essenciais para que novas representações emerjam — representações estas que permitam que a negritude seja vista e vivida em sua plenitude, livre das distorções estereotipadas.
Conclusão: Trabalhadoras domésticas no presente.
São das mãos das mulheres negras — violentadas, exploradas e resistentes — que se ergueu não apenas a estrutura das casas-grandes, mas a própria nação brasileira. É desse solo de dor e suor que surge a organização desse trabalho, moldado desde sempre pela lógica perversa da colonização. A herança desse passado não é uma sombra distante; é uma presença viva e cruelmente mensurável.
Em 2024, dados do Ipea sobre trabalho doméstico remunerado confirmam que as mulheres negras seguem sendo a espinha dorsal desse setor, representando 69,9% das pessoas ocupadas.[1] Este não é um dado meramente estatístico: é a prova incontestável de que a racialização dos corpos que performam esse trabalho persiste como fundamento de sua organização. A mesma estrutura que outrora relegou mulheres negras aos serviços domésticos sob chibata e coerção, hoje as confina às cozinhas, aos quartos de bebês e às lavanderias alheias — agora sob o véu tênue da remuneração, que não apaga a marca ancestral da exploração.Não se trata, portanto, de uma ocupação como outra qualquer. Trata-se de um trabalho que carrega, em sua essência, a memória do cativeiro e a continuidade da racialização que insiste em ditar quais corpos devem servir.
Lembramos com um nó na garganta, das amas-de-leite escravizadas, mulheres negras arrancadas de seus próprios filhos para amamentar os filhos dos escravizadores. É constatarmos, com horror, a cruel atualização desse passado: no presente, muitas ainda precisam deixar seus filhos longe para, ironia brutal, cuidar dos cachorros das patroas. É a mesma ferida, aberta e exposta, vestindo novas roupagens para a mesma dor antiga.
Evocamos, com profunda dor, o episódio envolvendo Mirtes Renata, trabalhadora doméstica negra do Recife, mãe de Miguel. Ao cumprir ordens de sua patroa para passear com o cachorro da família, viu-se forçada a deixar seu filho de cinco anos sob vigilância alheia. Sozinho, Miguel caiu do quinto andar de um prédio de luxo. Este evento trágico explicita, de forma brutal, as condições impostas às maternidades de mulheres negras e pobres no Brasil: Mirtes, sem opções, levou o filho ao trabalho e foi nesse mesmo espaço que o perdeu.
Ao relacionarmos esse episódio, longe de ser isolado, mas sintomático de uma realidade que assola milhares de crianças e jovens negros no país, somos convidados a refletirmos sobre as dinâmicas necropolíticas[2]que regulam a vida e a morte nas margens da sociedade. Fica evidente que o direito à vida não é garantido da mesma forma aos filhos das trabalhadoras domésticas. Suas existências são diariamente negligenciadas, violadas e interrompidas por um sistema que naturaliza a perda como destino.
A necropolítica atua precisamente aqui: decidindo quem merece viver e quem pode morrer, quem é digno de cuidado e quem é descartável. A morte de Miguel não foi um acidente, mas a manifestação cruel de uma lógica que expõe corpos negros ao perigo e à morte, enquanto privilegia o conforto e os interesses das classes dominantes.
Finalizamos este diálogo com duas imagens que encapsulam a naturalização secular da subalternidade negra: a primeira, uma pintura de Jean-Baptiste Debret no século XIX; a segunda, uma fotografia contemporânea de João Valadares. Separadas por mais de um século, ambas as composições revelam, com assombrosa semelhança, a permanência de uma lógica colonial que insiste em relegar corpos negros – especialmente os das mulheres – aos espaços invisíveis da servidão. Em Debret, a elite branca avança em primeiro plano, enquanto figuras negras seguem à retaguarda, carregando pertences e crianças. Na fotografia de Valadares, um casal branco caminha de mãos dadas rumo a um ato político, enquanto uma mulher negra empurra o carrinho de seus filhos. A mensagem é clara: alguns marcham para serem vistos; outros, para servir.
Não se trata, aqui, de retratarmos essas mulheres como frágeis ou passivas. Pelo contrário: grande parte das trabalhadoras domésticas são mães solo, provedoras de famílias inteiras, pilares econômicos e afetivos de lares brasileiros. O que questionamos é o lugar que uma sociedade estruturalmente racista lhes impõe há séculos – uma ferida que não cicatriza e continua a sangrar.
Podíamos evocar inúmeros casos de precariedade: jornadas exaustivas, assédios silenciados, direitos negados. Teríamos material para textos gigantescos. Mas o objetivo não é apenas enumerar violências; é causar incômodo. É lembrarmos que, mesmo após a PEC das Domésticas de 2013, a realidade mudou mais no papel que na prática. Muitos patrões burlam a lei, a fiscalização é frágil, e nenhuma legislação sozinha cura 300 anos de exploração.
Todos nós temos uma tia, uma avó, uma mãe, uma vizinha que é ou foi doméstica. Precisamos olhar para elas com afeto, mas também com lucidez crítica: enxergarmos suas potências, sim, mas também trazer à tona o diálogo urgente por melhores condições de trabalho, por cidadania plena, pelo fim da herança escravista que insiste em ditar quem serve e quem é servido.

Figura 3: “Um Passeio” de Jean-Baptiste Debret.

Figura 4: Foto João Valadares – Movimento “vem pra rua”.
[1] Hooks, bell. Olhares negros: raça e representação. São Paulo: Elefante, 2020. p.22.
[2]Bueno, Winnie. Imagens de Controle: um conceito do pensamento de Patricia Hill Collins. Porto Alegre, RS: Zouk, 2020. p.73.
[1]Gonzalez, L. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, 1984. p. 230-231
[2]Para tanto ver: Souza, Flávia Fernandes de. Criados, escravos e empregados: o serviço doméstico e seus trabalhadores na construção da modernidade brasileira (cidade do Rio de Janeiro, 1850-1920). Rio de Janeiro: UFF, 2017.
[3]A matrícula proposta por João Bráulio Muniz (1896, Rio de Janeiro) era um registro obrigatório para trabalhadoras domésticas no período pós-abolição, permitindo aos patrões controlar suas atividades, conduta e movimentos.
[4]Peçanha, Natália Batista. “Precisa-se de uma criada estrangeira ou nacional para todo o serviço de casa”: cotidiano e agências de servidoras/es domésticas/os no mundo do trabalho carioca (1880-1930). Seropédica – RJ: UFRRJ, 2018. p.182.
[5]Roncador, S. Histórias paranoicas, criados perversos no imaginário literário da Belle Époque tropical. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n. 27, p. 127-40, jan./jun. 2007.
[1]INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Radar do trabalho doméstico: atualização de indicadores – 2024. Brasília, DF: IPEA, 2024. Disponível em: TD 2775 – As Medidas Não Tarifárias Constituem Barreiras ao Comércio? Uma Abordagem Global e Multissetorial.. Acesso em: 27 fev. 2025.
[2]Necropolítica: Conceito desenvolvido pelo filósofo camaronês Achille Mbembe em seu ensaio “Necropolitica” (2003), aprofundado no livro “Necropolítica” (2018). Refere-se ao poder soberano de ditar quem pode viver e quem deve morrer, gerenciando a mortalidade através de mecanismos políticos, sociais e raciais. Em contextos marcados por colonialidade e racismo estrutural — como o Brasil —, a necropolítica atua expondo populações negras e periféricas à morte precoce e violenta, naturalizando suas perdas como consequência inevitável de sua posição social.



