À Sombra de um Mito Foragido – 5 Poemas Automáticos de Floriano Martins

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FLORIANO MARTINS (1957). Poeta, ensaísta, dramaturgo, tradutor, artista plástico. Dirige a Agulha Revista de Cultura e o selo ARC Edições. Curador dos projetos “Atlas Lírico da América Hispânica” (revista Acrobata) e “Conexão Hispânica (Agulha Revista de Cultura). Livros mais recentes: 120 noites de Eros (ensaios) e Antes que a árvore se feche (poesia completa), ambos de 2020.

Os poemas fazem parte do livro Furor de Máscaras ( Arc/Cintra Edições, 2021) disponível em Ebook Kindle pela Amazon.


LUZ NO ESPINHAÇO

Moluscos crescem como vagalumes.
Conspiram de barriga cheia. Moluscos
rastreando a terra que levam dentro.
Pequenas luzes dragadas na boca das rãs.
Moluscos confabulam suas pérolas.
Rabiscam manuscritos na beira dos rios.
Pedimos a cada um deles que indique
um caminho até o horizonte emancipado.
Moluscos rejeitam toda reza, toda crença.
A algazarra que fazem no mapa da terra
é a profanação de embriões humanos.
Para eles não há vingança ou justiça.
A hera herda seus truques e volta a crescer.
Moluscos habitam o espinhaço do mundo.


RELÍQUIAS TRIBAIS

Hades macera ervas para o vermute.
Um prado de alucinações para quem
relute em aceitar os truques do mito.
Quem jaz consente que a noite se esvai
como as notas de um acalanto fugaz.
Quem refaz os caprichos da agonia
tarda a descobrir a flor desvanecida
na própria carne, na relva escura
de um rito que reanima o inevitável.


CERVO LASCIVO

Meus cornos invocam melodias mágicas,
com eles aprendi a regar tuas lâminas.
Com uma pedra amolo sorrisos, a febre
de teus lances quando sobes em mim.
Meus cascos apagam os rastros da aurora.
O tempo cintila suas fábulas enfeitiçadas.
Nos refugiamos em casebres suspensos,
no alagado dos espíritos que nos guiam.
Galhos retorcidos sábios antecipam a luz
das pequenas curvas de teu dorso nu.
Galopas as vértebras em pleno desatino.
Meus pelos se enroscam em tua língua.
A vida que vivemos é um mito foragido.


ATLAS VULCÂNICO

Os sigilos gritam para as gárgulas de fogo:
– Não abusem da altura de seus voos de pedra
que as torres se curvam para os olhos famintos
do tempo e seus castelos emplumados.
Os sigilos comem a farinha mofada dos dias
e morrem engasgados com o ponteiro das horas.
Mesmo assim, ainda gritam para as estátuas
imperiais no pátio de seus medos: – Não abusem
dessas rochas que ocultam as tormentas
e amassam em suas águas os enigmas precários.
Os sigilos não voltam a passar por aqui.
Sua terra se desfaz a cada grito, a cada segredo.


CHAVES DA QUEDA

As casas ruminam à beira do abismo.
Nossos corpos desabam abraçados,
deslizando com os móveis aturdidos,
as pedras que colamos em cada canto
certos de que os acidentes não viriam.
As noites desenhadas pelo incenso
roíam a roupa de secretos desamparos.
Mordíamos uma casa de cada vez.
Toda uma vila de voragens magnéticas.
As calhas aprendendo a ler as chuvas.
Os sonhos engoliram a seco essa dor.
As casas não despertariam amanhã.
O abismo retalha a morada da agonia.

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