Tempo com ossos

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Por Maíra Dal’Maz

1

eu sei que há outros cães.

mas serpentes continuam nascendo do ralo da pia. tenho vergonha. serpentes mortas ainda picam, me disse o amor. não importa o corpo, só as presas com suas pequenas bolsas de veneno

inchadas de silêncio. depois de tudo, ainda acordo. ainda saio para o fracasso. não me importam outros cães, só seus olhos, que estão crucificados na porta. porque é o meu cheiro que vai se apagando no turno. e resta o traço, o espectro, o veneno sem corpo,

quase nada.

se volto, seus pelos encostam nos meus, experimentando a linguagem que trago de volta.

2

não ouvi de outros cães, não.

só gosto da história que nasce quando seus pelos me tocam. quando você pede o resto da comida, eu nego e você enterra meu nome no quintal. começa no espreguiçamento do idioma, quando encosta o focinho nas minhas pernas, lambe devagar entre os poros,

que ainda sou.

pelúcia com o olho arrancado que você escuta pela parede do banheiro mijando, roendo os próprios dedos.

o cheiro do meu medo te lambe de volta.

estou aqui.

e estivemos em cada corda do enforcado, fiapos de sisal. não cansamos de nos fulminar com perguntas que revelam que

ainda somos.

3

não sei acordar outros cães, não.

na pausa entre dois sonhos, sou uma parede quente a se encostar. uma parede pixada: não vá tão deserto.

desfaça o nó, queime a forca,

siga, pergunte qual a data de hoje no sonho, marque o tempo.

o tempo

é o tempo

é o tempo

é o tempo […]

é a vírgula, de olhos firmes.

sinceramente, sou sempre eu que te espero. até nisso escrevemos. um tempo em comum, quando meu cão acorda para defecar. ele raspa a pata no cimento, escreve ainda mais. o último parágrafo da história sobre sonho e

vergonha.

4

não sei se há outros cães.

que comprimento alcançariam nossos pelos trançados? algo da ordem da

sombra.

me chama ao agora, quer brincar. esse cuidado só pode ser um calor

que não queima.

não quer o silêncio entre nós. quer estar junto, quer que eu saia dessa posição, do cenho franzido ao menor dos meus problemas.

me exige o agora, porque o tempo escreve

palavras cachorras,

disse a poeta que partiu de si em um barco qualquer. e o que não se cospe com a boca, se escreve com a carne. que é veneno: o meu corpo encostado no tempo.

que tipo de chão é preciso para tocar a própria vergonha?

quem ensinou o veneno à serpente?

quando o cão se senta ao pé da forca, ele espera ou escolhe?

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