A conferência pública “SABERES ANCESTRAIS E RESISTÊNCIA: diálogos entre culturas quilombolas e indígenas” foi organizada pela professora Dra. Danielle Rêgo (UFPI/CTF), no Colégio Técnico de Floriano, dia 24 de junho [2025] com a participação da Cacica Dan (Akroá Gamela), Leandra Carvalho (Quilombo Mimbó), professor Gisvaldo Oliveira (UESPI) e professora Rebeca Lopes (UESPI). A Revista Acrobata esteve presente cobrindo o evento e agora compartilha com vocês as contribuições que são fundamentais para aprofundarmos nossas reflexões sobre a questão agrária, indígena e quilombola no Brasil contemporâneo.
CACICA DAN: Em nossos objetivos, quero pedir licença a vocês, a Deus encantado, que seja um bom encontro e uma boa palestra e que abra a memória de cada um de vocês durante esse encontro que a gente está dando, essas palestras, e vocês saiam com a sabedoria. E primeiro a gente tem que pedir à Mãe natureza que ela faça isso. Nós não viemos de fora, nós continuamos nessa terra.
Todo esse conhecimento porque quando eu nasci em 1968 já lutava pela justiça e depois quando nós abrimos o debate também pedi licença porque nós só abrimos uma reunião após o Toré. Ele vai benzer toda essa casa, a nossa medicina, todo o nosso povo. Porque a gente é a nossa cultura.
São os Toré. Vou colocar ela aqui. Então, vamos fazer o Toré?
LEONARDA: Sou nascida e criada na comunidade quilombola Mimbó. Desde quando eu nasci, vivenciando, presenciando lutas. Lutas essas que não são fáceis. E a professora que ela se refere do filme (exbido antes do debate) é a professora Rita, acredito que vocês já ouviram falar. Ela foi a primeira professora da comunidade, ela estudou só até a quarta série do ensino fundamental, mas até então ninguém tinha nenhum estudo além dela, só por esse [estudo] com o que ela teve, ela conseguiu alfabetizar, entre aspas, uma grande parte da comunidade. E hoje, 90% dos professores da comunidade são da própria comunidade. Isso já veio através dos grandes avanços, das lutas que a gente vem tendo sempre resistindo.
Eu sou uma das professoras da comunidade, hoje estou como coordenadora pedagógica, sou umbandista, Sou organizadora também da tenda. Organizo os eventos, os rituais que a gente faz na frequência semanal. E estamos aí na luta sempre buscando espaço, buscando direitos, buscando voz, buscando lugar. O lugar de preto é onde eles quiserem.
E falando sobre a questão do sobrenome. O Rabelo era para ser Ribeiro, mas como na cidade de Amarante tinha e tem uma família branca, que o sobrenome é Ribeiro, aos primeiros irem se registrar no fórum, não aceitaram por ser preto. Não aceitaram ter o mesmo sobrenome de uma família de brancos.
Daí o fórum mudou praticamente sozinho, ou seja, a opinião da família, ao invés de colocar Ribeiro, colocou Rabelo. E o Paixão foi porque um dos primeiros avós dela nasceu sexta-feira da Paixão. Aí os pais colocaram o signo de Paixão. Daí nasceu o sobrenome Rabelo da Paixão. E eu não tenho Paixão, não por não ser da comunidade, sou sim da comunidade, mas naquele tempo os pais da gente iam se registrar sozinhos e acabavam que eles não pegavam o sobrenome do pai ou da mãe e lá fora colocavam outro sobrenome qualquer. Por isso eu não carrego o Paixão no documento, só no sangue. E na vida, né? E na vida!
REBECA: Boa tarde, me chamo Rebeca. Sou historiadora, atualmente também sou indígena em retomada, então eu parto de um lugar de pesquisadora, mas também de pesquisadora indígena e daquela que vivencia a luta cotidiana desses povos, que historicamente foram silenciados, marginalizados, por uma historiografia, e aí eu falo, parto do lugar como pesquisadora, de uma historiografia nacional e regional, que silenciou a história desses povos.
Hoje no Brasil a gente tem cerca de 300 etnias, eu não consigo falar aqui pra vocês etnia por etnia, porque é uma diversidade muito grande. Mas caso vocês tenham interesse em saber, a gente tem um material que é o Instituto Socioambiental, que nesse livro a gente tem todas as etnias de todos os territórios brasileiros, incluindo Nordeste, Norte, Centro-Oeste, Sudeste, Sul. E a gente também tem o Piauí, que historicamente se consagrou como um Estado sem indígena, como um Estado que nasceu da ausência desses povos na sua história, hoje ele congrega aí cerca de 10 etnias, espalhadas em mais de 27 comunidades, e o último censo do IBGE de 2022 registrou 7.198 pessoas se autodeclaram indígenas, mas a gente sabe que de 2022 pra cá esse número só tem crescido.
Então hoje a gente tem por volta de quase 10 mil pessoas se reconhecendo enquanto indígenas no Piauí. Inclusive Floriano ocupou uma posição muito significativa na quantidade de pessoas que autodeclaram indígenas. Os indígenas do Nordeste hoje congregam uma diversidade não somente de línguas, mas também de povos.
A gente tem essa noção racista, estereotipada, de que tem cara de índio e aquele não tem cara de índio. Enquanto, na verdade, no Nordeste, nós passamos por processos violentos, inclusive, de miscigenação, Mas que isso não significa dizer que a identidade indígena foi totalmente apagada. Então a gente tem indígena hoje de pele retinta, a gente tem indígena hoje de cabelo cacheado, crespo. Então isso compõe o que a gente chama hoje de indígenas do Nordeste. Quero dizer novamente que eu estou muito feliz de estar aqui com vocês, de estar compartilhando essas trocas e saberes.
Estar aqui com meus colegas também, com o curso de História, com os professores. Sou filha da casa da UESPI (Universidade Estadual do Piauí) de Floriano, e mais uma vez, estando ao lado da minha maior referência aqui na luta atual, pelo território e pela terra, que é a Cacica Dan.
DANIELLE: Professor Gisvaldo, como é seu grupo de pesquisa sobre territorialidade? E o que é essa tal territorialidade? É sobre a terra pela qual os povos indígenas e quilombolas lutam ou sobre muito mais que isso?
GISVALDO: Então, boa tarde a todas, todos e todes. Ainda é tarde, né, gente?
Primeiro, agradecer a você pelo convite para participar desse momento de diálogo. Queria também saudar aqui todos os estudantes do Colégio Técnico de Floriano, os nossos também estudantes da UESPI, dos colégios que trouxeram aqui os seus amigos. Saudar também a Dona Dan, que eu particularmente sempre me refiro dessa forma a Dona Dan carinhosamente, e sem dúvida é uma grande e admirável referência da vida dos povos indígenas no Piauí e no Brasil. Então, quero dizer que para mim é uma alegria muito grande poder participar de um momento como esse com a Dona Dan.
E individualmente também, que é uma alegria também muito grande participar desse momento de diálogo com a Rebeca, que é uma jovem e admirável historiadora, que também tem contribuído, não só a partir das suas pesquisas, mas com a sua ação militante para o processo de articulação da luta dos indígenas, que extrapola o Piauí, vai muito além do nosso território. E queria dizer da alegria de poder conhecer a professora Leonarda, né?
Queria saudá-la também aqui como representante da comunidade Mimbó, uma comunidade importantíssima na historicidade, no nosso território. Eu sou professor da Universidade Estadual do Piauí, historiador e concentro pesquisas na área dos conflitos e lutas por terra, mas também das terras e variedades indígenas. Sou também militante do movimento sindical, docente da luta antirracista.
Atualmente eu cumpro uma tarefa que é a de fazer parte da direção do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior, que inclui aí os colégios técnicos, os institutos federais, as universidades estaduais, federais. Um sindicato que congrega uma base muito grande, o maior sindicato de professores e professoras da América Latina.
Então, eu transito nesse debate sobre acesso e luta por terra, mas também já respondendo a indagação feita pela professora Danielle das territorialidades, que remete à ideia de como nós existimos na Terra, de como a gente constrói os nossos modos de ser, de viver, de sentir o nosso agir, de como a gente se movimenta cotidianamente para fazer aquilo que o Ailton Krenak já colocou.
Existir, resistir e re-existir.
Então, quando a gente pensa essa ideia das territorialidades, nós estamos falando de todo o universo das vivências, das comunidades indígenas e quilombolas e de outros povos que têm como centro de suas vidas a vivência comunitária. Quero dizer que me alegro muito em participar de momentos como esse, porque nem sempre foi possível a gente conversar sobre o que a gente está conversando agora.
Todas e todos nós sabemos aqui quais são as bases históricas em que se construiu a percepção sobre esse território em que nós vivemos e que se pode chamar de Brasil. Muitas das tentativas de silenciamento acerca das territorialidades indígenas e quilombolas, né?
E essas tentativas atentam contra aqueles que são os verdadeiros e as verdadeiras construtores do nosso país. Esse imenso território que veio a se chamar Brasil. Os que vieram antes de nós e que legaram toda uma diversidade de formas de ancestralidade, já que quando a gente fala de povos indígenas e quilombolas, nós estamos falando de uma diversidade de ancestralidades, formas de sentir, de agir, de pensar, de existir no mundo.
Então eu fico muito feliz mesmo de poder participar aqui dessa conversa com vocês, porque assim que eu encaro, eu acho que a gente está fazendo aqui uma conversa, uma partilha, para que a gente possa buscar se encontrar nessa partilha e pensar sobre a nossa existência.
Então é isso. E aí a gente vai seguindo a conversa.
DANIELLE: Leonardha, como que tem sido lá no Mimbó, vocês lidando com as tecnologias digitais? Há uma parceria público-privada que levou pontos de wi-fi para sua comunidade por meio do projeto Piauí Conectado. Queria saber o que mudou para vocês depois desse marco tecnológico?
LEONARDA: Mudou a educação, porque antes na escola não tinha internet e aí a gente era completamente fora do mundo tecnológico e a gente sabe que a educação hoje precisa. A internet chegou na escola há mais ou menos 5 anos.
DANIELLE: E na comunidade em geral? Se eu quisesse lhe mandar um whatsapp para marcar esse nosso encontro, isso seria possível 5 anos atrás?
LEONARDA: Não, já tinha antes em alguns casos, mas na comunidade em geral foi mais ou menos há 5 anos. E melhorou muito, melhorou até a vida financeira, porque agora lá a gente tem um grupo de mulheres artesãs, que fazem artesanatos e revendem na internet. E aí também um grupo de jovens que participam de reuniões, de palestras online. Então ajudou muito na comunidade. Certo que esses jovens não aproveitam tanto como deveriam.
DANIELLE: Gente, lembrando que ela, além de professora, foi a primeira Miss Beleza Negra do Quilombo Mimbó.
LEONARDA: Isso, há 20 anos atrás. Daí pra cá a gente tem outras belezas.
DANIELLE: Qual é o principal diálogo que existe entre as culturas quilombolas e as culturas que a gente conhece?
GISVALDO: Bom, eu acho que essa pergunta é muito importante porque ela remete ao eixo do diálogo que está sendo proposto aqui, que é pensar sobre os saberes ancestrais, relacionando isso com o processo de resistência das comunidades indígenas e quilombolas. O que eu acho que é a ligação entre as comunidades indígenas e quilombolas? Se a gente pode pensar numa dimensão que é comum, é a vivência comunitária.
Essa é uma dimensão importantíssima, que me parece ter todo um nexo, toda uma ligação, quando a gente pensa nas formas de vivência das comunidades quilombolas e indígenas. Isso não quer dizer que as vivências são iguais, e não são, hoje em dia. Nem nas comunidades indígenas, nem nas comunidades quilombolas, as formas de se sentir, pensar, de se posicionar no mundo, não são iguais, são diversas. Inclusive é importante a gente pensar isso para não cair na armadilha da homogeneização europeizante que é colocada para a gente nos livros de história, nas narrativas tradicionais.
O que eu quero dizer para vocês é que quando a gente pensa em saberes ancestrais, nós estamos falando de uma diversidade de saberes que são acumulados a partir de vivências singulares específicas. Então, essa dimensão da vivência comunitária é uma base que estrutura a ideia da ancestralidade.
Dentro dos saberes ancestrais, não está colocada essa possibilidade da construção da nossa existência, nem da nossa reexistência, que seria um reelaborar sobre a nossa existência, no plano individual. No âmbito dos saberes ancestrais, nós não concebemos que a nossa existência se dá de forma individualizada.
É o contrário disso.
A nossa existência se estrutura, se fortalece e se consolida na vivência coletiva, na construção coletiva.
Eu diria que se a gente, dentro dessa diversidade, dessas singularidades que constituem cada comunidade indígena, cada comunidade global, se a gente tentasse buscar aqui algum nexo para pensar o que é que liga fortemente essa singularidade seria a dimensão da vivência comunitária. Porque eu acho que isso é muito importante.
Quando a gente pensa a nossa existência a partir de uma lógica comunitária, a gente pensa sobre a nossa própria história. Pensa no sentido de perceber que a nossa história, ela não começa com a gente, começa com os que vieram antes de nós.
A gente passa a compreender que o que nós somos, a forma como nós nos posicionamos no mundo, ela tem uma referência em relação a todas as pessoas que vieram antes de nós e que nos legaram um conjunto de aprendizados, ensinamentos, que nos permitem ter uma forma de estar e de ser no mundo.
Essa é uma questão importantíssima.
Quando a gente pensa nos saberes ancestrais, a gente está rompendo, de qualquer forma, de existência no âmbito do individualismo que, sem dúvida alguma, é uma das maiores heranças da colonização. A ideia de que nós devemos construir a nossa existência de forma apartada, de forma isolada.
Inclusive, a partir dessa lógica, construindo apartheids, abismos entre nós, em função da cor da pele, em função dos modos de ser, de viver, da orientação, da sexualidade. Eu penso que nós temos muito a aprender com os saberes ancestrais e, para mim, a dimensão fundamental para começar a aprender é pensar nessa lógica de vivência comunitária, de como a gente constrói a nossa identidade cultural e, mais do que isso, de como a gente pensa como é o nosso estar e nossa condição no mundo e como a gente reconfigura isso sem deixar de olhar para trás. Sempre digo isso para os meus alunos quando a gente está conversando sobre o movimento da história.
O passado não é coisa para ficar para trás. É o contrário disso.
O passado diz muito sobre o que nós somos e sobre a possibilidade que nós temos de reconstruir a nossa existência. A ancestralidade nos faz, o tempo todo, nos conectarmos com essa ligação entre o que veio antes do que existe agora. E, nesse movimento do que veio antes e do que existe agora, a gente vai se reconstruindo o tempo todo, mas sem perder as nossas raízes. Por que estou falando de raízes?
Porque, quando a gente fala de conhecimentos ancestrais, ou de saberes ancestrais, nós não estamos falando de qualquer tipo de saber. Estamos falando de saberes que são enraizados em experiências históricas singulares, específicas, e que têm todo um peso na forma de nos construirmos enquanto seres humanos.
Existem muitos cruzamentos, se a gente for tentar pensar aqui, nessa ligação de saberes ancestrais, entre povos indígenas e quilombolas. Poderia colocar aqui um outro exemplo que é o da compreensão do que representa a Terra para nós. A Terra no sentido do chão que a gente pisa, do chão que a gente sobrevive, mas também do chão que nos constrói como humanos.
Vocês já pararam para pensar qual é a percepção que circula entre as comunidades indígenas e quilombolas, quando a gente pensa em algum entendimento sobre o que significa a Terra? Se a gente pensar o que o é mundo que em que a gente vive, em estrutura, a gente vai pensar a Terra como uma mercadoria, uma propriedade. Aí os povos indígenas e quilombolas dizem o contrário para a gente, que a Terra não é propriedade, que ela não é mercadoria, que ela é um ambiente natural de todos serem vivos. Olha só, não é de nós, seres humanos, não. É de todos serem vivos.
O que eu acho que os povos indígenas e quilombolas estão querendo dizer pra gente, quando eles trazem essa percepção distinta sobre a Terra? Que não existe separação entre nós, humanos, e a natureza. Que a Terra, a natureza, é a nossa grande Mãe, que é o nosso espaço de acolhimento, que é o espaço que tudo nos dá, que nos constitui. Existe uma ligação muito forte, entre o que a gente chama de humanidade e natureza. Essas coisas não se separam.
Krenak fala muito sobre isso, que não é possível pensar a humanidade separada da natureza, que a natureza é a que nos constitui. Vocês já pararam para pensar também por que às vezes a gente se reúne numa sala como essa, mas na forma de roda, na forma de ciclo, por exemplo? Vocês acham que é só uma questão estética? Ou será que tem alguma coisa por trás disso?
O que poderia representar, por exemplo, a ideia de que a gente estivesse aqui nessa sala agora, em formato de círculo ou em roda, para conversar? Isso representaria, culturalmente, politicamente, o que para nós? Ou nada?
Na percepção de muitos grupos indígenas e quilombolas, A ideia de se reunir em círculo, fazer rodas de conversa, significa a ruptura com a ideia do individualismo, da construção da ideia de igualdade. Veja que no círculo, em roda, ninguém está à frente de ninguém. Todos têm uma posição de igualdade.
Nas suas acepções específicas de ancestralidade, é como se indígenas e quilombolas estivessem dizendo: “nós não somos seres que nos construímos para a individualidade. Nós somos seres de relações”. Se somos seres de relações, a nossa construção tem que ser coletiva e em posições de igualdade. E eu acho que a gente já passou da hora de aprender cada vez mais com os saberes ancestrais dos povos indígenas e quilombolas. Porque, como frisei aqui no início, esses povos são os verdadeiros construtores desse país. São aqueles que nos legaram as mais diferentes formas de percepção, de cosmovisões sobre o mundo. Talvez, se o mundo hoje estivesse orientado pelos saberes ancestrais, nós não estaríamos comendo alimento com veneno e adoecendo. Nós estaríamos plenos de saúde. Olha essa mesa! Ou melhor, olhem as duas mesas que estão aqui nesta sala. Olhem o tanto de remédio que nos trazem saúde, bem-estar, bem viver. Isso vem de onde? Da nossa relação com a Mãe Terra, com a natureza. Mas o mundo caminha no sentido inverso disso.

Essas duas mesas aqui, simbolizando aqui um conjunto de remédios, oriundos dessa relação com a Mãe Terra, dizem muita coisa sobre o que deve ser corrigido, mudado e transformado nesse mundo. Depois, com certeza, Dona Dan, Leonarda, vão detalhar melhor isso e outras dimensões.
O que eu queria realmente trazer pra vocês nesse espaço, que eu acho que o detalhamento tem que ficar mesmo, é com quem tem o protagonismo quilombola, indígena, e tá aqui a Dona Dan e a Leonarda, legitimamente, para representar esse protagonismo. Então pensei que o que me cabia aqui seria ajudar um pouco a refletir sobre o que são esses saberes ancestrais, por que eles são importantes de serem refletidos e qual a conexão que eles trazem com a nossa existência.

Penso que quando a gente fala de saberes ancestrais, nós estamos falando de pertencimento, da possibilidade de entendermos de onde viemos, o que nos constitui culturalmente, politicamente, espiritualmente, de como enxergamos o nosso seio e nosso estar no mundo e de como podemos, a partir de toda a compreensão, isso tudo que acabei de falar, é construir permanentemente a nossa existência sem esquecer dos que vieram antes de nós. É para isso que serve a ancestralidade, para a gente saber de onde veio e poder trilhar o caminho para onde a gente vai.
CACICA DAN: Primeiramente, nós vamos fazer a nossa missão, o canto da nossa cultura. A gente veio com a missão de batizar esse chão com esse povo. Aí eles permitem, a gente tem três Toré pra cantar, todos nós juntos. Quem deu esse nó não soube dar, porque deram nó no Brasil e não souberam dar, porque nós estamos ainda com esse nó. Outro, que nós também vamos cantar, é um que quebra a cabeça, espalha-se mente, bota língua de quem fala mal da gente. O ponto que a gente vai cantar é a chegada da gente aqui pra que dá a sabedoria e o conhecimento pra vocês, vocês conhecerem a nossa etnia que é a chegada dos Akroá Gamela. São três cantos que a gente fecha essa corrente, porque se eu vim falar pra vocês, e não cantar, a corrente continua aberta. O que é que eu vim fazer aqui? Vocês precisam ser batizados. É por isso que a gente vai se levantar todo mundo. Ela é uma roda, a gente sai rodando aqui.

Sem a natureza não tem vida. E nós continuamos. Nós somos a maior mãe do mundo. É a rede dos povos indígenas desse Brasil. Porque essa terra, o Brasil, a maior parte deles são indígenas. E aí não é reconhecido. Muitos indígenas se passaram com violências, mortos e tudo. Para isso, ele deixa o seu povo sagrado para levantar a sua bandeira, que é os seus jovens fazem. Olha, eu perdi as nossas terras, o nosso povo. Eu tive que nascer em 1968. Em 1960 e 70 já continuava a luta, em 1957, nós já estamos indo embora.
Violência, o homem branco matando os indígenas, expulsando as suas terras para ir embora. Nasci em 1968. Hoje eu trouxe essa missão como a juventude, para que leva a resgatar nossas histórias e a nossa resistência, que não sai.
Quando foi em 1960, eles desmarcaram todos os seus territórios e colocaram na justiça. E aí, quando a gente veio dar conta, os encantados disseram, vou preparar o nome de Dan, que era uma juventude, para resgatar essas histórias, ter coragem nessas histórias.
Por isso que todos, Toré, toda a luta indígena retomada, a juventude está lá. A maior parte da juventude se encontra ainda dentro dos territórios, fora dos territórios, nas favelas é um grande racismo. Isso não quebra a corrente, ela não desata de uma vez. Porque o nó que deram no Brasil não era para desatar, porque os indígenas eram para ter o silêncio há muitos anos. Quando os indígenas desataram o nó, ele explodiu.
Eu sou indígena, mas eu não posso falar porque eu tenho medo de me matar.
A juventude está quebrando esse nó, porque a juventude está no Toré. As crianças estão na luta. Essa luta é difícil. Você conviver dentro de uma sala de aula, a juventude dessa chegar e dizer: “eu sou indígena”. Aí o filho do rico diz: “ai, ai, ai”. Fica mangando, fica mangando. E ele tem vergonha de dizer que é por causa do racismo.
É por isso que a gente está fazendo palestras nos territórios, palestras na cidade, estamos fazendo o Toré, a cultura que a gente não tinha, os espaços para a gente eram todos fechados. Quem diria um indígena que ele vem dar aula numa sala que nem essa. Quem diria? Por isso que eu falei pra vocês: as correntes estão quebrando.
E a gente continua, porque em 1970, a gente pedia socorro. A gente saiu de lá, das nossas aldeias, chorando. Tinha acho que 6, 7 anos de idade. Nós não levamos nada. O assassino, grileiro de terra, carregou o nosso arroz, os nossos animais.
Minha mãe saiu com o novo filho e uma porcazinha.
Andou 3 quilômetros para a aldeia do outro lado do rio. O indígena não tinha nada, nem roupa. Nós deitávamos no chão, numa esteira de buriti, uma cama de vara, um cobertor de algodão que minha mãe enfiava pra fazer uma só, pra dormir 5, 6 pessoas junto. Isso foi a luta que nós tivemos que conviver com os grileiros, com os estupradores, com o trabalho escravo, com o agronegócio, pelas nossas terras.
E eles só destruindo. Destruindo. Cadê a justiça?
Em 1995, ele tirou tudo o que tinha da área e nós fizemos uma retomada. Cada município estava com um carro cheio de polícia para matar os indígenas. De dentro das suas terras, que nós somos os donos. Aí teve o maior conflito, foi em 2001, a gente pediu a FUNAI reconhecimento do povo indígena que já existia.
O silêncio foi até hoje.
Quando foi agora em 2024, dia 30 de maio, A gente começou, porque nós temos uma área ainda, 300 hectares, e estava vindo uma grande empresa para destruir as nascentes e a nossa Mãe medicina. A gente ocupou – 35 mulheres – nessa área à noite, dentro do agronegócio. E até hoje a gente está lá, continuando, resistindo.
Nós estamos resistentes.
E aí a gente está junto com os invasores. Essa terra está para ser vendida pelo prefeito, os políticos. Ele fez uma grande BR e que a gente continua dentro dessas terras com os jovens, com as crianças. Já temos o fruto de lá, as crianças cantando Toré, chegou pequenininho. E eles foram curados com essa medicina, porque eles estavam desnutridos, morando em favela, como era que eles tinham como ficar?
E aí, a juventude hoje está levando já essa história ao Brasil, que existe a juventude indígena dentro dos territórios, ainda. E que também a gente tá lutando pelo colégio indígena, que é o nosso, o costume não é de andar de sapato, de andar com salto alto. O indígena andava descalço, era outra cultura. A gente teve que aprender uma linguagem indígena? Não. Uma linguagem do homem branco. Ou você aprendeu, ou você não ia sobreviver, que era o silêncio. A gente não podia falar. Não tem a história, não tem diferença na nossa história para os quilombolas.
Os quilombolas são as mesmas aldeias, a mesma luta, o mesmo povo, que a gente conheceu Bispo, que criou Mimbó. Bispo, ele era também trabalhador, trabalhou no movimento, no tempo do sindicato. É a luta dos indígenas. É a luta dos quilombolas. É defender o Brasil inteiro, a nossa, nosso povo, a nossa vida, que é a nossa terra. Eu quero saber que algum aí de vocês nessa sala de aula, tenha coragem de dizer, eu sou indígena. Não vou esconder, porque vocês estão prejudicando vocês mesmos. Eu não tenho vergonha. E vocês têm que reconhecer as histórias, quem você é.
Porque muitas vezes tem muito professor que dá depressão, tem muito aluno.
Porque ele não quer se declarar como indígena. E os encantados vão dizer: “você é indígena”. Ou você vai, ou não vai. Eles passam a máquina por dentro dessa história que é indígena.
Será que os 58 anos de idade, Deus me deu toda essa luta. Eu tenho 23 anos de movimento social como sindicalista indígena. É muitos dias. Você trabalhar, se doar pelo povo. Porque Deus me bota naquela missão de você trabalhar o social. Se eu hoje eu tenho 10 mil, 5 mil vai pro social. Fora os meus trabalhos, fora as nossas aprendizagens que damos para as pessoas.
Porque isso vem da Mãe Terra. Sem a terra nós não somos nada. E ela está gemendo, ela está pedindo socorro. Por isso que é a luta, qual é a maior mãe do mundo? São os indígenas. Porque ele só luta pela natureza. Ele só luta pelas pessoas, se solidarizam com o outro. Porque significa parente e parentes. Porque nós somos.
Se a gente vê um lá naquele canto lá, a gente vai saber o que que tá acontecendo. Pode ser Gamela, pode pode ser Cariri, pode ser Tabajara, pode ser Quilombolas, pode ser todos. Mas nós se sente como um povo só. E é isso que nós queremos.
Nesse território das Mangabeiras, não falta mais nada para pegar fogo. Porque o território que compõe 12 municípios já não tem mais nada. E eles estão chegando aqui perto de vocês que moram em Floriano. Chegado da cidade, seis quilômetros, só tem uma quantidade de 6.000, 7.000 hectares de terra com a área das plantas nativas dos cerrados. O bioma pra lá já acabou. Você anda 170 mil hectares de terra sem você ver um pé de árvore. É um deserto. Você morre de fome e de sede. E o Cerrado não era pra morrer de fome e de sede.
Porque tantas coisas que tem na Mãe Natureza, tantas frutas que a gente pode utilizar, tanto tucum… Você bebe água, você tá perdido. Isso não é fácil. E eu quero abrir a mente de cada uma das juventudes. Vamos lutar pela nossa Mãe Natureza. Vamos lutar pela nossa Terra. Olhe o tanto de anos.
O nosso povo existe.
Eles andam 50 quilômetros visitando uma aldeia a outra. Quanto sangue foi derramado do nosso povo indígena e quilombolas?
Esse sangue foi derramado!
Nossos parentes morreram defendendo nossas políticas, nossas mãos em terra. Esse marco temporal que vem aí, ele vem aí para tirar o direito dos povos indígenas. Por que nós estamos no agronegócio? Nós estamos barrando. Muitas coisas estão sendo barradas. Aí eles disseram: “vamos criar um marco temporal”. Nós estávamos em Brasília.
Eu e Rebeca, passamos 14 dias, passei em Brasília, correndo atrás do Ministério, do Senado, de todo lugar nós estávamos correndo atrás da questão do marco temporal. Agora já explodiu de novo, esbarraram para ir tirar o direito. Por que isso vai tomar?
Patrão e negócio vai tomar conta, já tomou um quarto do Brasil e está tomando o restante. E por isso, gente, vocês olhem e o futuro do Brasil está nas nossas mãos. Vamos lutar pela nossa Mãe Natureza, porque senão…
Amanhã nós não vamos ter nada na nossa vida, porque acabou.
Quantas mil pessoas você não vê por dia que morre de câncer? Aumentou. Eu falo assim, eu não tenho mais só como alimentação assim quando eu viajo. Na minha casa não tem muita coisa natural ainda. Porque esse agronegócio, ele traz tudo e você não espera. De primeiro jogar veneno no jato. Agora o veneno é jogado de avião. Ele cai em todos os lugares. Quando dá seis horas da manhã, ele já continua o avião tocando.
E aonde ele passa, ele mata tudo e mata até as pessoas. O pessoal tá bonzinho, caiu e morreu, ele e o fulano morreram. O pessoal não adora mais as crianças, as juventudes. É só dentro do pronto, dentro do agronegócio. E por isso que nós vamos combater.
Por isso que hoje as universidades federais estão trazendo o povo indígena, o povo quilombola, os historiadores, pra contar pra vocês como é que tá o Brasil, como é que tá o mundo. Pra isso nós queremos que vocês aprendam, porque isso vai cair na boca de vocês, vai cair na casa de vocês.
Eu botei o dedo na cara do senador, dizendo que Piauí não tinha água intoxicada de veneno. Eu disse: “o último rio, senador, foi intoxicado de veneno”. Ele disse: “eu mandei fazer a análise”. Eu disse: “não, você não fez análise de nada. Quantas mil pessoas não estão com câncer em Piauí?” Só o câncer, aqueles que caíram e morreram na hora. Como eu perdi meu irmão de repente, caiu e morreu na hora. Isso tudo é o ar que nós estamos respirando, é o agronegócio.
E que vocês estão respirando longe, mas vocês, aqui em Floriano vão respirar mais próximo. É um veneno perigoso. E hoje, essas plantas que vocês estão vendo aqui, elas já estão em extinção, não tem mais.
Porque aquelas massas [medicação] que eles têm, não curam mais ninguém. Só faz sará. Sara ali por um dia, explode pelo outro. Quantas vezes você já não viu alguém ter um câncer? Quando não tem raiz, ele não explode. Quantas mulheres que tinham ovário bem, que hoje tem mulher que não tem mais ovários. Tem homem novo que está com a doença de próstata. Tem pessoas novas que já nascem com o sangue envenenado. Muitas pessoas com deficiência. Por isso, a juventude tem que manter com essa sabedoria.
A gente está contribuindo com vocês essa sabedoria e também os quilombolas estão nessa mesma luta para que isso aconteça diferente, para que vocês aprendam outras nossas linguagens, não a linguagem do agronegócio que chega na pratileira no dia a dia.
Quantas pessoas não nascem com a lei e continuam o agronegócio. A luta da gente vem há muitos anos. E quando, professora [Danielle], a gente tá no Toré, a primeira coisa que a gente leva de casa são nossos jovens. Se nós não prepararmos a sabedoria do povo brasileiro, a gente vai embora e continua o Brasil dividido.
O indígena, o homem branco, os quilombolas. Porque nossa rede social é uma só. Ela não é duas, é só uma. Quando se levanta a luta pela terra, a luta pela saúde, A luta pela justiça, ela é uma só. É um objetivo que a gente tem. E vocês têm que ver nossas histórias. Como nós éramos, como nós estamos hoje. E quantos indígenas foram assassinados e também que não voltam… O pessoal do terreiro também que foram. Eles são o pessoal também, pescadores, as mulheres da floresta e tudo.
Ninguém ouviu falar nas mulheres da floresta, nas mulheres indígenas. Você se deparava com tantos territórios de perda de pessoas lutando para salvar a vida do Brasil. O agronegócio está tomando conta. Eles não querem nada que seja bom pra nós.
Só querem que seja bom pra eles. Eles só querem jogar veneno, plantar soja e sair do Brasil. Eles querem tomar as terras dos povos indígenas. Você vê uma pessoa chorando, saindo das suas terras, que é onde nasceu e se criou, para ir para um lugar com uma favela dentro da cidade. E se não ir para a droga, se não vai aprender alguma coisa e tudo. E por isso, nós estamos aqui dizendo para esses jovens, vamos defender o social.
Vocês se formem, mas vai para a rede social, vamos defender a Mãe Natureza, vamos defender o povo mais pobre, mais humilde. Nós temos que defender eles na nossa luta. Vamos defender essa grande farmácia aí, como o professor [Gisvaldo] falou. Aí tem muita saúde. Muita saúde. Se nós não fizermos isso, nós não vamos em lugar nenhum. O médico não sabe mais que doença que está dando no povo, não.
Vou deixar aí para os alunos. E só quero deixar mesmo para cada um desses alunos que aprendem, não vão pro caminho do agronegócio, não vão ganhar bem. Vai ganhar aquilo que Deus nos prometeu, que na hora que você levanta uma bandeira social, uma bandeira pela natureza, você tá ganhando já isso bastante bem, porque você tem uma saúde saudável.
Você vai ter que ser solidário com cada um e cada uma. Porque aqui não tem nenhum diferente do outro. Todos somos aluno e professor. Qual é a diferença? Eu acho que não tem. Isso é usar a igualdade e tirar o racismo de um para o outro. Nós vamos continuar sem racismo, ajudar aquele que está com mais precisão, se aconselhar com alguém.
Se nós vermos as nossas pessoas dizerem, porque eu vejo muitos alunos que se informam: “ah, eu vou para o agronegócio, o dinheiro lá é melhor”. É não, você está se matando nas suas próprias mãos. E também dizer para vocês, que aquela medicina ali, ali tem para todas as doenças. Cura, são remédios tradicionais, não impede você de beber o comprimento que você está tomando. Pode tomar, não tem como intoxicar. Tem a rapadura do pequi, nós temos o xarope, nós temos também o maxixe, que ele serve como medicamento. Para isso que nós tomamos isso aí, nós vamos ter mais um dia de vida. E toda doença que a gente tem, ele vai curar. Ele vai curar. E tem muito remédio para anemia. O nosso companheiro ali também, ele fez um exame. Ele tem alto grau de anemia. Ele ali, olha. Porque muitas vezes a doença, ela vem para o nosso corpo. Só que nós não sabemos. Porque você não tem o poder de dizer que você está doente, parente.
Mas a gente que vê, a gente sabe. Aí eu vou lá para o médico. Eu gasto milhões e milhões. E não fico boa. Por quê? Porque o remédio é paliativo. Ele é uma massa. Só vai adoecer mais. É por isso que nós temos que brigar pela Mãe Natureza. Entendeu? Eu estou aqui disponível com algumas perguntas para nós.
ARISTIDES: Eu queria te ouvir em relação à campanha exaustiva que a mídia faz, colocando o agronegócio como uma “coisa boa”. “O agro é bom e o agro é bom”. A gente já tá colocando essa ideia de que o agronegócio veio pra “resolver”, que tem pra todo mundo, tem banana pra todo mundo e feijão pra todo mundo e colocar a imagem do latifundiário como uma pessoa generosa. Aí faz aquela imagem dele caminhando pela sua vasta terra, passando delicadamente as mãos nas plantas, e depois come num restaurante, as pessoas alegres comendo aquela fruta… Como é que você encara esse peso desproporcional que a mídia dá para criar essa narrativa de que o agronegócio é a “solução”?
CACICA DAN: Olha, o que nós estamos encarando é combatendo, é fazendo campanha. Que nós estamos aqui, o que eu tô falando, o agronegócio só traz prejuízo. Por que isso? Nós estamos dizendo pra vocês o que o agronegócio carrega. Desmatamento, intoxicação das pessoas, das águas, mata nossas terras. Vai nas nossas terras, o grileiro, tira a vida do social, dá muito veneno na comida, o que vem. E aquele produto deles carrega tudo pra fora. Quem mora no Cerrado, quem mora dentro do agronegócio, nós temos 18 territórios dentro dos agronegócios. Você vê, cada fazenda, eles não tem vergonha do que jogam no avião. Se você passar na pista, você é banhado. Dos piores venenos que geram câncer, que gera tudo na vida, morte, tudo gera. É isso que vê um resultado do agronegócio. Como nós estamos combatendo a mentira, no agronegócio tá toda prostituição do mundo.

ira a vida do nosso povo. Ou você sai da terra, ou lhe mata. Tem um homem lá dentro do território. Tem sete vidas. Foram lá sete vezes pra matar ele e não achou. Ele escondido dentro do chão. Se arrancou de noite e de noite mesmo ele fugiu pra Brasília. Aí botaram o nome do homem. Sete vidas. Agronegócio só traz grilagem de terra. É uma campanha do governo do Estado.
Nós estamos combatendo o agronegócio tapa a tapa e fazendo reunião e fazendo conhecimento. O que o agronegócio está trazendo? Mostrando para vocês. Nada de bom. Até Constituição eles trazem. Trabalho escravo, a doença, de tudo o agronegócio traz. Ali tudo é campanha falsa, que nada que ele diz constrói. Se você quiser ver, vá no Cerrado, vai conhecer os territórios. O indígena não se maldiz, porque o indígena nasceu pobre e continuam naquela força indígena.
E nós agora estamos morrendo de fome, porque as caças não tem mais.
Nós sobrevivemos das caças, não tem mais as caças, não tem mais o nosso medicamento, não tem mais as nossas frutas tradicionais, como vocês estão vendo aqui, a rapadura de pequi. O pequi, ele é medicinais, cura o câncer, a diabetes. Tudo o que vocês veem aqui são alimentos que o indígena comia. O alimento que nós, os homens, quando tínhamos suas terras, tínhamos riqueza.
Hoje nós não temos riqueza.
Nós desatamos o nó, mas o agronegócio continua, tendo as grandes forças dentro do Congresso Nacional. Porém, eles criaram o Marco Temporal há muito tempo, e nós sempre combatendo o Marco Temporal. E lá, cada vez que vai, o sangue vai ser derramado. Quanto sangue não foi derramado no meio daquela pista? Quem levou nós pra lá? Foi o agronegócio. Quem levou nós pro meio da chuva? Foi o agronegócio. Aquilo ali é propaganda falsa. Nós estamos combatendo assim: dando conhecimento para as pessoas. Porque isso aqui é o que me segura da bala, no acidente, me segura do mal olhar, me segura de coisas mandadas.
A nossa profissão continua vindo da nossa tradição, da nossa cultura. Por exemplo, eu sou trabalhadora rural. Hoje eu sou professora do meu povo saber, pela aprendizagem. A minha profissão é rural, é a roça. Toda a nossa cultura vem da roça. A gente nunca deixou a cultura. É isso que a gente convive, a nossa família. Outros tiveram, tem outras profissões, mas a maior parte do nosso povo é a tradição do alimento orgânico, é rural. Nós colocamos o alimento na mesa de muitas pessoas. Nós continuamos a profissão de rural, porque o nosso povo era rural.
LEONARDA: Lá no quilombo que a gente vem lutando para não deixar desistir, não deixar acabar. Tem o pagode, que vem passando de geração a outra geração. A gente tem o pagode adulto, tem o pagode de adolescente, temos o pagode mirim, que é trabalhado na escola. A gente faz apresentações em vários lugares. Temos também o terreiro, que é a umbanda, que tem também o preconceito. Muita gente sofre muito com isso em relação aos terreiros, aos corpos dos terreiros. Mas, mesmo assim, a gente vem conversando, incentivando, orientando os jovens e até mesmo as crianças, explicando sobre essa ancestralidade espiritual para eles pra que não acabe, porque isso também veio da origem que me envolve, não é algo que chegou lá agora. E tem o hip hop também, que é antigo, e a gente também não deixa morrer, não deixa acabar. E questão de artesanato também, horta comunitária, isso a gente vem na luta pra que não se acabe. A história da comunidade, a gente vem passando sempre de geração pra geração.
Então, eu só quero mesmo agradecer mais uma vez pela possibilidade da conversa e pedir a vocês que possam voltar os olhares de vocês para essa discussão, principalmente para a defesa das territorialidades indígenas e quilombolas. Porque cada vez que a gente faz isso, a gente está defendendo a história de cada um de todos nós. Falou-se tanto que são culturas invisibilizadas, silenciadas, sempre mesmo diz que um dia desse a gente não podia nem falar sobre isso, que os indígenas não podiam dizer que eram indígenas, e aí a gente vem cobrando que o Estado reconheça esses povos, mas e a gente? É o que a gente pode fazer. Essa perspectiva mesmo, professora Danielle, que a gente possa participar desse processo de discussão, de entendimento, de defesa das territórios indígenas e quilombolas, entendendo que esse processo é um processo de defesa da história de todos nós.
GISVALDO: Acho que, para além disso, pensar as territorialidades indígenas e quilombolas é construir um novo imaginário sobre a história brasileira. É importante que a gente tenha atenção para uma coisa, que participar dessa luta não pode ser substituir os povos indígenas e quilombolas de seu protagonismo. Isso também é uma coisa importantíssima.
A história dos povos indígenas e quilombolas é deles. Eles têm que ser os protagonistas dessa história. Nós podemos e devemos ser apoiadores, aliados nessa luta. O pedido é que vocês possam destinar cada vez mais os olhares de vocês para essa dimensão das ideias, da realidade religiosa e filosófica, que é isso que nos constitui. Obrigado.
CACICA DAN: Eu queria só refletir, assim, a história dos povos originários indígenas do Brasil, mesmo assim do Piauí, que quando eu estou na bancada, em Brasília, no Ministério, todos os Estados têm um grande avanço dessa apropriação das terras, têm um grande avanço das políticas públicas para indígenas, para quilombolas, para o pessoal dos terreiros, todas. No Piauí, o governador, o ex-governador manipulou muito nossos direitos, a nossa história. Não quis reconhecer a nossa história no Brasil. O governador está forçado pela garganta que a gente continua no Senado, continua em todos os ministérios pedindo as políticas para os indígenas. Porque o governo do Piauí sempre ele isolou. Porque do dia que foi pedido, olha… de 2001 pra cá tem muito chão. E as histórias eram enterradas. Por que isso, gente?!
É porque o Sul do Estado, região Norte, muita terra indígena sem documentos, e que ela foi vendida para o grande agronegócio. Ele não queria ferir a ninguém. Sei que foi esse que emitia o título das terras para eles, enquanto as terras nossas de 1960, nós já éramos donos dessas terras. Por que ele nunca soltou à política que ele era indígena? Como é que nós somos indígenas, vocês são professor, no que é que a história de vocês sai? Ele deu esse novo, por causa do agronegócio, que ia, pra desapropriar essas terras, ia mexer com os grandes fazendeiros que roubou as nossas terras na grilagem do tempo. Por isso que eu quero deixar esse recado para vocês, que eles estão se levantando, é com a nossa luta, é com a nossa força, é 24 horas.
No conflito, desde outros territórios, já pelo menos no Sul do Estado do Piauí, vivem conflitos, em bala, em cacete, em fogo, isso vive, porque é onde está implantado o grande agronegócio. Esse agronegócio não está levando resultado nada para o Piauí, porque uma Bunge daquela não paga imposto para lugar nenhum. A saúde é péssima, a educação é péssima, a estrada é péssima, não tem terra, não tem alimentação. E o que nós estamos fazendo?
Essa bandeira está levantada, professor, porque nós, os encantados estão conosco, e nós estamos levantando juntamente com vocês, porque a Universidade do Piauí, ela é conveniada juntamente com o Conselho. Eles também representam os povos indígenas do Estado de Piauí. Aí eu estava levantando as parcerias junto. Pelo governo do Estado, felizmente não tem. Você só vê ele na televisão, dentro das grandes fazendas. Mas você não vê ele dentro de uma aldeia, amostrando o povo original do Piauí. Você não vê. Você só vê ele de avião aonde ele era condenado. E quem levantou eles foi o povo, o movimento social que levantou a bandeira. Foi os pobres.
Eles têm que parar e olhar para a cidade e olhar para os povos da tradição, os indígenas, os quilombolas, os povos tradicionais, que eles também não estão olhando para isso. E ele está andando de avião, você só vê ele lá na retomada, só tem uma distância, não dá um quilômetro para a retomada, onde nós vivemos sem água, Nós vivemos sem casa, nós vivemos sem nada, só com os encantados de Deus e a nossa resistência que não sai de lá. Ele nunca desceu na aldeia. Aonde era veneno? Aonde nós estamos lá? Aonde tem esse medicamento? Aonde nós estamos respirando com o ar, com as nascentes das serras? Aonde tem os olhos d’água que minam? Que hoje está lá ainda porque nós não deixamos destruir. Nada. Você vê as políticas indígenas, nada.
E a bancada nacional, nós tivemos uma pessoa, Piauí e Maranhão, ficam as duas cadeirinhas fora da bancada, porque não tem presença. E eu lhe digo isso, e vou dizer lá no Conselho que eles tinham que respeitar nós também. A Força Nacional das Mulheres Indígenas lá do Ministério. Ficou Piauí e Maranhão, do jeito que vocês estão aí. Vocês falaram. Nós falamos.
E lá a bancada toda foi falada. Só ficou Piauí e Maranhão. Que não teve voz. Porque o nosso Estado, nosso governo, nossos ministros, eles não têm voz lá dentro, das políticas públicas indígenas. E temos que acabar com isso.
Hoje eu represento o Conselho. Eu tenho essa bancada lá, mas lá eu quero porque lá tem vindo algumas políticas pra cá, e eu estou puxando de lá pra cá. O governo não tem interesse, quem nós vota não tem interesse. Só tem interesse na destruição. O bendito território das Mangabeiras, que é o maior devorador da natureza, foi criado por agronegócio. Olha o território das Mangabeiras para você ver. Não tem um pedaço de terra mais, está tudo no vermelho. Tudo no vermelho. Eu disse lá na bancada.
Acabou com as matas ciliares e as nascentes e o povo. Lá não tem. Tá tudo vermelho. E agora, na região de Piripiri vai desmatar 700 hectares de terra do Cerrado, onde é a mata, plantas medicinais, onde cura o pessoal de Piripiri. Cadê as nossas plantas do Cerrado?
Já acabou, já estão extinçando. Tá a viver mesmo de quê? Porque ninguém tem condição de pagar remédio. Porque na rede do SUS eu não tenho remédio. A política do governo está muito fraca para essa bandeira de luta da Mãe Natureza. A política dele é só a destruição do agronegócio. Tudo falso.
Queremos também agradecer a cada um de vocês que estão nos ouvindo agora. Quero deixar um abraço para cada um de vocês. Muita saúde, muita paz, os professores, muita união, muita força e muita coragem, que aí o Brasil vai para frente. Cada um de nós construir essa rede, é uma rede de construção. E nós estamos aí, qualquer hora de precisar, qualquer hora de visita nos nossos territórios, estamos lá pra receber. É, conhecer pra ver como que é a vida do território. Conhecer o trabalho que você faz lá na feira. Isso. Nós estamos abertos. É isso aí.
REBECA: Eu sou também artista visual e eu tinha feito no passado essa arte aqui da Cacica Dan e ela representa tudo aquilo que a gente já discutiu desde o início dessa palestra, que são dois projetos antagônicos de vida. Dois projetos antagônicos de modo de pensar a terra.
Um deles aqui do lado a gente tem o agronegócio, que é representado pela grilagem, pela queimada, pela devastação e pelo projeto colonial de destruição. E do outro lado a gente tem a representação viva e nítida do que seria o bem viver, do que seria uma terra sem margens e do que seria uma relação simbiótica entre ser humano e natureza, que é o que a Cacica Dan representa aqui, ao lado dessa terra, que é o Uruçuí Preto, que é o território Santo Antônio, território originário da Cacica.
Mas, antes de entrar nisso, vou falar pra vocês novamente, o Piauí hoje é reconhecido como terra indígena, a gente tem grandes lideranças, inclusive a gente tem um cacicado feminino muito potente, não somente a Cacica Dan, mas a gente tem Francisca Cariri lá no município de Queimada Nova. A gente tem também a dona Floracy, que também é Akroá Gamela lá do Sul do Estado, e entre outras lideranças que também compõem o território atual do Piauí.
E dentro desse processo, como falei pra vocês, não tem como a gente fazer uma pesquisa, principalmente quem pesquisa com comunidades tradicionais, sejam quilombolas, sejam indígenas, sem adentrar dentro da rede, sem vivenciar essas experiências com a comunidade. E aqui eu trouxe minha trajetória.
Pra quem não sabe, eu sou estudante do IFPI (Instituto Federal do Piauí), fiz o ensino médio no IFPI, e desde então tive contato com a temática indígena a partir do professor João Paulo, que era meu professor de História. E aos 16 anos eu comecei a pesquisar e a debruçar sobre a temática.
Aqui tem um pouco da minha trajetória, eu tinha assim mais ou menos a idade de vocês, vocês estão ainda no ensino médio acredito [na roda de conversa, também estavam presentes estudantes de gradução em História da Universidade Estadual do Piauí, integrantes do Programa de Iniciação a Docência – PIBID], e foi nesse contexto que eu tive e desenvolvi a paixão pela História, pela educação e posteriormente pela temática indígena.
E aqui está o grande ponto que a Cacica falou, é mostrar o que realmente o agronegócio é. É bala, é fogo e é morte, que é isso que é o projeto do agronegócio hoje. A gente tem a placa da Baixa Funda, que é o território que Cacica nasceu e se viveu, que é marcada por bala, furada por bala. A gente tem o correntão, que é uma prática devastadora, que consegue em questão de horas desmatar cerca de cinco campos de futebol em um dia. Então essa é a prática que hoje é legalizada pelo Congresso Nacional. Além disso, a gente tem o processo de desmatamento que anda lado a lado com o projeto de devastação do agronegócio. E aí a cacica falou que teve uma moça que achou uma flecha no território, que ela chamou de “diamante”, e que essa flecha na verdade é uma ponta de uma flecha.
CACICA DAN: Era a nossa espingarda de matar o peixe.
REBECA: Exatamente, era a arma usada para caçar do tempo do neolítico.
CACICA DAN: Aí ele ia pescar, matar veado, matava todas as caças, o nosso povo antigo. E nós continuamos ainda lá, porque nós não tínhamos arma. Porque a arma [de fogo] o indígena achava que era poluição. Jogar pólvora dentro do rio, riacho, jogar tiro para pegar fogo. Isso tudo era uma forma de conservação ambiental pela natureza. E hoje você acha o território devorado dessa forma.
REBECA: Então, é uma datação que antecede o período do Neolítico. Então, mostra a presença indígena muito antes do que a gente acha que, por exemplo, o Piauí. A gente sabe que o Piauí é um berço americano, mas não é somente a Serra da Capivara. A gente tem hoje outras referências de territórios que tem aí um marco histórico muito anterior, por exemplo.
A gente tem a luta atual, que é a retomada, iniciada em 2024. Criança, idoso, jovem, adolescente, todas as gerações juntas na luta não somente pelo território, mas pelo bioma do Cerrado. E aqui a gente tem mais uma vez tanto a violência policial, porque a cacica Dan falou da grilagem, mas um aparato que tá sempre junto com a grilagem é o Estado. E o Estado via quem? Via polícia. Então a gente tem um processo de tutela e de pacificação e violência dentro dos territórios indígenas que foi o que aconteceu ano passado.
E é isso. Muitíssimo obrigada, não tenho palavras para agradecer a presença de vocês.
Obrigada.
FOTO DE CAPA: Danielle Rego (UFPI/CTF), Cacica Dan (Akroá Gamela), Gisvaldo Oliveira (UESPI), Rebeca Lopes (UESPI), Leandra Carvalho (Quilombo Mimbó) e Aristides Oliveira (Revista Acrobata).



