João Wilker
Aí tinha Içá, que era malina. Desde curuminha índia Içá fazia toda peça que podia, com a mãe, os primos, irmãos, tios. Escondia cocares e desfazia nó de rede. Apagava fogueiras roubando os pedaços, e queimava capoeira com o que tinha. Aí vinham reclamar e Içá tinha sempre um pra botar a culpa. Era o Saci…
Por causa dessas e outras, foram afastando Içá da casa grande e a sua Oca ia sendo marginalizada. Foi, foi, que quando viram estava Içá na beira da floresta, na divisa com o Sertão brabo que escondia os segredos de Tomé e Dom Sebastião. Tinha macaco à beça, na beirada da floresta, porque eles gostavam de sair e pregar malícia nas gentes que passavam. Por isso, Içá, que aprendeu a caçar se fingindo de macaco também. Não reclamava da localização privilegiada. Às vezes botava a caça bem na divisa, e ficava de um lado na sombra da Barriguda, o outro secando carne de Sol.
Um dia, foi procurar o que comer e pegou vento. Não tinha macaco, nem fruta nem macaxeira boa de tratar. Não se tinha delivery ainda nesse tempo, então ficou matutando se ia mais pra perto da Oca grande aprontar uma. Foi quando ouviu um barulho de cangalha, vários cacarecos se batendo. Foi pra divisa e pôs um óculos de sol. Lá estava, um bando de gente à pé, levando bolsa, chapéu, arma, brilho, santinho, sacola… E dentro daquela sacola um mundo de macaco e fruta! Içá reconheceu logo que deveriam ter sido mortos a tiros, porque difere muito o odor quando a causa é bofete.
Os andadores foram se ajeitando e ela ficou olhando. Quando deu, tinha ido a maioria embora pra dentro do Sertão de novo fazer Deus-Sabe-Lá, mas tinham sido as ordens do caolhinho que usava um óculos. “Podia usar só o Óculo, e deixar o plural pra quem precisa” foi o pensamento de Içá. Deixaram um homem pra trás, da pele preta feito jabuticaba, guardando os pertences do grupo e a sacola de caça. Era Gato.
Ela ficou que ficou pra ter aquele de comer. Era só achar um jeito. Quando olhou pra dentro da floresta, olhou pro Sertão e pensou no que faria. Ela foi se achegando e ocorreu assim:
— Ô de fora? – Ela foi pondo a perna para fora da mata.
— Ô de mata. Diga.
— Quem é? – Saiu inteira.
— Me chame por Gato, que sou do grupo de Lampião, cangaceiro. E tu? Não se avexe não!
Que meto bala. – E puxou a carabina.
— Se acalme! Meu nome é Nonada.
— Nonata?
— Nonada! Agora, seu moço Gato, é que preciso de ajuda… Eu catei ali na mata uma onça, graúda, e do pelo escuro lindo, que não consigo despelar. Não tenho faca… O senhor empresta?
— Empresto não. E se tu não tem faca, como foi que pegou onça?
— Ela virou mãe e defunto no mesmo dia. Mas tá fresca. Se me ajuda a despelar eu fico com a carne só, e o pelo o senhor fica!
Gato assuntou da história. Nunca tinha visto filhote de onça, e o pelo daria um casaco que seria uma propaganda boa danada. Não podia perder a oportunidade do Marketing, ainda mais cangaceiro, que é rentinho com a moda.
— Pois vou. Mas tu vai na frente guiando.
— Mas não! Pode não, seu moço. Que andar com as costas desprotegidas, na mata, é certeza de cobra ou Mapinguari. Eu vou atrás, dando a direção, e o senhor na frente seguro. Aí pegamos a onça e trazemos!
Gato estranhou, mas era bom de seguir ordem e foi. Ele se aproximando, pegou faca e carabina, ainda a apontou na direção da Índia com vontade de lhe fazer medo, mas seguiu pra dentro da floresta junto de Içá, que ia atrás dizendo “pra frente, pra esquerda, pra direita, pra frente…”. Quando deu cumpoca ficou pra trás a índia e ele voltou só uma hora depois. Meia procurando a Onça e meia tentando se desencantar da floresta.
Quando Gato chegou de volta no acampamento, tinha retornado a expedição. Lampião olhou pra ele puto de raiva.
— Gato, tu deixou levarem as comida, Gato!
Sem saber como dizer, ele respondeu.
— Capitão, Nonada!
— Nada?! Num é nada? Ora, Gato! Lhe mostrar o Nada!
— Não, Capitão, Nonada que roubou as comida!
Mas já se tinha feito, o capitão era brabo. Tirou a Mauser e apontou na direção do homem.
Mandou que ele fosse correndo, que ia atirando atrás no pé dele pra ver ele dançar. Não contam assim, mas foi assim que Gato saiu do bando de Virgulino Ferreira.
Içá ficou que era uma pedra do outro lado, na sombra da Barriguda. Tratou os macacos e cortou as frutas de sobremesa. Passou o resto da tarde comendo e lendo Guimarães Rosa.
E tal foi.
