DJ Miliss: articulação sonora e produção cultural entre Timon e Teresina

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Entrevista realizada por Aristides Oliveira

Dj Miliss é uma mulher dedicada ao ativismo social e produção cultural. Atravessada pelas atividades de DJ e slammaster, ela atua em festas e ações culturais independentes. Além disso, organiza eventos focados na discotecagem, batalha de poesias e oficinas. Faz parte do coletivo Piranhão Sound, realizando atividades culturais direcionadas às periferias. Organizadora da Batalha da CT (Timon-MA), Milis é uma artista em movimento, sempre atenta a dar voz à cultura afro-indígena. Conversar com ela foi de grande aprendizado para compreender a amplitude da cena cultural que gira nas duas margens do Rio Parnaíba.

ARISTIDES: Eu queria começar sabendo um pouco dos teus primeiros contatos com a música. Não como DJ profissional, mas na vida mesmo.

MILENA: Basicamente foi em casa mesmo. Minha mãe gostava muito de cantar, principalmente dentro da igreja. Então desde cedo tive muito esse contato com a música, ensaios dela ensaiando e tudo mais. Porém, por conta de ser em relação à igreja, sempre tive um certo distanciamento. Nunca fui uma pessoa que estava dentro. Sempre ia quando era criança, porque meus pais me levavam, principalmente minha mãe.

Acho que minha influência musical vem do meu pai também, porque ele escutava muito rock nacional e acho que eu peguei isso pra mim. Na minha adolescência, já fui pesquisar outras vertentes do rock, porque era algo que era mais, digamos, perto de mim, assim por conta da influência do meu pai. Comecei a pesquisar bastante. Algo que sempre gostei foi de pesquisar.

Comecei a pesquisar sobre rock internacional, descobri Led Zeppelin nessa minha pesquisa, que até hoje é uma das minhas bandas preferidas, que eu gosto de escutar. Algo que quase ninguém sabe, que escuto rock.

Eu acho que foi a primeira banda e o primeiro choque de realidade de como a música pode influenciar sobre o seu autoconhecimento mesmo, sabe? E foi bem interessante porque isso moldou a minha personalidade de certa forma. Depois do rock veio o reggae. Eu consigo lembrar perfeitamente essa transição.

Depois que explorei bastante o rock, conheci várias bandas,  músicas e álbuns incríveis. Comecei a escutar bastante reggae, iniciando com Bob Marley. O reggae sempre foi familiar, mas era algo que tocava nas ruas de casa, não era tão próximo de dentro da família, sabe?

Mas quando comecei a descobrir o reggae de uma forma mais intensa foi realmente na adolescência. E aí surgiu outra paixão. Hoje sou mais reconhecida, inclusive, como DJ de reggae por aqui. E o reggae surgiu nessa busca por identidade tentando buscar realmente o que me enquadrasse ali, algo que acrescentasse mesmo na minha personalidade como pessoa. E acho que a adolescência foi muito isso, foi uma… uma grande pesquisa no meio da música.

Sempre fui aquela adolescente de ficar com fone de ouvido, de sair escutando música. Então, sempre escutar música foi algo que me tirava da realidade. “Estou muito estressada, vou escutar uma música, colocar um álbum”. Então, sempre foi um escape para mim em relação a várias coisas.

Um hobby também, de uma forma de eu descobrir outras coisas, porque sempre fui muito de pesquisar, e daí que vem a questão de trabalhar com isso. que aconteceu basicamente dentro da universidade.

Por eu ter uma pesquisa já bastante aflorada em relação a músicas, mesmo antes da universidade, quando existia uma festinha de amigos, a gente sempre fazia aquilo lá: “vamos fazer uma playlist para colocar as músicas” e eu era meio que a responsável por isso. Então, as pessoas sempre falaram assim, que tenho um pouco de feeling com a música e tudo mais. E dentro da universidade, quando entrei, que vi que tinha espaço para realmente crescer profissionalmente em relação à música, a trabalhar em relação a isso.

Basicamente não foi assim, trabalhar a primeira ideia, não foi trabalhar em relação a isso, mas foi realmente descobrir outra coisa que me brilhava os olhos, que era ser realmente aquela pessoa que coloca, que faz a vibe da festa, sabe? Que coloca as músicas, que as pessoas têm referência em relação a isso. Na universidade tive uma ajuda dos meus colegas pra me incentivar, porque nunca fui essa pessoa que chegava assim sozinha meio que nos lugares, né, por conta de… enfim, questão mesmo de, digamos, não ter tanta… como é que eu posso dizer? Digamos que… Não ter tanta… autoestima, assim, digamos, sabe?

Porque querendo ou não, na vida de uma mulher preta, ela sempre vai ser colocada em voga, em alguma questão, né? Então, pra mim, era muito ainda difícil.  Uma referência minha que tenho muito nesse período de quando entrei na universidade foi o DJ Dafro, que agora é um amigo meu, amigo mesmo, um DJ de Angola.

Na época que entrei na universidade era ele e outras pessoas que faziam as festas lá, que depois se transformou no Baile Afro Samurai. Então, eu tinha muito aquilo, ficava vendo ele brincar com os equipamentos e eu falei: “caralho, que massa”.

Sempre tive essa curiosidade. Ele foi uma das primeiras pessoas, realmente, que procurei para me ensinar. Então o Dafro é um grande amigo e um grande mestre para mim. Até hoje eu loto a caixa de mensagem aí: “vamos ensaiar, vamos ensaiar”. Porque sempre que eu encontro ele é um ensinamento novo, sabe?

Teve a fase da infância, que eu escutava o que os meus pais escutavam, principalmente o rock nacional, depois veio o rock internacional, o reggae, aí depois do reggae eu… expandiu assim. Comecei a escutar muito hip hop também. E pelo fato de meu formato de trabalhar é open, então eu não vou ser só DJ de reggae, vou ser DJ também de funk, de hip hop, sabe? Muita influência do Dafro, dos afrobeats, É uma mesclagem de coisas, dependendo da festa.

Porque tem festa que é só reggae, realmente, aí você tem que se adequar. Mas é essa mistura de ritmos.

ARISTIDES: Só pra situar a questão de data para o leitor(a) entender tua geração. Quando tu fala de infância, foi em que período?

MILENA: Foi no início dos anos 2000. No início ainda tinha vitrolas, minha mãe escutava em vitrolas, eu lembro que tinha até um… tipo um discozinho que colocava dentro de uma coisa única. Só cabia um disco dentro. Aí você escutava assim… Não vou lembrar, mas tinha uns dois lá em casa. Não sei o nome… que é tipo um toca disco, um toca CD.

ARISTIDES: É o micro-system.

MILENA: Escutei bastante nele, porque lá em casa eu tinha… CD, tal. Bem antes mesmo que eu lembro a questão do vinil, né? Aí depois logo foi pro CD mesmo, pro digital.

ARISTIDES: Quando tu foi pesquisar, foi uma coisa mais informal ou foi dentro da universidade?

MILENA: Foi mais informal mesmo, foi aprendendo principalmente sobre produção musical, fazendo cursos online. Antes da universidade, um pouquinho. Aprendi meio que autodidata. Na universidade tive coragem de realmente pegar, digamos, uma controladora e aprender como é, mas eu já tinha meio que o básico. Esqueci de citar que no início da minha adolescência, pré-adolescência, fiz curso de música no Centro de Artesanato.

ARISTIDES: Antes de entrar na universidade?

MILENA: Isso, bem antes. Sempre tive essa vontade de aprender música. Aprendi a tocar violão, inclusive era aula de violão e canto que eu fazia. Até com o professor Assis Bezerra. Fui aluna dele e tal. Um tempo assim que eu aprendi bastante, né?

ARISTIDES: E quando tu entrou na universidade?

MILENA: Em 2019. Faço Nutrição. A música é o que faz meu olho brilhar, digamos assim. Tipo, quero me formar, quero concluir essa etapa da minha vida, mas é isso, foi mais ou menos a escolha do curso, teve muitas questões aí, então assim… digamos, que eu não tive essa liberdade de escolher realmente o que eu queria, sabe? Venho de uma família que não tem muitos bens, enfim, e sempre escutei aquilo: “ah, estude, estude, estude”, entendeu? E querendo ou não, a gente sempre foca naquilo que acha que vai te dar um retorno maior, né? E na música eu nunca tive, assim, uma referência palpável dentro da minha família, dentro do meu ciclo, que realmente tinha dado certo até então, antes de entrar na universidade. Então pra mim era algo distante. Só as pessoas que bombavam que você pensava assim: “nossa, eu tenho que ter muita sorte”. É um entre um milhão.

ARISTIDES: E nesse caso tu se coloca como DJ, assume esse lugar como profissão. Como funciona na questão prática essa questão do reconhecimento financeiro? Dá pra ser DJ, pagar as contas? Existe um mercado na cidade que tem demanda pra isso?

MILENA: Infelizmente não. Inclusive ser DJ não é a minha principal fonte de renda, mas na cultura é, porque além de ser DJ sou produtora cultural. Ser DJ infelizmente na cidade não tem como a pessoa apenas sobreviver com isso. Não consigo e muitas pessoas que eu já conheço já falaram isso também. Pessoas que inclusive já tem suas outras profissões secundárias e tudo mais, falando grandes nomes da cidade, inclusive falando que pra ser DJ tem que amar muito aquilo mesmo, porque infelizmente a cidade não dá muito rendimento, não dá muito retorno. Isso acontece por várias questões, né?

Várias questões mesmo, mas ainda sendo uma mulher na cena, piora muito. Queria muito que eu chegasse pra ti e falasse: “olha, ser DJ paga todas as minhas contas, no final do mês eu ainda fico com dinheiro sobrando, mas infelizmente não é”. O meu público, inclusive, não é o público que é, digamos, gourmetizado, como tem certos nichos que são. São pessoas que tocam em eventos que são inacessíveis para a maioria de nós.

Quando a gente para pra perceber, são lugares que já tem uma bolha, sabe? Já tem ali as pessoas que estão naquele lugar. Não são lugares que são realmente acessíveis para outras pessoas. Principalmente se é uma pessoa negra, se é uma mulher.

ARISTIDES: Quando tu falou de, pelo fato de ser mulher, a situação piora, em que sentido tu quer dizer?

MILENA: Em vários, não só no sentido de eu acreditar que a remuneração diminui, porque já fui contratada para tocar nos mesmos eventos que amigos meus, DJs, homens, tocaram e eles ganham, tipo, o dobro, o triplo, sabe? Isso é só um exemplo. Também tem a questão do assédio com as pessoas que trabalham, que estão trabalhando e fazendo o mesmo que você, sabe? E tem a questão também de eles menosprezarem você por ser mulher: “Ah, não, é ela, não sei o que, é fraquinha” Menosprezam mesmo. Já escutei isso de algumas pessoas. Eu acho que o mais difícil mesmo, além disso tudo, nada disso é fácil, mas é essa falta de reconhecimente, porque se não fosse algo que eu realmente gostasse, já tinha parado de fazer há um tempo. Só que é algo que eu gosto de fazer, mas tem todos esses empecilhos, infelizmente, que eu acredito que por ser mulher é bem mais evidenciado.

ARISTIDES: Me fala desse teu lado de produtora cultural. O que é que tu anda fazendo?

Eu produzo slam na cidade, tanto aqui em Teresina (PI) quanto em Timon (MA). Atualmente tô morando em Timon. Eu sou de Terezsna, mas moro lá faz algum tempo. E além disso, também sou agente territorial de cultura pelo MINC, que é o Ministério da Cultura. Faço cursos e ganho também ajuda de custo pra fazer as atividades. E também como bolsa de estudo, porque realmente eu tô fazendo um curso de formação como agente territorial de cultura pelo MINC.

Produzo principalmente para juventude. Quando eu escrevi meu projeto pra concorrer, ele é basicamente relacionado à juventude negra e periférica, então isso entra na questão do slam, que é batalha de poesias, batalha de rimas, principalmente em Timon, que eu estou ajudando e estou na organização da Batalha da CT, que é uma batalha que acontece  há alguns anos. Só que estava parade. E aí, há um tempo, eu não lembro até desde quando que estava parada, mas aí a gente voltou esse ano com as batalhas, que acontecem quinzenalmente. Fora isso, temos as  festas.

Produzo festas como o Piranhão Sound, que foi até uma festa que idealizei junto com o Dafro e a DJ Sativa. A gente chegou nessa ideia de produzir festas porque justamente conversando com o Dafro, que pra mim o Dafro é uma referência máxima aqui de Teresinha, sabe? Ainda bem que ele é meu amigo, mas o cara é muito bom. E até pra ele, acho que por ser um cara preto, não é tão fácil assim. Tanto é que ele não vive só de ser DJ. E ele é um cara foda mesmo, um cara que eu olho e falo: “nossa, eu quero chegar nesse nível”.

E aí, conversando com ele, a Sativa, que também é uma mulher negra, a gente teve esse entendimento que pra gente não é tão mais fácil quanto para as pessoas mais brancas. E aí sempre sendo as pessoas que são chamadas ali pra festas, por exemplo, o Dafro falou pra mim uma vez que chamam ele muito pra festas quando tá acontecendo uma festa grande, pra ser uma festa secundária.

Aí chamam ele porque sabe que a galera vai, entendeu, pra ser um embate entre essas duas festas. Como se tivesse uma festa grande na cidade tal dia.

ARISTIDES: Ah, um outro evento…

MILENA: Isso, e aí chamam ele pra outro evento pra chamar a galera, porque ele tem nome na cidade, né? Enfim, e aí ele chama esse público pra não ficar desfalcado aquela outra festa que vai acontecer, que é a festa que ele vai tocar. Ele chegou até pra falar pra mim um dia sobre isso.

E isso é muito paia, porque ele é um artista brilhante. Você vê pessoas que são bem mais medíocres, assim, em relação à palavra “mediocre”, mas não tô… Como é que se diz? Não tô dizendo que… São pessoas ruins, sabe? Mas comparado a ele, sim. E tem muito mais espaço. E pelo simples fato de serem brancos, pessoas brancas que já tem ali um grupinho, que já conhecem certas pessoas que, de certa forma, movem, sim, a cultura teresinense. Mas que, por já ter ali a bolha deles, eles não querem sair. Porque é mais difícil, é desconfortante, enfim.

Então, basicamente, o Piranhão Sound, que foi a festa que a gente começou a produzir, que inclusive a gente quer lançar mais edições esse ano, veio nesse sentido da gente só convidar mais artistas negros para tocar. Focar nisso, porque realmente existe essa lacuna em Teresina. A gente vê isso, a gente sente isso. Como no nosso dia a dia é muito mais forte, então a gente realmente percebe. São coisas que a gente não passa batido.

ARISTIDES: E como é o Piranhão Sound? Acontece onde?

MILENA: É itinerante. Não tem um lugar fixo. O último aconteceu lá no Cultura na Faixa. Foi muito bom. Nos próximos a gente vai focar muito na divulgação. E a ideia da festa, da forma que surgiu, acho que enriquece ainda mais o sentido dela. E de estar ao lado de pessoas que eu admiro, o corre que admiro. E sabe, é muito bom mesmo.

ARISTIDES: E a natureza do evento? Toca geralmente o que?

MILENA: Tudo. Basicamente a gente deixa o convidado definer. Tipo assim, tem os residentes que sou eu, a Ana, a Sativa e o Dafro. Então assim… Juntando nós três já tem uma gama de coisas. A Ana toca hip hop, funk, o Dafro também toca funk, mas toca muito afrobeat, amapiano, então já dá uma diferenciada ali na festa.

ARISTIDES: Não conheço amapiano.

MILENA: É um ritmo africano. Ele que me apresentou, inclusive. É muito bom. Bem dançante. Muito bom. E aí eu venho muito com essa pegada também. Aí entra reggae, entra funk. Então a gente vai sentindo realmente o que a pessoa quer escutar. Por exemplo, se tô tocando aqui um reggae, já tá na terceira música de reggae. E aí eu vejo a pista cair um pouquinho, aí vou lá e coloco um funk, que o funk sempre chama a galera. Aí nisso vai, né? A gente vai vendo mesmo. Então é bem aberto.

Uma coisa que a gente falou é pra dar espaço também às coisas que são produzidas aqui no Piauí e no Maranhão. Então entra também, por exemplo, beats autorais que eu também produzo, sou produtora musical. Alguns beats coloco lá no meio da coisa.

Coloco músicas de referências aqui do Piauí, do Maranhão, do reggae, do hip hop, enfim. Então sempre tem um pouquinho daqui. Tendo também uma coisa bem ampla. A gente não toca só uma coisa.

ARISTIDES: Tu falou uma coisa lá atrás que eu quero puxar de volta… achei interessante. Eu percebi isso como espectador. Eu moro em Floriano (PI), vivo indo e voltando, né? E eu já fui para algumas festas de reggae lá e, como em vários lugares, o reggae é estigmatizado: “maconheiro, negro, bandido, assaltante”, “tu vai? “tem coragem”? E foi um dos lugares mais tranquilos que eu frequentei. Sempre quando eu posso vou e não vi absolutamente nada dessa questão que colocam. De fato é periférico, mas existe o estigma, né?

MILENA: Sim, com certeza.

ARISTIDES: E aí tu colocou a questão dos eventos aqui terem espaços gourmetizados. Como é que tu percebe (morando em Timon e vindo pra Teresina) essa leitura dos lugares periféricos e marginalizados para ouvir o reggae, que é um ritmo que ainda sofre um preconceito muito grande? Como é que tu vê essa disparidade de espaços, pessoas… Como é que tu analisa isso?

MILENA: Caraca, é muito diferente, muito diferente mesmo. Principalmente quando eu toco reggae em Timon. Lá não existe o lugar gourmetizado pra você escutar reggae, entendeu? Os bailes que eu vou em Timon… as vestimentas das pessoas você realmente percebe que são periféricas de fato. Acho que existem várias questões que hoje eu evito mais ir nesses rolês de reggae em Timon.

Teve um dia que fui super desrespeitada por um dos DJs da casa que eu fui convidada, justamente por aquela questão do velho machismo. Porque lá é muito mais difícil ter uma DJ mulher. Aqui em Teresina você ainda vê uma, duas ali. É difícil, é. Em Timon é quase impossível.

Quando eu cheguei foi bem difícil. E por eu ser uma mulher jovem eles pensam assim que… Pode fazer o que quiser, falar o que quiser, e não é bem assim, né? Isso foi muito ruim, porque queria muito continuar frequentando esses espaços, porque eram os espaços que frequentava até uns anos atrás, pra conseguir escutar um reggae. Que… enfim, não vou falar aqui nomes, mas realmente eram lugares que eu frequentava. Mas isso fez em mim crescer uma angústia tão grande, que até evito hoje em dia. Quando recebo convite eu vejo bem qual é o lugar, vejo quais são as pessoas que são responsáveis por aquele lugar, principalmente. Isso pra mim hoje é algo que não é negociável.

Inclusive eu participei também de uma associação de regueiros lá de Timon. Uma associação que nasceu há pouco tempo e eu também não me senti tão bem. Por ter a grande maioria homens. Tipo assim, de 30 DJs só tinha eu e a DJ Jacy Caldas de mulher.

ARISTIDES: Ela é de Timon?

MILENA: Sim. É uma DJ digital de Timon. É uma referência minha também como DJ feminina. Ela tem a mesma questão minha. Hoje ela toca mais nos bailes de Teresina do que de Timon.

ARISTIDES: Então, em Teresina a recepção por DJs mulheres é maior?

MILENA: É mais fácil, digamos assim. Principalmente em relação aos contratantes mesmo. Porque de forma alguma eu fui desrespeitada por conta de uma pessoa que estava na pista dançando. Foi uma pessoa que estava do meu lado, que tinha me contratado para eu estar lá.

Então assim, foi o que me deixou mais desconfortável ainda. Então assim, poxa, isso aí não é algo que eu vou negociar, porque você realmente não tem como controle, digamos assim, de quem tá na pista e fala alguma coisa babaca. Você não tem controle disso, porque as pessoas… É… o público é muito vulnerável. E aí por conta disso mesmo e por conhecer a maioria das pessoas que fazem um reggae lá eu decidi dar um tempo, pelo menos porque assim a maioria das vezes eu ia sozinha.

Me sentia super vulnerável, querendo ou não, porque estava nas periferias e muitas vezes não era a periferia que eu morava, era outra periferia. Então já tinha aquela questão de eu ser mulher, de eu estar sozinha na noite, de estar trabalhando com aquilo, sabe? Dei uma segurada nisso. Infelizmente, porque aí já diminui muito a minha questão de estar tocando, de estar ganhando mais dinheiro com isso, mas… Infelizmente, foi isso.

ARISTIDES: E em Teresina, geralmente, tu tá tocando aonde? Quais são os lugares que mais tem evento, assim, para o(a) leitor(a) saber?

MILENA: Tem no Reggaezinho Downtown, né? Tem reggae toda sexta, que é o queridinho do Centro de Teresina, perto pra maioria das pessoas. Acho bastante acessível. Tem entrada, né? Mas eu acho justo. Tem o DubBar, que fica no Dirceu. O DubBar agora é um bar aberto, não precisa você pagar, mas toda sexta também tem reggae. Além do DubBar, tem o Bar do Riba, que fica lá no Satélite, que é muito conhecido também. Bar do Riba é muito bom, o espaço é aconchegante e super seguro.

Todos esses lugares são super seguros, então você não vai assim: “ah, eu vou… vou com medo de sofrer alguma coisa no baile de reggae”. Isso aí é preconceito, né? Porque esses lugares já são referências mesmo há anos que eles estão aí. Tem o bar da Resistência Negra, que fica lá no Bela Vista, que é um espaço incrível, super aconchegante. O Renê, que é o dono do bar, é meu amigo, super gente boa, super acolhedor.

ARISTIDES: E é interessante porque tu falou dos bairros que quebram aquela lógica engessada dos eventos serem “apenas” na Zona Leste.

MILENA: Isso.

ARISTIDES: “Diversão só na Zona Leste”, mas tu falou em Bela Vista, Satélite, Dirceu. Foge completamente desse mapa dos eventos gourmetizados da Zona Leste.

Tem até uma discussão que tá rolando, que eu vi numa matéria recente, sobre o Bar Javas. Tem algumas pessoas que tão comentando que seria a gourmetização do Centro. Até um colega meu falou: “será que essa galera que vai pro Javas frequentaria o Café Art Bar?”  O Centro, que hoje é um lugar totalmente desertificado, ganhando esse status “cult”.

Ah sim, queria saber se tu trabalha com vinil ou apenas com controladora?

MILENA: É só controladora por enquanto, porque o vinil é muito caro. Ainda é muito inacessível. O aparelho, né? São muito caros. Então, realmente, para mim, eu acho muito lindo. É um sonho, mas só quando eu tiver realmente condições de manter.

ARISTIDES: E como foi esse aprendizado com a controladora? Foi com o Darfro?

MILENA: Sim.

ARISTIDES: Tu levou quanto tempo pra dominar o aparelho?

MILENA: Nossa, isso foi… assim, até hoje, até hoje a controladora, principalmente outras controladoras, quando você tá acostumado aqui com a sua e você pega uma mais avançada, é um pouco difícil pra você pegar ali algumas coisas. Mas eu acho que, digamos que de oito meses a um ano. Eu realmente me senti segura e mexi em uma controladora. E muito disso foi o Dafro, mas também fiz aulas online de controladoras, principalmente a que eu uso. E é um aprendizado constante, como falei, porque quero aprimorar, quero comprar controladoras melhores e tudo isso vai um tempo de aprendizado também diferente. Mas o básico ali, acho que você consegue aprender em cinco meses. Tem pessoas que pegam bem mais rápido mesmo. A minha questão era muito os botões, porque pegar o ritmo da música, essas coisas que já tinha ouvido lá de quando eu estudei música, quando tocava violão.

Então, pegar o tempo da música pra mim foi bem mais fácil. O que o Dafro falou, que normalmente para pessoas essa é a parte mais difícil. E pra mim foi a parte mais fácil. A parte mais difícil foi me familiarizar com os botões, porque são muitos.

Principalmente na controladora do Dafro, que foi a que eu aprendi. Mas basicamente é isso, não é assim tão difícil quando as pessoas pensam. O básico pra você tocar e pelo menos remixar uma música na outra, você aprende talvez em uma semana.

Eu falo de aprender de 8 meses a 1 ano, de aprender mesmo, de entender a controladora, de entender os botões, o que que ela faz, qual o momento certo, exatamente, qual o momento certo de usar isso, de usar aquilo. Demorou um pouquinho mais.

ARISTIDES: O DJ é ter uma habilidade de conduzir ali uma multidão, né? Você tá conduzindo uma multidão que tá querendo dançar, se divertir. Como é que tu percebe que é o momento de tirar essa música e colocar outra?

MILENA: Eu acho que é só com o tempo mesmo que você entende e começa a ter essa percepção melhor. Porque ser DJ não é pra você tocar pra você, é tocar pros outros. Você tá numa festa realmente pra agradar os outros que estão dançando, se divertindo. Esse feeling vai muito de experiência. Não é a primeira vez que você vai tocar que você vai saber: “ah, a pista deu uma caída aqui, deu uma amornada aqui, vou colocar outra coisa”, entendeu? Então, assim, é realmente com o tempo. E eu acho que isso é uma das coisas mais importantes de você ter repertório pra aquilo, por isso que eu acho muito limitante quando sou contratada pra uma festa que quer que eu toque só um estilo de música. Principalmente de reggae, pra mim é muito de boa, porque o meu repertório é enorme. E as pessoas que vão pra lá sabem que vão escutar só aquilo. Mas, eu sinto que quando misturo ritmos, envolvo mais pessoas. Às vezes, o que chama mais é o funk. Quando vejo que realmente deu uma amornada na pista, eu coloco funk que as pessoas já gostam de dançar, mas tem aquela pessoa que não gosta de funk, mas que o R&B [Rhythm and Blues] que vou colocar, que é um estilo de música que eu toco bastante, R&B, enfim. Também eu toco bastante. Por exemplo, essa pessoa não gosta de funk, mas uma hora que eu for tocar um R&Bzinho, ela vai tá lá curtindo. Você começa a conhecer seu público e o público conhece você também.

O pop também entra vez ou outra, porque tem pessoas que escutam pop e às vezes vai dar certinho eu encaixar esse funk em um pop. Então, eu faço isso, eu faço essas coisas. Eu sinto que é tipo brincar com a música. Eu adoro os efeitos, as transições. A melhor parte pra mim realmente são as transições. Inclusive existe a diferença entre Selecta pra DJ. Tem pessoas, principalmente do reggae, que se intitulam de Selecta. O seletor de músicas.

A pessoa seleciona as músicas pra tocar. Isso você vê principalmente no reggae, se você for aqui no Piauí, no Maranhão. que o DJ coloca uma música, acaba a música, ele começa a falar não sei o quê, e aí depois que ele vai botar outra música. Pra mim, isso não funciona bem. Primeiro que eu não gosto de interromper a música pra ficar falando, acho que perde totalmente o sentido, assim, pra mim, né? Então, quando eu toco também no reggae, eu remixo as músicas. Coloco uma música atrás da outra e tal, e eu faço a minha vibe daquele jeito. As pessoas já conhecem que toco daquele jeito. E pra mim essa parte mais interessante de você ser DJ é você remixar realmente as músicas. Encaixar uma batida na outra, sabe? E a outra vir com sentido. Nossa, eu acho muito interessante essa parte.

ARISTIDES: Eu não conhecia esse nome “Selecta”, porque assim, eu ouvi muito rádio nos anos 90 E eu ouvia um programa chamado Reggae Liona, com o DJ Dread Douglas. Eu tinha “raiva” dele no bom sentido. Porque tentava gravar a fita, aí na hora que ia começar, ele interrompia a música pra falar algum troço.

MILENA: É desse jeito.

ARISTIDES: Um alô para um parente, um amigo. Aí eu apertava o rec, pause, e “vai começar de novo”. E ele soltava outra fala aleatória: “Ah, e fulano também”. Isso dava dava raiva demais. Durante a música, ele interrompendo, falando… era até pra gravar pra ouvir depois. No baile é bom, mas pra quem é de casa e quer gravar é um inferno. Mas eu não sabia desse nome, Selecta. Gostei.

Hoje a gente vive numa condição que o vinil ele – eu posso estar errado – mas “meio” que “voltou”. Eu não sei se a palavra é “voltou” ou virou uma demanda maior e ela continua com mais fôlego. É uma coisa que realmente sou muito confuso. E quem já ouvia antes? Hoje a gente vê a “retomada” da mídia analógica em diálogo com o streaming e os artistas pagam um preço muito alto com a questão relacionada às plataformas digitais.

Eu queria que tu falasse um pouco sobre isso. Por exemplo, no Spotify o cara ganha centésimos de real pra uma execução de uma música. Antes o artista ganhava porn a porcentagem do disco vendido. Muitos artistas hoje ganham por ingresso, por contrato. Como é que tu avalia a condição em que a gente tá ouvindo música hoje?

MILENA: Em relação principalmente ao streaming, não acho viável para o artista. Acho que nenhum artista considera viável. Até os grandes artistas que têm, assim, um alcance enorme. Não acho que é uma coisa, assim, que eles utilizam para realmente ter uma rentabilidade daquilo, mas sim algo para continuar estando nos topos, porque a principal forma que as pessoas estão escutando música, né?  Vejo realmente, principalmente em relação aos artistas grandes, que é pra continuar estando ali nos ouvidos das pessoas. Mas, para os meus colegas, que não são grandes artistas assim, reconhecidos nacionalmente, que são artistas aqui de Teresinha, que são artistas do Piauí, de forma geral, ou do Maranhão, eles utilizam o streaming como uma forma de divulgar o trabalho deles, que é a forma mais fácil. Então eles realmente veem isso como uma divulgação. Eles não vão esperar ganhar 50 centavos por ano dos plays deles, mas eles utilizam isso muito como essa forma de estar mostrando o trabalho. Então é bem viável em relação a isso.

Só que esvazia muito o sentido de fazer música. Eu acho que não é o sonho de ninguém.
Eu acho que é uma forma realmente das pessoas estarem ali divulgando o trabalho delas. Inclusive, não tenho nenhuma faixa colocada em streaming. Só no Sound Cloud na verdade, que é um streaming de setlist, principalmente é utilizado por DJs.

Tenho alguns setlists lá nesse streaming e é justamente pra divulgar, por exemplo, eu vou me apresentar pra um contratante que nunca me contratou, como é que eu vou mostrar meu trabalho? Então pego o link do streaming, mando pra ele escutar: “olha esse aqui o set que eu fiz com o tema tal, escuta um pouquinho, se você gostar me dá um hello aí, me chama pra tocar”. Basicamente utilizo como uma forma de divulgar o meu trabalho.

ARISTIDES: Hoje eu li uma notícia super esquisita. O CEO do Spotify [Daniel Ek] tá usando parte dos lucros dele [cerca de 600 milhões de euros] para investir em tecnologia militar, drones de defesa e tal.

MILENA: Caralho!

ARISTIDES: Pagamos para ele usar o lucro que poderia estar sendo revertido aos músicos pra investir em guerra.

 MILENA: Nossa!

ARISTIDES: Então a gente paga pra um magnata, um fodão da indústria, monopolizar tudo pra ele. A troco de artistas que ganham centavos por isso.

Vamos lá. Tu não me falou quando tu oficialmente se tornou DJ. Quando foi? Como foi a experiência do teu primeiro set? A expectativa que tu criou… Quando foi isso?

MILENA: Em 2022. A primeira vez que me apresentei foi na primeira Calorada Preta da Universidade Federal do Piauí que foi organizada por nós mesmos, estudantes negros. Nunca tinha acontecido uma calorada voltada para a recepção de alunos negros e indígenas na universidade. Então, basicamente, a gente fez essa calorada. Não foi só festa, né? Teve debates, teve mesa de conversa. Foi uma semana inteira que a gente mobilizou a universidade para esse evento. E, basicamente, foram os próprios alunos que foram as pessoas que estavam nas rodas de conversa, que estavam se apresentando. Muitos alunos se apresentaram também no dia da festa em si. E eu me apresentei no dia da festa, foi a primeira vez que coloquei realmente um set, me colocando como DJ.
O pessoal falou: “vai, Milena, coloca a playlist”. Então foi sempre algo assim mais informal. E coloquei uma expectativa enorme. Enorme, enorme, enorme. Meu Deus do céu. E fiquei com muito medo, aquela coisa da autoconfiança, né? Que eu estava fazendo pela primeira vez, mas eu fui tão bem recebida. Eu acho que mandei muito bem. Eu toquei pelo computador em um aplicativo de remixagem, só pelo computador. Eu não tinha controladora. Como eu tinha noção de música, de tempo da música, consegui desenrolar muito de boas. Acho que treinei, de fato, uma semana pra tocar. Então assim, por isso que eu falei que pra você aprender a tocar na controladora não é tão difícil.

Você colocar play em uma música e depois só achar o momento da outra música entrar e colocar play. Não é tão difícil. Fui muito bem recebida. Fiquei muito animada. Muito mesmo. E eu trouxe uma coisa, assim, meio que diferente. Eu lembro que a Wirk, que é uma das referências no reggae remix, que é o reggae daqui do Piauí, que é o reggae que eles usam remixado com funk. Ela é uma uma referência bem grande.

E ela tava no line-up da festa. Ela iria tocar. Inclusive, ela era a que eu estava mais esperando pra tocar nesse dia. Ela escutou o meu set, chegou pra mim e falou: “porra, Milena, se eu fosse DJ, eu só tocava esse tipo de música”.

Toquei muito mandelão, que é muito aquele funk de São Paulo. Funk eletrônico, aquele funk, não é aquele funk carioca, é diferente, é o funk que é 130 bpm, ele tem muito essa pegada eletrônica. Toquei bastante nesse meu set, mas toquei também hip hop. mas como foi um set pequeno, acredito que foi um set de 50 minutos, não consegui também fazer grandes coisas. Foquei no funk, que é o que a galera da universidade curte, e no hip hop.

E aí receber esse feedback da Wirk, sabe? Foi uma das coisas que fez realmente eu, nossa, então fiz uma coisa bacana. E aí depois, não só dela, mas de outras pessoas também da cena, daqui de Teresina, que admiro, como o Velho Bad, um trapper daqui de Teresina, da Santa Maria.

Ele coloca muito nas letras dele a Santa Maria, que é onde ele mora. E nesse dia ele ia se apresentar também, ele super apoiou falou comigo, falou que eu arrebentei. Enfim, acho que foi muito bem recebido por essas pessoas que escutava.

O hip hop é onde me sinto mais à vontade, que é onde existem pessoas que são parecidas comigo. Então o hip hop meio que é minha casa aqui, digamos assim.

No hip hop eu tenho muito escutado ultimamente Velho Bad. Ele é incrível, muito bom mesmo, o cara é um artista. Ele tem também uns audiovisual no YouTube que vale a pena dar uma conferida. Tem a Jaisa Caldas, ela é de Timon e é incrível também. Uma mulher preta, forte, faz versos bem fortes mesmo. Ela teve um álbum lançado que foi o Madame, que tá com um ano mais ou menos.

O Raifran também é de Timon, que é incrível. Pra mim é um dos melhores no hip hop. Ele é um letrista foda, pra mim ele é uma referência master no hip hop aqui do Piranhão, porque ele é de Timon, mas enfim, ele é muito conhecido também e reverenciado aqui no Piauí. Tem um preto tipo A. Muito bom. Ele é de Amarante, aqui do Piauí. Ele inclusive tá como agente territorial de cultura lá. Ele mexe com música, com moda. Ele tem uma coisa de… uma marca de moda muito incrível também. Enfim, é muito bom. Muito bom mesmo.

Basicamente são essas pessoas assim que estão movimentando a cena musical. E aí a gente também tem os rappers ou MCs que são de Batalha. A grande maioria, que não é que eles não escrevem uma letra e tudo mais, mas é porque eles não têm acesso mesmo a essas coisas. Essas pessoas já têm um entendimento melhor de como registrar uma música, por exemplo, quais as pessoas procurarem para gravar a música, mas a grande maioria não.

A grande maioria não tem nem portfólio, pra você ter ideia. Então eu, como agente territorial de cultura, quero muito focar nisso, sabe? Na formação dessas pessoas. Tipo, ajudar a fazer um portfólio que eu acho que pra qualquer artista é o mínimo. A grande maioria nem tem. E são pessoas que já estão na cena desde 2019, desde antes disso talvez, entendeu? Então assim, é porque realmente é tão distante pra eles essa realidade de viver com isso, de ganhar dinheiro com isso, que eles não vão atrás.

O máximo que eles vão é em uma Batalha que vai pagar 100 reais para campeão, que é o que tem ali mais fácil, realmente, mas é por falta mesmo de incentivo e de conhecimento mesmo de como fazer as coisas.

A gente tem o Panda, que se destaca muito na Batalha. Meus parceiros do Slam, que o Slam já é uma pegada diferente da rima ali no freestyle, que é a rima no improviso, que é uma coisa que você já… é tipo uma poesia mesmo, que você escreve e na hora e no Slam você declama. Então, cada poeta tem seu momento. Eu vou destacar aqui meus grandes amigos,  deixa eu ver, o Lisandro, não sei se você conhece, que ele foi, inclusive, o representante para o Slam Nacional do Piauí, do último Slam BR que teve.

O Bad Black, ele foi o selecionado para o Slam BR desse ano. Vai competir representando o Piauí. Tem o KLLE também, que é incrível, o João que o vulgo dele é peregrine. Temos a Batalha das Marias, inclusive, que a Jujuba que tá ali, a negra Jujuba. É ela na frente.

Já fui pra umas três edições da Batalha das Marias e tem meninas incríveis também competindo. Lembro da Ranny, de Parnaíba. A cena hip-hop é muito diversa, e como falei, é a cena que me encontro, porque existem pessoas parecidas comigo, existem amigos também, bem próximos, que estão aí fazendo acontecer. Todas essas pessoas que falei, tenho uma proximidade grande.

ARISTIDES: Quando tu fala “proximidade”, é só musicalmente ou em outros aspectos?

MILENA: Não, em outros aspectos. Aspectos de vida mesmo. Aspectos físicos. Porque a maioria são pessoas negras, periféricas, ou indígenas também. Então, parecidos também em relação à vida. Digamos que… a trajetória de vida mesmo, sabe? São pessoas que tão fazendo a cultura, mas que tem mil e uns corres aí que fazem, pessoas jovens. Então é nesse sentido mesmo. Muitas dessas pessoas conheci na UFPI, inclusive, antes de conhecer dentro da cultura mesmo, dentro dos corres que elas fazem no hip-hop. São pessoas realmente que, antes de tudo, eu era amiga. E hoje, além de ser amiga, também sou fã. Basicamente isso.

ARISTIDES: Tu disse antes que DJ faz o set pensando nos outros. E quando é pra ti, no teu dia-a-dia? O que é que tu anda escutando? Como é que tu organiza? “Hoje eu tô afim de ouvir reggae”. Aí tu tem um milhão de músicas no teu set.  Como é que tu faz pra organizar isso? Pra ouvir no fone, ir no supermercado, pra andar de carro?

MILENA: Eu gosto muito de fazer playlists. Ultimamente tenho ouvido bastante rock. É muito nostálgico pra mim o rock, sabe? E de uns dias pra cá, meu namorado, ele tem se mostrado muito aberto a conhecer.? Aí ele falou: “Milena, me indica umas bandas de rock pra escutar”. E eu indicando pra ele, me veio a vontade de escutar de novo. Então, de um mês pra cá, tenho escutado bastante rock, porque pra mim é muito… traz muito essa lembrança, sabe? Que é muito reconfortante. Led Zeppelin, Queen.

Tenho escutado bastante isso, que dificilmente toco nos meus sets, mas escuto muito reggae no meu dia a dia, principalmente Bob Marley pra mim. Eu coloco qualquer álbum dele e pra mim é uma oração.

Então é muito bom. Escuto muito nos meus momentos, principalmente nos momentos de relaxar.  Escuto muito, muito, muito Bob Marley, sou fã, assim, disparado do Bob, da história dele, da pessoa dele, das músicas, principalmente, que continuam tão atuais até os dias de hoje. Fora isso, no meu dia a dia coloco uma playlist, por exemplo, de forró, forró das antigas, então é muito, muito, muito aleatório. Vai muito da vibe que eu tô no dia, mas ultimamente eu tenho escutado bastante rock e hip hop também.

Sempre fui aquela pessoa de pesquisar música e que isso é muito presente no meu dia-a-dia como DJ, de você realmente pesquisar, passar dias, horas sentado aqui escutando várias músicas, entendeu?

ARISTIDES: Ter um ouvido aberto.

Exatamente. não é porque eu não vou tocar um pagode no meu set que eu não vou escutar o pagode ou que eu vou pesquisar sobre o pagoda. Eu sempre tô nessa de escutar muitas coisas. Conhecer muitas coisas. E isso é um ponto positivo pra mim, de fato. É algo que eu gosto muito. De ser aberta. De não ter preconceito com música A ou B. Acho que a única coisa que eu não escuto mesmo é sertanejo. De tudo. É o mínimo. O sertanejo pra mim é Marília Mendonça e só, digamos assim.

ARISTIDES: O que é que tem de plano pra frente? O que é que vem por aí? Pode dizer? É segredo? Tem data de apresentação marcada?

MILENA: A mais próxima vai ser na comemoração de sete anos da Batalha da ponte JK, que é uma batalha de rimas, que acontece debaixo dessa ponte. Vou me apresentar, fazer um set lá no dia, né? Se eu não me engano, é no iniciozinho do mês de agosto agora, no dia oito, se eu não me engano.

Vai colar muita gente. É uma batalha bastante conhecida e tal. E já são sete anos. Realmente eu acho que vai ser bem bacana. E aí vai ser… E é uma honra, né? Tá tocando na JK. Há anos que eu venho pra essa batalha da JK e agora… É a primeira vez que eu vou tá tocando nela e é gratificante. Em relação a projetos, acho que o Piranhão Sound vem aí e vai voltar com tudo.

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