Por Aristides Oliveira e Emília Soares
Conversamos com Isabella Souza. Ela é Psicóloga e Psicanalista. Formada em Psicologia pela PUC-Minas com ênfase em atendimento clínico, tem pós-graduação em Clínica Psicanalítica na Atualidade: de Freud a Lacan (PUC-Minas) e é pós graduanda em Psicanálise, Arte e Literatura (Instituto ESPE). Desde a graduação, estagiou em hospitais, escolas, abrigos e no Cersam (nome dado ao CAPS em Belo Horizonte-MG). Possui mais de 5 anos de experiência clínica com crianças e adultos. Atualmente, participa de grupos de estudos voltados para a investigação da feminilidade e psicanálise e é Supervisora Clínica de jovens analistas. Recentemente, teve uma breve experiência no SUS como psicóloga e psicanalista. Participa das atividades das Escolas de Psicanálise de Belo Horizonte, em especial, a Aleph.
A partir de que momento da sua vida decidiu tornar a psicanálise um instrumento de trabalho?
A minha relação com a psicanálise enquanto ofício eu não sei dizer exatamente quando começou. Me arrisco a dizer que foi quando comecei a atender, em 2020, logo após me formar, e dei os primeiros passos na clínica. Uma clínica sempre permeada e atravessada pela psicanálise, desde o primeiro dia. Mas tive dois encontros com a teoria psicanalítica antes de me formar: o primeiro, no terceiro período, quando uma professora explicava sobre trauma e recalque, e me dei conta de uma situação que havia acontecido na minha adolescência; o segundo, no sétimo período, quando li o texto Luto e Melancolia (1915). Foram vários momentos de autorização desse lugar de analista. E acredito que funcione assim.
Quais são os/as estudiosos/as que você tem lido e que te auxiliam na prática de Análise com seus pacientes?
Leio várias coisas ao mesmo tempo e acredito que a formação do analista precisa ser plural, para além de Freud e Lacan. Gosto dos autores brasileiros clássicos para pensar as questões sociais da psicanálise, como Benilton Bezerra Jr., Sérvulo Augusto Figueira e Jurandir Freire Costa. Me encanto com o aprofundamento teórico de Safatle e de Mezan. Quinet é uma enciclopédia brasileira de boas explicações. Em Maria Rita Kehl, encontro uma subversão que me fascina. Isildinha deveria fazer parte do plano de aula das escolas brasileiras. Leio tudo que encontro dos escritos de Contardo Calligaris, ele é uma referência pra mim que vai muito além da clínica.
Mas sempre acreditei que a melhor forma de apurar a escuta, ampliar o repertório e a capacidade de compreensão é pela literatura. Tenho uma clínica majoritariamente de mulheres e, por isso, tenho lido e relido certas autoras como Marguerite Duras, Elena Ferrante, Annie Ernaux e outras. No momento, estou lendo A outra filha, da Ernaux. Um enredo profundo sobre a morte, a família, os mal-entendidos e os não ditos no laço familiar. Recorro muito a textos autobiográficos, de autoficção.
Algumas pessoas questionam que a Psicanálise é uma área do conhecimento “suspeita”. Afirmam também que, por esse saber não fazer parte de uma grade inserida num curso superior ou “conselho” regulador, não seria digno de confiabilidade. Já escutei várias vezes colegas dizerem: “prefiro um psicólogo, pois se formou na universidade”. Como você avalia essa questão envolvendo o “suposto saber” e a formação acadêmica?
Acho curioso como já se passaram mais de 100 anos desde os textos em que Freud levantava essa questão, e que, em setembro deste ano, ainda estávamos falando sobre isso. Recentemente, tivemos uma audiência pública para continuar debatendo as questões em torno da regulamentação da psicanálise no Brasil enquanto um ofício. E fomos muito bem representados nas falas, por exemplo, de Dunker e Denise Maurano. É um tema árido, complexo e, para tratá-lo, precisamos voltar algumas casas e debater o que é saber científico, por exemplo. Mas não vou me enveredar por aí. O que verdadeiramente me chama atenção em tudo isso é que há um mundo neurótico em busca de validações, títulos, garantias. E bem sabemos que um diploma não garante um bom processo terapêutico. Quando alguém diz “prefiro um psicólogo, pois se formou na universidade”, na clínica eu investigaria qual a mensagem invertida de quem diz isso. Está em busca do quê? Quem está ou já esteve em análise sabe que, no fim das contas, não tem nada a ver com psicologia, universidade, diploma ou seja lá o que for. A gente nunca sabe, num primeiro momento, o que está pedindo.
Karen Horney escreveu um livro chamado “Conheça-se a si mesmo: auto-análise”, publicado no Brasil em 1964. Como você compreende a experiência do paciente pós-sessão no processo auto analítico no intervalo dos encontros?
É onde, de fato, acontece o que brinco chamando de “milagres psicanalíticos”. A sessão é apenas uma ferramenta. Uma ferramenta fundamental, claro, mas que, em alguma medida, precisa ser dispensável. Vir semanalmente às sessões, falar por 30-40 minutos, estar em transferência com o analista: nada disso garante que o paciente está em processo analítico de fato. O que nos dá alguma métrica para avaliar o efeito da análise na vida do paciente não é a historinha que ele vem nos contar semanalmente, mas o que ele faz com aquilo que descobre em sessão.
Gostei que vocês citaram Horney. Ela foi polêmica. Foi corajosa. Tive um breve contato com suas obras na graduação e gostei do que encontrei. Sinto que ela é mais reconhecida na psicologia, na sociologia do que na psicanálise. E se bem me lembro, defendia algo parecido com o que eu disse. Há grande importância no que acontece nesses intervalos, mais do que no relato semanal.
Conheci alguns psicanalistas que, infelizmente, atuam no mercado, mas ignoram ser supervisionados, e até mesmo fazer Análise pessoal. Para você: qual a importância da prática da Supervisão na formação do psicanalista?
Não existe psicanalista sem análise e sem supervisão. Tendo a pensar que quem foge da supervisão está fugindo de se encontrar com as faltas e os equívocos que o lugar do analista também comporta. Para mim, foi um divisor de águas na minha clínica poder sustentar as supervisões semanais. No início, eu não conseguia pagar por supervisões contínuas, mas dava meu jeito de continuar compartilhando com o outro e, principalmente, ouvindo. Ia até os grupos de estudo e fazia perguntas relacionadas ao caso, de forma indireta, buscando obter dali alguma orientação. Eu encontrava maneiras. Precisamos nos dar conta de que nunca escutaremos tudo de um caso e que nossa compreensão muitas vezes é uma armadilha do inconsciente para encerrar a questão e racionalizar. Nossa escuta tem limites. Sem supervisão, tendemos a escutar com o ouvido da nossa subjetividade, da nossa história pessoal e não com o ouvido analítico. Lacan nos orienta a não compreender rápido demais. Quem foge da supervisão foge da clínica. Certamente, o que faz não é psicanálise.
Sabemos que Freud é um gênio situado no seu tempo. Como você avalia o balanço da contribuição de Freud para o fazer psicanalítico contemporâneo?
Com respeito. Com profundo respeito. Acho magnífico que um homem tenha dito o que ele disse em sua época e que, depois de tantos anos, possamos constatar a veracidade de sua teoria. Mas vejo também um sujeito limitado, como eu e você. Ele foi até onde conseguiu, foi até onde seu inconsciente pôde ir. Por isso, não podemos localizar nossos estudos apenas na psicanálise freudiana. É preciso recorrer a outros teóricos, validar também o saber científico de quem vive em nossa época. Freud é uma referência importante, um homem generoso em sua transmissão, mas limitado. Eu acredito que somente sua teoria não suporta a complexidade dos dias atuais e da clínica contemporânea.
Quero contar uma história breve. Certa vez, tive um sonho em que encontrava Freud tomando café na minha cozinha. Num dia comum, sentado à mesa. Ele estava com roupas casuais, roupas de ficar em casa, como se diz na minha família, e tomava café em paz, tranquilo e conversamos. Quando tive esse sonho, era um momento em que eu lia o texto A história do movimento psicanalítico de 1914 e, ali naquele texto, pela primeira vez, consegui olhar para Freud como um homem comum: cheio de entusiasmo, mas também frustrado em muitos momentos. Foi aí que consegui começar de fato a estudar suas obras. Precisei humanizá-lo.
Qual seu olhar em torno do cruzamento entre a Psicanálise e outros campos do conhecimento? Ou você acredita que a Psicanálise deveria voltar-se apenas a si mesma?
Acredito que em tudo aquilo que envolve o nosso tempo e que nos forma como seres humanos, lá está a psicanálise. Na biologia, na medicina, no cinema, na sociedade, nas artes, na música, na literatura, na gastronomia, na arquitetura, no amor. Existimos com nossos desejos, defesas, fantasias e sintomas. Tudo o que foi criado e pensado permeia algo da psicanálise, ainda que não tudo dela. Veja, não estou dizendo que a psicanálise precise falar sobre todos os assuntos ou que explique tudo, mas onde há um sujeito desejante, pensando e criando, lá está a psicanálise. Isso, no entanto, não elimina o fato de que há um limite de compreensão na teoria psicanalítica. Por isso, precisamos recorrer também a diversas outras teorias para compreender os fenômenos comportamentais e a sociedade.
Freud tentava entender o que queria a mulher, Lacan questionou “o que é uma mulher”? De lá para cá, você acredita que essas perguntas encontraram respostas mais assertivas sobre essa categoria de gênero?
As perguntas avançaram, sem dúvidas. As respostas também. Temos muita gente boa pensando sobre o assunto. Acredito que muitos ousaram e ainda ousam dizer o que as mulheres são e o que querem, e que a importância desse movimento está justamente em trazer luz para questões femininas relevantes e, obviamente, promover uma conscientização. Conquistamos espaços também porque muitos teóricos vêm construindo ideias em torno do lugar da mulher. Mas nada disso elimina o fato de que cada uma terá de se haver com a criação de uma resposta própria para o enigma: “o que é ser uma mulher?” Recorremos à psicanálise, às leis, à literatura, às mulheres da nossa família, ao que entendemos do olhar das parceiras ou parceiros amorosos sobre nós, mas nada disso responderá ou sustentará esse lugar. É um trabalho de criação singular de sentido. E, sobre isso, a teoria fica em segundo plano. O inconsciente e as fantasias é que serão determinantes.
Aristides e Emília, agradeço primeiramente pela espera. A vida foi se impondo, e precisei priorizar outras questões. Espero estar enviando as respostas a tempo. Agradeço também pela possibilidade de compartilhar com vocês a minha psicanálise. Desejo vida longa à revista e ao trabalho de vocês. Abraços, Isabella.



