Rebeca Lopes: quando a história de vida e a pesquisa se juntam pela luta em nome dos povos indígenas

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Por Aristides Oliveira

Sigo reverberando a leitura do artigo “O avesso do apagamento: a reexistência Akroá Gamela em Uruçuí” e a fala de Rebeca Lopes na conferência pública “Saberes Ancenstrais e Resistência: diálogos entre culturas quilombolas e indígenas no Piauí”. Pedi a ela um tempo para conversar sobre sua trajetória de vida e a contribuição que está dando nas pesquisas envolvendo a temática indígena no Piauí. Rebeca conversou comigo sobre a conjutura das lutas pela terra e os desafios enfrentados pela máquina de moer gente financiada pelo agronegócio e o Estado.

ARISTIDES: Quando tu fala a expressão “retomada”, como foi que tu percebeu em se colocar nessa perspectiva?

Então, quando eu utilizo essa expressão indígena em retomada, não é uma expressão isolada e que eu cunhei, mas é uma expressão que hoje, né, no contexto atual, principalmente do Nordeste, do Piauí, a gente tem observado os movimentos de retomada étnica, né? Que é o que muitos antropólogos chamam de viagem da volta, mas que eu, pela vivência pessoal e pela vivência também em outros movimentos, nós estamos em retomada. E quando falamos que estamos em retomada, não é somente na luta pelo território, na retomada de voltar ao território em que nasceu, em que se criou, e que ao mesmo tempo também outros grupos também nasceram. É uma retomada também étnica, uma retomada de uma identidade que por muito tempo foi silenciada e que foi apagada. E eu observo isso na minha própria trajetória pessoal. Porque ano passado, quando eu estava participando do Programa Ação Saberes Indígenas na Escola, Até então, eu sempre sabia que eu tinha essa… eu não gosto de falar palavra descendência porque eu acho problemática, mas enfim. Mas eu vou utilizar porque é o termo que eu estou lembrando agora. Eu sempre sabia que eu tinha essa descendência indígena por parte de pai. E eu lembrei que eu ficava comentando até com o João Paulo, com a Tatiana, mostrando as fotos dos meus avós, das minhas tias. Os nomes, inclusive, dos meus tios e do meu pai têm origem indígena. Mas eu, por mim, sozinha, a Rebeca, eu ainda não tinha esse senso, como eu posso falar, esse senso étnico, ou esse sentimento de mobilização de uma identidade indígena. Foi justamente durante o programa, em uma das primeiras oficinas que teve, julho de 2024, foi, que a Dan falou assim pra mim: “olha, eu sei que você é indígena, eu sei que foi os encantados que trouxeram você até nós, não foi à toa, que você tá com a gente desde 2020, e eu sei também que você tem um racismo muito grande contra você mesma. Você tem medo de se declarar, você tem medo do que vem”, que foi o que Cacica Dan falou, do que “vem quando você bate a cara e bate o peito pra falar que é indígena atualmente”. E ela falou: “olha, eu conheço a tua família, conheço o teu pai, conheço a tua família paterna e vocês são indígenas. Então tu é indígena, Rebeca, e tu precisa se mobilizar enquanto essa identidade”.

Aí uma frase que tá até na minha dissertação, na introdução, que ela fala assim: “a Rebeca veio trazida pelos encantados pra nós”. É uma frase que eu carrego muito, porque ela fala pra mim sempre, quando os encantados te dar uma missão, que no caso a minha missão pra ela seria retomar essa história que por muito tempo foi perdida dos indígenas. A gente não pode fugir. E eu acredito que tudo isso está imbricado no que eu chamo de indígena em retomada. E quando eu falo indígena em retomada, eu falo porque também é um processo, né? Eu não acordo, durmo e acordo e digo: “sou indígena”. Não é assim. É um processo que a gente vai construindo e se desconstruindo, porque, como eu sempre ressalto, o racismo anti-indígena, ele afeta não somente o externo para o interno. Ele afeta primeiramente o interno, porque primeiro começa no medo de você se declarar. Segundo, você fica insegura, por exemplo, em se declarar indígena em um ambiente acadêmico, por exemplo. Como eu já ouvi muitos colegas pesquisadores dizendo que tem muitas pessoas hoje dizendo que é indígena para poder conseguir algum privilégio dentro da universidade, sabe? E isso faz com que também a gente crie esse receio de assumir essa identidade. Então por isso que eu digo que é indígena em retomada, porque é um processo. Um processo que é muito complexo e que é muito pessoal também. Eu não posso, por exemplo, comparar minha experiência com a experiência de outras pessoas e assim por diante. Então por isso que eu utilizo o termo indígena em retomada.

Arte: Rebeca Lopes.

ARISTIDES: Aí, quando tu falou isso, eu pensei o seguinte: tu é de Uruçuí, nasceu lá.

Sim, eu nasci em Uruçuí.

ARISTIDES: A partir do momento que tu usa esse termo “retomada”, de voltar às origens, de se redescobrir, na tua infância, adolescência, tu ouvia falar de histórias envolvendo questões indígenas. Essa discussão, no dia a dia ela acontecia ou tu despertou isso em algum momento específico?

Em casa, meu pai falava muito que é uma narrativa que a gente escuta bastante no Nordeste e outros lugares. Em ambientes domésticos que é a minha bisavó foi “pega a tronco de cavalo” ou a minha avó foi “pega a dente de cachorro”, porque infelizmente é uma narrativa que se disseminou e que faz parte de um projeto e de um processo de violência colonial contra corpos de mulheres indígenas. A partir do momento que a gente escuta esses relatos, a gente não somente naturaliza essa violência mas também a gente é muito violento porque aciona essa identidade a partir de um relato violento. Começa por aí, né? Mas o que eu quero dizer com isso? Que assim como eu, várias outras pessoas já escutaram essa narrativa e esse relato por parte dos mais velhos. E aí na minha casa não foi diferente. Mas se eu disser pra você que, por exemplo, na escola ou nos ambientes fora da escola eu tive contato, eu tô mentindo, porque não tive. Eu só fui ter contato com uma visão mais crítica sobre identidade, sobre história indígena, sobre povos indígenas a partir do ensino médio quando eu entrei no Instituto Federal de Piauí em 2016 que eu já tinha falado ontem por conta do professor João Paulo que me deu aula de História. Até então eu tinha ainda aquela visão cristalizada, estereotipada do que seriam os povos indígenas. 

ARISTIDES: Outra coisa: muito se fala, principalmente no que você escreve no teu projeto enquanto pesquisadora sobre questão do apagamento, mas assim, existe um debate teórico, acadêmico sobre esse esforço discursivo de invibilização, mas eu queria que tu falasse um pouco disso não focado no debate acadêmico. Como é que tu percebe isso no dia a dia, na vida prática. Vou usar uma expressão em que posso estar sendo equivocado: “senso comum”. Como é que a gente vê isso? Por exemplo, tu falou primeiro da história da reivindicação da identidade como uma forma de a pessoa querer se aproveitar, se vitimizar...

A gente escuta muito disso.

ARISTIDES: Mas como é que tu ouve no dia-a-dia, como é que tu escuta, o que é que tu vê por aí os absurdos, preconceitos, falas que você fica assim: “meu Deus, o que foi feito para essas pessoas entenderem que elas estão comprando a fala do apagamento?

É uma pergunta que é muito importante porque muito se fala do projeto colonial e historiográfico do apagamento, mas pouco se fala do quão ele se expande para a vida real, o quão ele é… eu queria usar uma palavra, mas talvez soe… mas eu vou falar. O quanto ele é realmente um projeto de genocídio, né? Porque quando a gente fala de indígenas lá em Uruçuí, vou usar meu lugar. Porque eu não quero usar o termo, mas o meu lugar enquanto pessoa, enquanto cidadã e enquanto também indígena. Lá a gente tem muitos comentários, assim, racistas que a gente convive cotidianamente. Desde as redes sociais, que eu acho que é um dos lugares onde mais tem, por exemplo, quando tem alguma postagem que a gente faz no Instagram da Associação sobre algum evento, o pessoal, a primeira coisa que comenta, são um “bando de índio falso”. Já chamaram de “índio da shopee”, já chamaram também de… que eu ouvi na época da retomada, que eram pessoas se passando por indígenas para conseguir terra. Chamaram também, inclusive, de grileiros de terra. Olha só a ironia, né? E a gente também tem uma guerra epistêmica muito grande, porque além do racismo que a própria cidade, os próprios moradores têm contra as populações indígenas, a gente tem outro grupo, que é o grupo do agronegócio, que é representado pela galera do Sul, principalmente que vem de um discurso anti-indígena baseado que são pessoas preguiçosas, que estão lá porque não tem nada pra fazer, porque querem tomar a terra de quem trabalha, de quem produz, que são aqueles (sulistas) que trazem verdadeiro progresso, que quando eles chegaram em Uruçuí era “só mato”. Eu vi comentários, inclusive eu tirei vários prints uma vez de vários comentários dizendo que eram pessoas que estavam ali só pra atrapalhar, ou que são obstáculos, contra o progresso e desenvolvimento.

Arte: Rebeca Lopes.

A gente convive muito com isso e principalmente esses comentários, eles são acirrados quando se consegue alguma política pública ou quando se consegue um direito. Quando, por exemplo, a gente tem algum debate sobre educação escolar indígena ou sobre saúde indígena, vai vir um monte de comentários: “olha, estão aí só pra conseguir direito. Estão aí só pra conseguir as vantagens, os privilégios”, como se, enfim, se a indígena tivesse algum privilégio, assim, nesse sentido. E aí tem, além dos comentários, a gente tem as violências físicas, porque a gente convive em um ambiente, como eu falei, que é muito hostil. É uma situação lá na região Sudeste do Estado, como a gente convive dentro da fronteira que se chama fronteira agrícola do MA|TO|PI|BA (abrange as fronteiras do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que eles dizem ser a última fronteira agrícola. A gente tem a polícia sendo o braço direito desses grileiros, desses fazendeiros, que amedontram, que fazem ameaças, que invadem os territórios. Quando a gente tá, por exemplo, lá na retomada, a gente tá agora tendo queimadas ilegais, que ameaçam tacar fogo nas casas dos indígenas que moram lá. Principalmente quando se relaciona a gente ter uma liderança indígena, que é mulher, então a gente precisa fazer esse recorte interseccional, porque por ela ser mulher, a violência não vai ser direcionada não somente por ela ser indígena, mas também por ela ser mulher e estar liderando uma luta que é pela terra. E hoje a terra é o maior ponto de conflito que a gente tem no Brasil. Claro que historicamente a terra também já era motivo de vários conflitos, mas hoje em meio a esses projetos de grandes empreendimentos, a terra é vista como essa mercadoria para ser disputada. E aí a cacica Dan, a gente observa principalmente nas ameaças que são feitas contra ela. E sempre tem uma ameaça por conta dela ser mulher. Então a aquela “índia véia”, aquela “cabeça de pena”. Tem muitas ameaças, já ameaçaram ela de facão. A mim nunca fizeram ameaças diretamente, mas eu já cheguei ao ponto de eu ter que privar meu Instagram. Porque eu tenho medo, como eu mexo bem na ferida, principalmente na escrita, eu faço muitas críticas e toco na ferida que é esse projeto do desenvolvimentismo. Então eu tenho medo, eu temo porque eu moro lá e, enfim, lá não é brincadeira quando a gente fala que a gente vive num Estado de exceção lá, porque os conflitos de terra, que acontecem lá, eles se expandem também pra cidade. Não é à toa que a gente tem todo esse medo, né? Essa autopreservação. É por isso que eu privei meu Instagram, porque às vezes quando eu postava alguma coisa relacionada ao negócio, vinha alguém, sabe? E já vinha com alguma provocação. Durante o contexto politico em 2022, que foi esse momento bem pesado lá, porque a gente tinha agronegociantes sendo os principais investidores na campanha do inelegível. Foi um cenário muito perigoso. Eu lembro na época que eu recebi ameaças por conta da campanha.

Mas é isso, levantamos uma bandeira e a gente sabe que hoje a política, o cenário nacional hoje é de uma agenda anti-indígena muito violenta, porque a gente tem um congresso que a todo momento vota em projetos de leis que são projetos de morte. Tanto a PL da Devastação, que é a de licenciamento ambiental, de flexibilizar, no Piauí já é flexível, imagine se isso for aprovado, e o Marco Temporal, que é a Lei 14.701, que acho que é uma das mais cruéis no sentido da política anti-indígena hoje.

ARISTIDES: Pra quem não conhece, o que seria o Marco Temporal?

É um projeto de lei que está tramitando na Câmara há décadas, mas que é uma política anti-indígena que diz que só quem tem direito ao território é de 1988 pra trás. Então quem, por exemplo, tá lutando pelo território de 1988 pra agora, pra essas décadas atuais, eles consideram como ou não indígenas ou que não tem direito a esses territórios. E que por isso eles podem abrir caminho pra mineração, grilagem e agronegócio. E isso fere os direitos indígenas em muitas camadas, desde a Constituição Federal, dos direitos do território, até a Organização Internacional do Trabalho, a OIT, que prevalece o direito à autodeclaração e o direito da reafirmação desses povos aos seus territórios ancestrais, e principalmente fere os indígenas do Nordeste, porque, ao contrário, por exemplo, dos indígenas do Norte e de outras regiões do Brasil, os processos de retomada e de luta para permanecer no território, às vezes, por exemplo, é pós-1988. Por exemplo, no Piauí, as mobilizações se iniciam na década de 90. Isso quer dizer que, se, no caso, essa lei for para a frente, for aprovada, os indígenas do Piauí não têm direito à demarcação de terra. É um problema porque no Piauí a gente não tem nenhum território demarcado ainda pela FUNAI. A gente tem alguns territórios titulados, mas demarcado via governo federal a gente ainda não tem nenhum. E o processo de demarcação por si só já é muito moroso, muito complicado, muito complexo. E aí imagina vir esse bombardeio de ambos os lados do Congresso, Senado, tentando impedir que as terras indígenas vão ou possam ser demarcadas e homologadas via governo federal.


ARISTIDES: Quando tu fala de política pública e passando por esse governo terrível do Bolsonaro e no final do governo Lula… A gente sabe que o executivo não governa sozinho, tem o congresso que dá as cartas também, mas independente do legislativo, que leitura tu faz do governo Lula 3, comparando com Bolsonaro. Ele fez alguma coisa que tu pode dizer assim, melhorou, piorou, se manteve?


Do movimento indígena em si, a gente está vendo uma série de críticas ao governo Lula porque se dizia ser o governo que ia atuar de mãos dadas com a causa indígena, porque ele criou o Ministério dos Povos Indígenas, colocou a FUNAI como uma presidenta indígena. Ele teve vários avanços nesse sentido, mas a gente tem uma série de problemas porque como a gente vê, o governo Lula é muito conciliatório, então um dos um dos pontos mais críticos que a gente teve foi a mesa de conciliação, por exemplo, o Marco Temporal, que queria se juntar agronegócio, mineração, grilagem para negociar com o movimento indígena, sendo que direitos indígenas não se negociam. A gente está vendo um cenário que tem muitas promessas, na verdade, teve muitas promessas que ia ter a Universidade Indígena sendo lançada esse ano, a gente não viu. Que ia ter um número X de terras demarcadas, a gente não tá vendo. E a gente tá vendo também um sucateamento histórico da FUNAI.

A gente esteve na FUNAI em março, e falamos a presidente e ela simplesmente chega e fala: “olha, é o seguinte, a FUNAI não tem quantidade suficiente de funcionários para fazer os grupos de trabalho”, que é para iniciar o processo de estudo, para posteriormente iniciar as outras etapas do processo de demarcação dos territórios no Piauí. “Estamos de mãos atadas”, foi essa a resposta que recebemos. Mesmo expondo o cenário dos conflitos, as mortes, as ameaças, enfim. O que estamos vendo é um governo que se vendeu enquanto progressista, pode-se dizer assim, que ia atuar pelas minorias, mas que não passou da representação. E a representação por si só não é suficiente, a gente precisa de ação. E tá encerrando o governo, e o que preocupa é porque, por mais que a gente tenha essas críticas, ainda é possível dialogar. O que preocupa é 2026. Quem é que vai assumir? Porque se a gente tiver um presidente totalmente anti-indígena, não vai ter nem como dialogar para reivindicar.

ARISTIDES: Quebra uma expectativa que foi criada.

Exato.

ARISTIDES: E a Sônia Guajajara? O que tu acha dela? Que avaliação tu faria da presença dela nessas políticas?

Eu não conheço muito de perto o trabalho da Sônia, mas ela no MPI, como eu falei, o MPI, assim como a FUNAI, são instituições que são importantíssimas. O MPI foi um ministério criado recentemente, mas que também carece de muitos ajustes, principalmente no que diz respeito a essa assistência. A questão da segurança nos territórios e a assistência aos indígenas no Nordeste, principalmente no Piauí. E o Piauí sofre com esse processo de exclusão ainda no cenário do movimento indígena nacional, porque o Piauí foi o último Estado a reconhecer legalmente a presença indígena no seu território, a se organizar também politicamente, a se organizar enquanto movimento, então isso tudo também dificultou e dificulta ainda o Piauí a se mostrar no movimento nacional e a mostrar suas pautas ainda para esses órgãos. A gente esteve também no MPI em março, fizemos uma reunião, expusemos os crimes ambientais, os crimes que as lideranças estavam sofrendo, mas ainda assim a gente sentiu a mesma coisa que na FUNAI, ou seja: posicionamento desencorajador. Com o MPI a gente sentiu um pouquinho de esperança, porém com aquela mesma história, “a gente ainda tá num processo de reestruturação, é um ministério novo, então a gente tem muita coisa, tem muita demanda, a gente tá priorizando as demandas que tão mais graves”, então parece que ainda tá na mesma, né? A FUNAI não existe aqui. não tem estrutura física, nem como estrutura do órgão.

ARISTIDES: Não existe nada que represente os povos indígenas dentro de política pública no Estado?

Não, no Estado até que tem a SASC, que tem a Superintendência de Igualdade Racial dos Povos Originários. A nível do Governo Estadual. Agora, Federal, é tudo vinculado ao Ceará. A Coordenação Regional Nordeste 2, que atua no Piauí, é vinculada ao Ceará. E na Saúde, a mesma coisa. Então, por exemplo, por isso que quando tem muitos conflitos aqui, na região Sudeste do Estado, quando essas reivindicações vão chegar lá na FUNAI Nordeste 2, que fica em Fortaleza, já é tarde demais, às vezes. E às vezes eles nem assistem, né? Eles não conseguem dar conta das demandas, porque ora a gente tem que estar atuando tanto no Ceará e no Piauí.

ARISTIDES: No teu artigo publicado recentemente na Revista Acrobata (O avesso do apagamento: a reexistência Akroá Gamela em Uruçuí-PI), tu diz assim: “Suas lutas por reconhecimento territorial e identitário desafiam não apenas o poder estabelecido, mas também a própria academia, exigindo uma renovação historiográfica que os coloque como agentes parceiros da sua história”. Além de ti, que outras pessoas, eu não quero nome de livro, eu digo, no âmbito acadêmico, que pessoas estão produzindo, falando, fazendo e tornando essa discussão mais aberta para o público em geral?

Temos o Grupo de Trabalhos Indígenas na História, que congrega vários pesquisadores de áreas afins. A gente tem a Helane Gomes, que é antropóloga e historiadora, que já vem desenvolvendo pesquisas desde 2016 com os Tabajara. O professor João Paulo, que já é mais conhecido, quando fala em crítica à historiografia sempre passa o texto dele, né? A professora Tatiana Oliveira, por mais que ela trabalhe com os indígenas no Espírito Santo, no período do século XIX, mas ela já tem muitos trabalhos, porque ela me orienta. A gente tem o professor Rafael Ricarte, Camila de Paula, Yan Dias. A Ana Suelen, que é uma grande amiga minha, a gente se conheceu inclusive num evento de história indígena em 2020, e ela trabalhou com um uma família indígena da região de Parnaíba. Eles estavam em processo de emergência étnica e estavam se autoafirmando como Tremembés, e aí ela tem um diálogo muito massa com eles. O TCC dela foi sobre isso, e hoje ela faz um estudo sobre os livros didáticos, sobre como a historiografia nos livros didáticos reproduziu essa crônica da extinção. Tem também a Lorena, que é antropóloga, que também faz essa pesquisa agora no doutorado, o Lucas Martins, que é um colega meu do mestrado, que pesquisa os indígenas Warao, que são indígenas refugiados em Teresina, e o processo de luta pela educação indígena.

Tem a Lorena Varão advogada. Acho que a tese de doutorado dela foi analisando como o Instituto de Terras do Piauí atua como um agente braço forte do Estado e se vende enquanto uma instituição que está ali para titular terras indígenas e quilombolas, mas que na verdade, por detrás tem um interesse muito maior do capitalismo, principalmente do capitalismo neoliberal nesses territórios.

ARISTIDES: Temos o saber da experiência como a gente vê com a Cacica Dan e tem o saber acadêmico, que também é fundamental, porque a universidade tá disseminando essas informações. Existe, na tua percepção, existe de fato um… como é que eu posso dizer, um contato desse saber da vivência com o saber acadêmico, esses povos indígenas no Piauí ou no Nordeste, os intelectuais, os estudiosos, eles compartilham esses saberes acadêmicos, eles circulam entre essas comunidades? Existe uma distância entre o saberes departamentais e os povos indígenas?

Eu acho que ainda tem muita coisa para ser feita no sentido de tornar essas informações circulando ali entre eles. Dentro do GT que eu citei, a gente hoje já tem um contato mais próximo, mais diálogo com as comunidades. Vai sair agora um livro em que os indígenas também vão escrever, participar. Não somente eu… nem gosto da palavra “objeto”, porque eu acho que isso distancia, né, a pessoa do que tá pesquisando. Literalmente, objeto. Mas é o que muitos pesquisadores tratam, as comunidades indígenas, principalmente como algo exótico, a ser estudado, a ser analisado. Mas hoje, eu vejo que grande parte desses pesquisadores que eu, pelo menos que eu citei, eles têm um contato, além de participar também como apoiadores do movimento, e de trazerem também essas pessoas pra dentro da universidade, mas de também levarem a universidade pra dentro das comunidades.

Ano passado a gente fez um evento lá na UESPI, vinculado ao curso de História. Fomos pra comunidade na Santa Teresa e levamos pesquisadores, professores e os alunos. Foi um momento muito essencial e necessário porque os alunos aprenderam, grande parte das coisas que eles aprenderam, eles nunca iam aprender em qualquer universidade da vida, que é o saber prático, o saber ancestral. Existe muito a se avançar ainda. Tem um processo muito grande de invisibilidade dentro de alguns espaços das universidades, dos cursos. Ainda tem uma visão muito romântica do que seria o indígena para esses pesquisadores. E ainda tem esse distanciamento. “Só vou aqui na comunidade, faço a pesquisa, produzo minha dissertação, minha tese e tchau. Nunca mais falo com a comunidade.” Comunidade sofrendo com violência, com tudo enquanto e o pesquisador usufruindo do seu título. Isso pra mim é a maior forma de violar e de ser realmente um saqueador, que nem os colonizadores. É algo que precisa ser desconstruído. E graças a uma movimentação e mobilização não somente do movimento indígena, mas também dos pesquisadores, a gente conseguiu que tivesse dois cursos de PARFOR no Piauí, que é o de Pedagogia Intercultural Indígena pela UFPI e de Licenciatura Intercultural Indígena pelo Instituto Federal do Piauí. Que isso faz com que a gente forme professores indígenas para atuar também não somente nas escolas, mas também nas universidades, que é o que a gente também quer.

ARISTIDES: Pra quem nunca visitou o Uruçuí, não tem uma mínima ideia onde é que fica, leu o texto da Rebeca e diz: “fiquei curioso pra saber mais sobre o Uruçuí”. Como é que, dentro dessa lógica do agronegócio, do desmatamento, da perseguição, como é que tu faria uma descrição da paisagem da cidade de uma forma geral? Como você descreveria pra um estrangeiro?

Quando não é deserto verde, é um deserto cinzento, que é o período em que as monoculturas estão secando, foram polidas. É um vasto deserto que você não vê fim. E você não vê um pé de árvore em pé. Se você passar mal naquela BR, você se roda, porque não tem um pé de árvore pra fazer sombra. É tudo monocultura. E as fazendas, uma aqui, outra ali, lá, uma ali, outra ali. E quando você passa desse cenário, toda vez que eu passo, por mais que eu tenha nascido e me criado, ainda é difícil de me acostumar, porque eu criança, lembro de ir para os interiores. Banhar de riacho e tudo. E é muito triste ver como a mudança da paisagem foi muito rápida. Eu tenho 24 anos, sou nova. Lembro que quando eu tinha 5, 4 anos, a gente até ali no final da cidade, mais ou menos, chegando em Antônio Almeida, tinha uma mata conservada.

Você conseguia ver aquela floresta do Cerrado. Hoje você não vê, não tem mais. O assentamento que a Dan mora hoje foi algo que eu me assustei, porque em 2015 o assentamento ainda era rodeado por florestas nativas, hoje é rodeado por fazendas e corredores do agronegócio. E você olha de um lado para o outro e não vê outra coisa.

Os únicos lugares que você vê ainda tem uma floresta de pé conservada são os interiores, as zonas rurais e os territórios indígenas. E é muito, muito triste ver o quão as pessoas naturalizaram esse projeto de devastação. Lá perto do assentamento hoje, esse ano foi inaugurada uma usina de bioenergia que terminou de destruir o restante de floresta que tinha, de mata nativa.

Agora a gente já tem um grande empreendimento que está chegando, que é uma granja de produtos aviários. E é só ladeira abaixo. Eu penso assim, que eles não tem mais onde desmatar e aí eles só vão subindo, subindo, subindo. Vão chegar aqui, depois vão chegar no Norte, porque não tem mais onde eles desmatar. Eles conseguiram realmente em pouco espaço de tempo mudar toda uma paisagem de biodiversidade e as pessoas simplesmente naturalizam, porque é isso que me deixa mais revoltada, são as pessoas naturalizarem esse processo de destruição da natureza.

O rio Parnaíba, o rio Uruçuí Preto e o rio Balsas são os três rios que banham o Uruçuí. Infelizmente, a gente tem a maioria da água comprometida. A gente não pode mais consumir diretamente porque, ou tá envenenada ou tá imprópria pra consumo. E com os riachos é a mesma coisa. A gente tem riachos, por exemplo, que era acostumada a banhar quando era criança, que hoje não posso banhar porque se eu banhar saio toda cheia de coceira. Tá cheio de veneno.

Então, é uma realidade que vejo que só vai se intensificando e se degradando. E o que eu falo pra quem vem, que quer conhecer Uruçuí? A primeira coisa é, é triste, não vou mentir, é feio, não é bonito, não acho nada daquilo bonito. E a única parte que ainda salva aquela cidade são as comunidades. Que ainda dá gosto de você ir, de você conhecer, de você visitar.

Arte: Rebeca Lopes.

E é muito rápido, o processo de devastação. Porque isso é muito assustador. Nessa linha do tempo, o ano que se devasta em grande escala, é no início dos anos 2000, que coincidentemente é a chegada dos gaúchos no território, em Uruçuí. Eles chegam nesse período. Eles criaram um distrito chamado Distrito Nova Santa Rosa, que faz alusão à cidade de Santa Rosa, lá no Rio Grande do Sul. E esse distrito foi criado no final da década de 90 e eles falam que lá é um pedaço do Sul do Piauí. E o mais bizarro é que hoje eles tem escola, posto de saúde de primeira linha e lá eles fazem uma barreira, como se fosse uma segregação, como se fosse um apartheid mesmo, em que eles colocam os filhos de um lado e os filhos dos trabalhadores de outro.

Temos casos de denúncia de merenda em que crianças filhas dos trabalhadores não merendavam na escola porque era proibido, só era para os filhos dos fazendeiros. Eles estão agora com o projeto de municipalizar, de tornar independente. É um projeto que eles já tem há anos.

ARISTIDES: Essa turma do Sul, em sua maioria possui DNA separatista.

Então, a quem serve o agronegócio? E fica a luta, né? Fica a luta.

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