Os Arquivos à Deriva de Jomard Muniz de Britto #8

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Jomard,  quando tinha 15 anos, foi convidado para escrever suas impressões cinematográficas em vários periódicos, como a Folha da Manhã (PE), Diário de Pernambuco (PE), Correio do Povo (PE), Revista Internacional Del Cinema (ESP), Correio da Paraíba (PB), Revista de Cinema (MG), Revista Mapa (BA) e Jornal do Brasil (RJ) e manteve estreita ligação com o circuito audiovisual que era exibido nos cinemas e cine clubes ao longo dos anos 50.

Vamos conhecer algumas crônicas que ele publicou nessa fase da sua vida intelectual.

PARTE II:

QUARTA-FEIRA, 17 DE FEVEREIRO DE 1954

Mundo de Luz e Som FILMES: Diário de Pernambuco.

“BRINQUEDO PROIBIDO” – Desde que assistimos a esta excepcional realização de René Clément que não conseguimos esquecer a figura angelical de Paulette carregando nos seus braços o cachorro Jock. A pequena Brigitte Fossey ficará com uma das maiores revelações infantis do cinema.

Ao conduzir os seus intérpretes, sobretudo crianças, Clément demonstra raro talento e sensibilidade, fazendo-nos recordar a maestria de Vittorio de Sicca orientando os atores não profissionais de “Ladrões de Bicicletas”.

Sobre “Brinquedo Proibido” muito poderá se escrever.

A poesia do filme contrasta com um profundo realismo e desta oposição nasce uma força extraordinária. Foi o que levou certo crítico europeu a falar em “neo-realismo” francês.

A poesia do filme está presente no “brinquedo proibido” das crianças construindo o “cemitério de animais e insetos”, o realismo no modo de retratar a vida dos camponeses franceses.

Alguns detalhes, como a mosca no copo, o amor carnal dos jovens amantes (Dollé e Gougard), são de grande preciosidade.

O trabalho de cenarização de Jean Aurenche e Pierre Bost, feito em colaboração com o diretor do filme, é de intensa plasticidade.

O trabalho fotográfico de Robert Suillard, uma verdadeira lição de angulação e composição. Os efeitos plásticos obtidos são magníficos.

O sublinhamento musical de Yelps, executado em guitarra, tem sentido funcional, vivendo na mais completa harmonia com imagens e o ritmo do filme.

“Brinquedo Proibido” vem nos demonstrar também, que não existe incompatibilidade entre público e o bom cinema.

Com esta realização, René Clément passará a ocupar um dos lugares de maior destaque na cinematografia contemporânea.

E o nome de Brigitte Fossey nunca será esquecido, pois ela continua a nos falar mesmo quando desaparece. – JOMARD MUNIZ DE BRITTO.

QUINTA-FEIRA, 18 DE FEVEREIRO DE 1954

Mundo de Luz e Som FILMES: Diário de Pernambuco.

“A GARDÊNIA AZUL” – Apesar de nos sentirmos inteiramente dominados pela obra-prima de René Clément, “Brinquedo Proibido”, que veio colocar o nosso público em contacto com o que há de melhor em matéria de cinema, não poderemos negar algumas palavras a este filme que o São Luiz, recentemente exibiu.

Dirigido pelo famoso cineasta alemão Fritz Lang que já realizou obras de grande envergadura, destacando-se entre elas: “Lilion”, “O vampiro de Dusserldorf”, “Fúria”, e “Vive-se uma só vez”.

Atualmente, Lang encontra-se em franca decadência. Os seus últimos filmes aqui apresentados, “Só a mulher peca” e “A gardênia azul” não possuem o vigor nem o valor cinematográfico das suas realizações anteriores.

Transcrevemos, a seguir, a opinião do crítico Ely Azeredo: “São tão familiares as situações de ‘A gardênia azul’, que temos a impressão de refilmagem. A Warner está refazendo inúmeras histórias antigas (‘Museu de Cera’, ‘A Star is Born”) e “A Gardênia” lembra muitos filmes, principalmente (salvo falha de memória) “A dália azul”, com Dan Duryea e June Vicent”.

O cenário, isto é o argumento na forma cinematográfica, foi mal desenvolvido.

Fritz Lang dirige os seus intérpretes com absoluta segurança. Anne bater, Ann Sother e Raymond Burr são ótimos.

Entretanto, a maior atração da película é a canção “Blue Gardenia”, interpretada por Nat “King” Cole. A fotografia de Murucaca é digna de destaque.

“O MALDITO” – filme de Joseph Losey, merece antenção, sobretudo por tratar-se da refilmagem de um clássico do cinema: “O vampiro de Dusseldorf”. Este cineasta já deu provas de talento realizando “The Lawless” e “The Prowler” – JOMARD MUNIZ DE BRITTO.

CLUBES – O Cine Clube Vigilant Cura do Recife exibirá, no próximo sábado, a película francesa “O casamento de Chiffon”, dirigida por Claude-Autant Lara, o realizador de “Adultera”. A sessão terá início às 19 horas.

“JÚLIO CESAR” ABRIRÁ O FESTIVAL CINEMATOGRÁFICO.

“Júlio Cesar”, a super-produção inspirada na famosa obra de Shakespeare, e que Mankiewiez dirigiu para metro-Goldwyn-Mayer, tendo Marlon Brando, James Mason, John Gielgud, Louis Calhern, Edmon O’ Brien, Creer Garson e Deborah Kerr como interpretes (filme que mereceu a honra de ser aceito para representar a M-G-M no Festival de Cinema do Brasil, em S. Paulo) marcará a abertura do Festival Cinematográfico Mundial da M-G-M e 11 de Março próximo acontecimento que promete ser o ponto alto das comemorações do Jubileu do 3º Aniversário da Marca do Leão.

Como se sabe, o Festival constará da estréia, de 11 a 17 de Março, de sete importantes filmes da M-G-M, um filme por dia, portanto, sendo que oportunamente esses filmes serão lançados de modo normal.

Os 3 cines metro do Rio, o Cine Metro e mais quatro cinemas de São Paulo, e várias outras casas – em Belo Horizonte, Curitiba, Ribeirão Preto, Salvador, Porto Alegre, etc. colaborarão desse modo nas comemorações do jubileu da M-G-M.

No Rio e em São Paulo, “Julio Cesar” abrirá o desfile das sete estrelas, é certo. E desse desfile constam filmes como “A Rainha Virgem” (Young Bess), “O prisioneiro de Zenda”, “A Rainha do mar”, etc. cartazes todos de grande destaque.

            SÁBADO, 20 DE NOVEMBRO DE 1954

Mundo de Luz e Som FILMES: Diário de Pernambuco.

“O MALDITO” – Refilmagem de um clássico do cinema “O vampiro de Dusseldorf”, que consagrou os nomes do cineasta alemão Fritz Lang e do ator Peter Lore.

Lang soube aproveitar o som com grande maestria, criando uma atmosfera impressionante, onde dominavam a angustia e o “suspense”.

Joseph Losey, responsável pela versão norte-americana realizou, apenas, um filme de forma bem cuidada e com um irrepreensível desempenho dos atores.

Entretanto, falta-lhe ação interior. Em nenhum momento Losey consegue nos transmitir o drama íntimo dos seus personagens.

Os inteligentes movimentos de “câmera”, o hábil emprego dos close-ups (primeiríssimos planos), os perfeitos contrastes em claro-escuro são pontos dignos de especial menção.

O grande mérito de Losey consiste na maneira como conduz os seus principais interpretes. David Wayne vive com rara sinceridade o papel que na versão original foi confiado a Peter Lore.

O roteiro musical assinado por Michel Michelet inoportuno em algumas cenas, de indiscutível valor em outras.

“A FAVORITA DOS DEUSES” – Já se foi o tempo em que Dorothy Lamour de “sarong” causara sensação nas plateias. Uma reprise desagradável esta que o Trianon nos apresentou. Se filmes como este são representantes, não seria muita exigência da nossa parte, pedimos aos exibidores que reprisem “Visitantes da noite”. “O boulevard do crime”, “Ladrões de Bicicletas”, “Paisá” e “Roma, cidade aberta”, películas de incontestáveis qualidades artísticas, verdadeiras obras-primas do cinema.

“INFÂMIA DE UM AMOR” – Um medíocre dramalhão conforme previmos.

“BRINQUEDO PROIBIDO” – Excepcional película francesa, aclamada pela crítica mundial, está atraindo grande massa de espectadores ao Parque.

Uma vitória da crítica especializada e do público contra a sua insensibilidade! – JOMARD MUNIZ DE BRITTO.

SÁBADO, 27 DE OUTUBRO DE 1954

Mundo de Luz e Som FILMES: Diário de Pernambuco.

“CONSIDERAÇÕES EM TORNO DE UMA DUPLA FAMOSA” – Os filmes da presente semana cinematográfica não concedem uma boa oportunidade ao cronista fazer os seus comentários.

A mediocridade domina de ponta a ponta. No parque, uma realização banal, apesar de ser dirigida pelo veterano cineasta alemão E. A. Dupont. No São Luiz, uma opereta filmada, ao que parece, sem reais qualidades cinemáticas. No Art-Palacio, um filme bem dirigido por Raoul Walsh, mas tolo e inconsequente em sua parte argumental.

O Trianon exibe uma fita que causou aborrecimentos ao Angelo. E, assim, se seguem os lançamentos desta tão inspirada semana cinematográfica…

Por isso, a nossa crônica de hoje está dedicada a uma famosa dupla: Luiz Bunuel e Salvador Dali.

O cineasta espanhol Luiz Bunuel, trabalhando em conjunto com o pintor surrealista Salvador Dali, formou uma das duplas que tiveram participação mais destacada na Avant Garde francesa. Essa escola surgida na pátria dos irmãos Lumiere visava tornar o cinema uma arte, e como tal, completamente autônoma, independente dos demais. Os jovens vanguardistas desejavam afastar, o mais possível, o cinema da sub-literatura, do teatro, da novela, etc. A 7ª arte, assim denominada pelo crítico italiano Riccioto Canudo, deveria encontrar os seus próprios meios de expressão: a imagem e o ritmo. E o que era mais importante: fazer uso deles.

O papel desempenhado pela dupla Bunuel-Salvador Dali, nesse movimento que teve a França como centro, é ressaltado em sua unanimidade pelos historiadores mais autorizados do cinema, entre os quais estão incluídos Sadoul, Zuniga, Maria Luz Morales, Fernandes Cuenca Pelayo e outros.

“A Idade do Ouro” (“L’age d’or”) e “O Cão Andaluz” (Le Chien Andaluz), realizados pela dupla são apontados por esses mesmos estudiosos como obras de valor inconfundível.

É verdade que não tivemos, ainda, o ensejo de assistí-los, no entanto, pelo que já lemos sobre o assunto, somos levados a considerar que se trata de filmes destituídos de interesses comerciais, somente apreciados pelas minorias, pelas “elites cinematográficas”, pelos assíduos frequentadores dos clubes de cinema.

Eram verdadeiras audácias e experiências cinematográficas. Muitas vezes, chegava-se a abolir o argumento, ficando, dessa maneira, o cinema privado de narrar uma história, um tema. Não sendo fitas destinadas à massa dos espectadores, as realizações da “Vanguarda Francesa” foram reservadas exclusivamente as filmotecas dos grandes Museus e a sua exibição limitada a círculos bem restritos.

Por meio dessas obras da “Avante Garde”, pela primeira vez tivemos a incompatibilidade entre o público e o cinema. Em consequência disso, a renomada escola francesa foi, aos poucos, perdendo os seus adeptos. Entretanto, a sua enorme contribuição para o desenvolvimento do cinema como meio de expressão artística não pode ser esquecida em nenhum capítulo sobre História dessa tão incompreendida e injustiçada 7ª arte.

Os dois filmes de Bunuel-Dali foram, talvez, os mais caóticos e audaciosos de todo movimento e conforme nos informa a grande maioria dos historiadores do cinema, eles procuravam explorar o erotismo. Além disso, essas realizações, em lugar de unir, serviam para dividir a plateia, dando margem para cada um racionar de modo diferente.

Com esta longa experiência, Luiz Bunuel adquiriu um perfeito domínio da técnica e chegou a compreender que o cinema, por sua natureza, não pode ser uma arte para “elites”.

Essas considerações surgiram a propósito da exibição de “O Bruto”, em pré-estreia, num dos nossos cinemas lançadores.

Trabalhando, atualmente, no México, Bunuel realizou com “El Bruto” uma das obras mais importantes da cinematografia azteca.

Apesar de algumas tendências da parte argumental para o dramalhão, o filme nos apresenta primorosas composições fotográficas e um vigoroso trabalho direcional.

O elenco liderado por Pedro Armendariz, que, interpretando a figura de Bruto, tem uma boa atuação. Por falta de espaço, deixamos de entrar em pormenores técnicos, o que faremos brevemente. –  JOMARD MUNIZ DE BRITTO.

CINE CLUBE DE CINEMA DO RECIFE

O Cine Clube do Recife exibirá, na próxima sexta-feira, 29, o filme japonês “Rasho Mon” dirigido por Akira Kurosawa e premiado no Festival de Veneza, 1951. A película será apresentada pelo cronista Glauco Campelo. Prosseguindo com seus programas fará exibir, no próximo dia 9 de novembro, uma série de desenhos animados da UPA, uma nova produtora que criou uma forma renovadora de fazer desenhos cinematográficos.

QUARTA-FEIRA, 27 DE OUTUBRO DE 1954

Mundo de Luz e Som FILMES: Diário de Pernambuco.

“RUA SEM SOL” – Depois de ter adquirido uma vasta e sólida cultura cinematográfica, além da experiência indispensável, Alex Vianny fez a sua transição do campo teórico ao prático. Seguia, desta maneira, o mesmo caminho traçado anteriormente por algumas das mais expressivas figuras da escola neo-realista italiana. A sua estreia como diretor cinematográfico efetivou-se com a realização de “Agulha no Palheiro”

            Apesar das deficiências apresentadas em sua parte argumentista, este filme, que foi a revelação de uma atriz de grandes possibilidades na pessoa de Doris Monteiro, tinha a seu favor uma coisa que em cinema nos parece fundamental (sobretudo quando se trata de cinema feito por iniciantes) e que era em sua simplicidade. Despretencioso, simples, “Agulha no Palheiro” foi, apontado, quase unanimemente pela crítica especializada como os primeiros passos de uma carreira promissora.

            Por isso, tínhamos razão para esperar algo mais de “Rua de Sol”, que está no cartaz de um dos nossos cinemas lançadores.

            Se em seu aspecto puramente formal, o novo filme de Alex Vianny é correto, fruto mesmo de um trabalho não improvisado, incluímos que, em relação ao argumento, são muito maiores as suas concessões ao gosto do grande público. O convencionalismo e o pieguismo conseguem dominá-lo da primeira até a última cena. De modo algum chega a convencer da jovem que se sacrifica e se humilha para o bem-estar da sua irmã cega. Levando-se em consideração a maneira como o cenário foi desenvolvido, o tema tornou-se ainda, mais inconveniente.

            Nesse caso, teríamos de assimilar alguns chavões reprováveis e que nos vêm revelar as tendências meramente comerciais do seu realizador: o fato do médico ter se apaixonado pela cega e vice-versa, expondo no filme abruptamente; o final cor de rosa, felicíssimo.

            Pondo à parte os lugares comuns contidos na parte argumental, logicamente, devemos ressaltar o grande mérito do conhecido cineasta brasileiro. Alex Vianny não é um aventureiro, um improvisador, como a maioria dos diretores que pululam nos estúdios da Atlântida e de muitas outras companhias nacionais. Tanto “Agulha no Palheiro” como “Rua sem sol” são duas obras bem estruturadas, pensadas e planificadas.

            Vianny tem a capacidade de saber empregar o diálogo com habilidade e precisão. Poderíamos dizer que os seus personagens “falam” bem, satisfazendo as exigências do cinema entendido como arte: eles não são filósofos me perdem o tempo com afirmativas tolas e inconsequentes.

            Ao orientar um elenco composto por grande número de estreantes, Alex Vianny demonstra, igualmente sua inteligência e sensibilidade. Assim, temos: uma Glauce Rocha expressiva, principalmente, numa das cenas finais, quando teve a notícia de que o médico havia recebido a bolsa de estudos para a Itália: uma sincera e brilhante Doris Monteiro vivendo com incontestável naturalidade o papel da irmã cega. Os desempenhos dos intérpretes masculinos são apenas razoáveis. – JOMARD MUNIZ DE BRITTO.

            “AMAZÔNIA INDOMÁVEL” – O Cine Clube “Vigilamti Cura” do Recife, exibirá em primeira mão no Recife, hoje, às 19h30 horas o filme “Amazônia Indomável”, de grande valor documental. A sessão, como sempre, terá lugar a rua do Riachuelo, 105.

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