Nuno Gonçalves Pereira é doutor em Estudos latino-americanos (UNAM), mestre em História (UFC) e graduado em história (UECE). Publicou os livros de poesia “Cacos de Cristo”, “O sol e a maldição”, “Canto das onças”, “Cartas de Navegação”, “Calabouço de reticências ou a aridez do oceano”, “Álbum de família & outros negativos: poemas pós-apocalipse” e “Dicionário dos medos imaginários: morfemas”. É professor-adjunto de História da América na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e atualmente vem desenvolvendo uma pesquisa sobre os conceitos teóricos de Antonio Cornejo Polar.
A cidade é Fortaleza. Virada para o atlântico, de costas às serras e os sertões que integram a província do Siará Grande. O ano é incerto, algum ponto que se move, indefinidamente, nos fins da década de noventa do século passado. Ela entra no ônibus e me entrega um sanduíche. A rodoviária nunca foi tão semelhante a um templo. Talvez dedicado a Nossa Senhora da Assunção – a que subiu aos céus em corpo e séculos depois nomeou o forte que pariu essa cidade. As luzes apagaram, o motor começou a fazer ruído e eu não dormi. Desci em algum lugar que eu não conhecia e peguei o primeiro ônibus em direção a qualquer lugar do centro. Fui parar na avenida Conde da Boa Vista, entrei no primeiro estabelecimento comercial que encontrei, uma farmácia, e pedi emprestado um catálogo telefônico. Anotei todos os números que correspondiam à família Guedes Pereira. Agradeci e fui enterrar fichas no orelhão. Existe alguém na sua família que se chamava Nuno e foi assassinado em Belém do Pará? – nunca antes tantas vezes haviam desligado a chamada na minha cara. Uma sucessão de recusas antencedeu a voz daquele que carrega de pia o nome do mensageiro grego. Você é meu primo! Onde você está? – caminhe até o cinema São Luís que estou chegando. Eu não sabia, mas o cinema estava às margens de um rio. O Jaguaribe havia seguido meus passos. Talvez para me proteger. Talvez para amparar minhas lágrimas, meu cansaço e minha mais nova e encantadora frustração. O mensageiro estacionou o automóvel e acenou para mim. Entrei no automóvel e iniciamos uma estranha peregrinação. Minhas tias, minha avó, fotografias, processos criminais e muitas outras coisas que nunca consegui descrever. A década de noventa havia ficado para trás, Fortaleza também. Encontrava-me em 1978, dezembro, cidade do Recife. Não sei como tinha ido parar na calçado onde o corpo de minha mãe despencou e perdeu a vivacidade. No exato lugar onde ela se fez pássaro e voou. Era o último dia da sua vida e o primeiro da minha. Aquela cidade ficaria para trás e com ela toda e qualquer referência sobre a figura de meu pai. Eu tinha um ano e sete meses. O país encontrava-se imerso numa ditadura civil-militar. Meu tio me levou junto com o cadáver de minha mãe para São Bernardo das Éguas Russas. Acho que foi a primeira vez que viajei de avião, mas como quase tudo só suspeito. Dizem que eu chorei e gritei por algumas semanas. Recordo apenas que eu me escondia. De tudo e de todos. Provavelmente de mim mesmo e de qualquer coisa que me recordasse quem eu era. De onde eu vinha. Do que havia visto e escutado. Da dor que seria minha melhor amiga da vida toda, minha mais fiel companheira e a fonte inesgotável das minhas ânsias de vida. Precisei ter duas filhas, uma profissão, um título de doutorado, algumas decepções amorosas e tanta bagagem mais para conseguir recordar algo daquele tempo. Assucena era recém-nascida. Eu e Alice a levamos a conhecer o mar. Praia da Paciência, cidade de Salvador, Bahia. O mar estava calmo. Havia gente banhando. Havia gente bronzeando. Havia gente tomando cerveja. Havia gente fumando uns baseados. Senti uma tontura, sentei e fechei os olhos. Era um bêbê outra vez e estava na praia de Piedade com duas mulheres jovens e bonitas que eu sabia que eram minhas tias, irmãs do meu pai. Abri os olhos, a tontura se foi como veio, olhei minhas Marias olhando o mar. Da Paciência à Piedade e da Piedade à Paciência em um átimo de segundo. Desfrutamos o momento, narrei à Alice o sucedido e, já no apartamento alugado, contei a Larissa. Antes disso minha reminiscência mais antiga era o dia em que recebi a visita de meu pai. Talvez inícios dos anos 80. Ainda estávamos mergulhados na ditadura civil-militar. Eu, meu pai, tia Neusa. Um ferrorama, praia do futuro, camarões no mucuripe, uma bicicleta e até nunca mais. Até nunca mais. Até nunca mais. Até nunca mais. Até nunca mais. Repetindo-se como um disco de vinil arranhado. Nunca mais. Nunca mais. Sempre. Um zumbido dentro. Incessante. Interminável. Agarrando-se à minha pele como um musgo resistente se agarra às pedras de uma corredeira. Infiltrando-se no meu sono e produzindo pesadelos intermináveis e repetitivos. Prisões, tiros, perseguições, assassinatos e medo, muito medo. Terror. Terror. Terror. Tremores súbitos, ausências contínuas, pânico incessante. 1977 foi se revelando ser meu ano que não se extinguia. Meu perverso e adorável animal de estimação. Meu cavalo selvagem e minha cachoeira de sangue. Os anos passaram e ele continuava presente. Tentei fugir. Tentei apagar. Tentei esquecê-lo. Tudo em vão. A vida sempre encontrava maneira de me conduzir aos seus braços. De formas que prefiro não relatar. Ou melhor: que não consigo relatar. Tudo trazia de volta o ocorrido. Até que a vida se fez insuportável. Demasiadamente insuportável. E as portas do inferno se escancararam. A ferrugem das dobradiças fez um som que reverberou em cada parte do meu corpo. Suor, tremores, pânico. A morte me chamava, acariciava-me os cabelos, tocava meu sexo, me seduzia e me convidava. Algo em mim a repudiava. Tentei afastá-la de inúmeras formas, todas inúteis. Acordei disposto a fazer algo. Caso ela vencesse o que me restaria fazer neste mundo? A pergunta exigia uma resposta imediata. Voltar no tempo. Ir à cidade do Recife. Reencontrar uma linha de força que havia sido cortada pela navalha da cronologia. Reencontrar uma vida que havia sido abortada e que poderia ter sido a minha. Com a roupa do corpo e aquele sanduíche que ela me entregou e nada mais. A morte comigo, dividindo o assento do ônibus e a insônia. Minha avó me submeteu a um interogatório digno de agente policial. Respondi a tudo. Tomamos vinho do Porto. Escrevi uma longa carta para ela. Não recordo o conteúdo. Talvez fosse um agradecimento pelo sanduíche. Talvez fosse um pedido de desculpas pela minha impotência de lidar com a vida, com o amor, com o presente e com a promessa. Talvez fosse uma maneira de me sentir vivo, de seguir vivo, de afirmar minha vida, de me proteger do mundo e de mim mesmo. O apartamento era imenso e de frente para o mar. A praia tinha placas avisando dos tubarões. Tudo ali parecia um museu, uma loja de antiquários e também um luxuoso túmulo erguido sobre areias movediças. Não chorei. Minha avó também não. Apenas me disse que sempre soube que eu voltaria. Que não sabia se estaria viva quando isso ocorresse. Retirou minha foto de um altar e depositou em outro. Eu não chorei, minhas tias sim. Elas estavam nos anos 90. Eu nos 70. Conversávamos, mas não nos entendíamos. Separava-nos um abismo de duas décadas, mas principalmente a ausência de uma linguagem comum. Habitávamos mundos distintos, línguas distintas. Não havia modo de erguer pontes entre meus medos imaginários, meu terror solitário e aquelas senhoras que o descortinar da coragem pusera ante minha presença. Apenas em Tânia algo flertava com algo de minhas intuições premonitórias. Apenas nela, em seus gestos, algo de reconhecimento, sutil e fugaz pressentimento de qualquer pertencimento parecia se anunciar. Ela me entregou os processos criminais. Vomitou suas memórias. Vomitou e vomitou. E tornou a vomitar. Havia muito de mim naquele vômito. Mas também havia muito de um ódio, de um ressentimento, de uma incompreenssão, de uma cegueira involuntária que se assemelhava à minha incapacidade de sentir, de entender. Apesar de inconsciente ela me exigia coragem. E se agitava. Esperneava. Vomitava. Recife, 1977. Meus pais vivos. Meus pais brigando. Minha mãe ouvindo Janis Joplin. O cinema São Luís. O apartamento mínimo. A avenida. Os automóveis. A ditadura. O maltado e as prostitutas da praça do Arsenal. Um artesão peruano. Um bancário cearense. Um cárcere transformado em mercado de arte. Um rio. Poetas cruzando pontes. Jóias que desapareceram. Nas mãos da mãe do mensageiro meu suor encontrou um sal em que quase se reconheceu. Anos depois. Margens de outro rio, Paraguassú. Assisto ao filme da vez. Sem grandes expectativas. A ditadura civil-militar. O ano de 1977. O cinema São Luís. A avenida Conde da Boa Vista. Informações estilhaçadas. Fragmentos e violência por todos os lados. Um mundo onde nada faz sentido. Uma mãe que desapareceu. Uma reunião de pessoas que usam nomes falsos. Um corpo que apodrece na beira da estrada. Uma perna cabeluda sem pé nem cabeça. Tudo me convida ao ônibus novamente. Algo me chama a regressar no tempo. Voltar ao que nunca passou. Olhar nos olhos de uma realidade que nunca se dissolveu. Abraçar meus mortos. Abraçar o abraço dos meus mortos. Abraçar a força que me afastou da morte. Tudo passa na minha mente como um filme. Muitos rios correndo em direção contrária ao mar. Afastando-se do destino que lhes foi imposto. Não consigo chorar. Vou até o fim. E no fim aparece um menino disfarçado de homem. Ele não sabe nada do que aconteceu. Ele não teve acesso aos arquivosque lhe são entregues pela pesquisadora. A voz de seu pai. O cinema. O abismo que o separa de quem ele poderia ter sido. A ditadura civil-militar. Os letreiros aparecem. Acabou. Chove em Cachoeira. Alguém deve estar chorando no inferno. Desligo a TV. O filme continua. Não sei mais se estou em Fortaleza, em Recife ou em Cachoeira. Nunca soube se Eliana realmente decidiu ser pássaro ou se foi empurrada num abismo de onde nunca regressaria. Nunca saberei como eram as mãos de quem atirou em Nuno. Nem como eram as mãos de quem atirou em quem atirou nele. Sei que ele era antiquário. Que carrego comigo seu nome desde a pia de batismo. Que nunca esqueci o copo de uísque nas mãos de meu avô na fotografia desse dia. Sei que minha madrinha preferiu se afastar e que foi o melhor que poderia ter feito. Que meu avô me levou ao prédio da prefeitura no dia das eleições e que votou pela continuidade da ditadura civil-militar. Que tia Tânia morreu de câncer e que tenho boas lembranças dela. Não sei se estou em 2026 ou 1978. Não sei se é março ou dezembro. Gostaria que fosse 31 de maio de 1977, mas o que eu gostaria nada importa. Nada importa. Nada importa. A vida não é um filme. A violência não é algo que se explica ou que se entende. A violência se vive. Cada um à sua maneira. De vez em quando acontece de sentirmos alguma tontura e enxergarmos coisas que pensávamos ter esquecido. Depois voltamos. Ao corpo. Ao tempo. Às cicatrizes que acumulamos no transcurso da vida. O sabor de um sanduíche. O ruído do motor de um ônibus. Os calafrios dos pesadelos que não findam. São coisas que vão ficando. Por dentro e por fora tudo vai virando estrela e noite. As pessoas vão sumindo. As paisagens vão desaparecendo. A ignorância de todas as coisas que nos fizeram ser o que somos vai nos esmagando como um trem de ferrorama esmaga uma criança que cruza o trilho com sua bicicleta. Arrumo a mochila. Esterco e borboletas. Reviso o carro. Água, óleo, pneus. Tudo quase pronto para regressar à cidade das Éguas Russas. Aos inícios da longa história de esquecimentos, mentiras e verdades negadas que carrego nos ombros. Os fantasmas da ditadura civil-militar estão mais vivos que nunca. O futuro é tão desconhecido e improvável quanto o passado. Mentiras, esquecimentos, verdades negadas, pesadelos e o terror profundo dos medos imaginários. Apesar de tudo sigo acreditando que é possível se refugiar em algum lugar próximo àquele corpo em que eu nasci. Àquele corpo que se viu obrigado a fechar-se em si mesmo para escapar da morte. Ainda penso no filho do agente secreto e nas coisas que acontecerão com ele depois de entrar no arquivo. Talvez ele também se depare com a incerteza e a desolação de saber que lhe roubaram o bem mais precioso da vida. E certamente entenderá que imaginar a verdade exige uma audácia e uma coragem ditintas às ordinárias. É que as verdades da imaginação são as folhas, os frutos, o caule, as raízes e as sementes da esperança – e ainda quando decrépitas e famélicas são nossa única proteção contra a violência subreptícia dos silêncios que assassinam infâncias. De alguma maneira a arte é uma forma de devolvermos a nós mesmos o chão que se dissolveu e a partir desse chão inventado podemos começar a arquitetar um mundo onde o sonho seja tão importante quanto a vigília e as coisas frágeis e vulneráveis recebam a devida atenção e acolhimento. O sanduíche, o ferrorama, a bicicleta, a mulher que virou pássaro e a bala que abateu o antiquário. Tudo que aconteceu um dia segue acontecendo. O carro está pronto. O coração bate mais forte. A borboleta pousa sobre meu ombro. E, outra vez, faço da estrada um templo imaculado: santuário de ilusões onde se sente com mais intensidade a dor do parto interminável das coisas que nunca terminam de nascer.
Nuno g. / Toróró, 30 de março de 2026.


