Sortilégios de um Homem Só – Um Conto de Adriano B. Espíndola Santos

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Adriano B. Espíndola Santos. Natural de Fortaleza, Ceará. Autor dos livros Flor no caos, 2018 (Desconcertos Editora), e Contículos de dores refratárias, 2020 (Editora Penalux). Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem prosas publicadas nas Revistas Berro, InComunidade, Lavoura, LiteraturaBr, Literatura & Fechadura, Mirada, Pixé, Ruído Manifesto, São Paulo Review e Vício Velho. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.


Em agosto passado, deixei a Rose pensar que eu estava muito mal. Só uma vez mais. Com sua habilidade em me ignorar, de se fazer de forte, já não perdia tanto tempo com insinuações vazias. Ela também é passada na casca do alho.

Da última vez, simplesmente decretou: “Para com essa frescura, rapaz! Seja homem, pelo menos uma vez!”. Aquilo, claro, me tocou; ainda tenho brio, dignidade. Mas nem por isso seria capaz de me convencer de uma audaciosa liberdade. Liberdade, liberdade mesmo, é coisa de gente atrevida. Prefiro dar um jeito de tê-la por perto; nada melhor que simular um passamento, uma indisposição ocasional. Normal. Contudo, todavia, verdade seja dita, tenho reforçado bastante na dose, para deixar o remorso aflorar.

Ela, pensei, não seria capaz de se desvencilhar dos meus feitiços de homem sedutor. Claro, não sou burro, guardo certo frescor da juventude. A coitada, com todo esse tempo, era o que eu esperava, teria se tornado uma carcaça oca.

Vazia de sentimento – e se esforça para demonstrar externamente –, no entanto, é manteiga derretida; uma pequena borboleta que se dissipa no vento. Uma vez a peguei em posição fetal, afundada no banheiro; nua, desprotegida. Fui eu, só eu, que a socorri; levei-a para a cama e deixa-a dormir. A dose cavalar do meu remédio fez efeito rapidinho. Mamão com açúcar. Mais uma estratégia cumprida e anotada. Enfim, velei seu sono.

Ela é safa, ainda creio, sabe dosar a potência do nosso amor, do meu imenso amor, e, por isso, sábia, quedou imóvel ao meu lado, para o nosso supremo bem, por todos esses anos.

Em dezembro, fui surpreendido com uma carga emocional que nunca imaginei que pudesse suportar: Rose me disse, sem sobreavisos, que precisava de um tempo para pensar. Mas como? Logo comigo, que dedico minha vida inteiramente à nossa família? – certo de que nossa família se resume a nós dois, o Toni, um gatinho que resgatamos da rua, num dia de chuva, e o Tinoco, um cachorrinho singular, nunca vi coisa igual, tamanha amorosidade, que chegou pelas mãos de nossa vizinha, a Lourdes: sem condições de cuidar nem de si, com medo de deixá-lo desamparado na rua ou com algum malfeitor, nos confiou o seu afeto.

Nesse ocaso de saudade, eu e nossos filhos, desnutridos e desidratados, reunimo-nos ao redor de uma mesinha improvisada, rente ao chão, agora no Natal, mantendo a tradição; duas velinhas suspensas, galeto, farofa e um punhado de peixe desfiado, para dissimular o desprezo ao qual fomos subjugados. Rose não sabe o mal que nos faz. Ou talvez o saiba, mas se recusa a aplacar a nossa dor. Egoísta. Foi assim que a chamei no derradeiro encontro, do qual ela saiu porta afora, desgrenhada, de certo arrasada, sem olhar para trás; sem deixar um pio sequer de salvação.

Os filhos são os que mais sofrem. Disso, sim, experimento profunda agonia. Sinto-me impotente, desumanizado. Ainda bem que têm um pai de responsabilidade e de respeito. Quem sabe, dadas as circunstâncias, nos entregaremos à doação de alguém com alma. Até Lourdes, nossa amiguinha abandonada – o apelido que carinhosamente a infligimos, só de gozação –, se juntou a nós; ou nós nos juntamos a ela. Nessas horas, somos barco a vela, arrebentado, sem direção.

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