3 Poema de Claudio Daniel

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Claudio Daniel é poeta, romancista, crítico literário e professor de literatura. Nasceu em 1962, na cidade de São Paulo (SP). Cursou o mestrado e o doutorado em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP). Realizou o pós-doutoramento em Teoria Literária pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi diretor adjunto da Casa das Rosas, Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, curador de Literatura no Centro Cultural São Paulo e colunista da revista CULT. Foi editor, por vinte anos, da revista eletrônica Zunái. Atualmente, ministra aulas online de criação literária no Laboratório de Criação Poética, é editor do Banquete, Jornal de Resenhas e Crítica Literária e é um dos coordenadores do programa Poesia na veia, transmitido pelo Youtube.  Publicou diversos livros de poesia, ensaio e ficção, entre eles Cadernos bestiais: breviário da tragédia brasileira, Portão 7, Marabô Obatalá, Sete olhos & outros poemas e Dialeto açafrão (sob a lua de Gaza), todos de poesia, o livro de contos Romanceiro de Dona Virgo e os romances Mojubá e A casa das encantadas.


KANNON

“Em três mil mundos, uma única flor
de ameixeira
floresce.”
Sob a Ponte Flutuante
do Céu
ponte de espuma
azul-celeste
que sai do Palácio de Jade
da Lua
a branca deusa da compaixão
escuta os gritos
do mundo flutuante.
Nascida de uma branca flor de lótus
ela estende
seus milhares de braços
(com um olho na palma
de cada mão)
para abraçar
os seres sencientes.
Que não a veem.
Que não a escutam.
Cegos guiados por cegos
por loucos cegos e surdos
por loucos mudos e mortos
para tudo o que é vida.
Ela escuta os gritos
escuros
de Gaza
ela escuta
os gritos
escuros
de Damasco
ela escuta
os gritos
escuros de Teerã
ela escuta
os gritos
escuros do mundo-desmundo.
Kannon segura um jarro
de água cristalina
para purificar
o mundo
flutuante.
Para libertar os seres do medo
sofrimento e dor.
Eles não a veem.
Eles não a escutam.
Cegos guiados por cegos
loucos, mudos e mortos.
Cegos
guiados por cegos
loucos
mudos
e mortos.


KALI

Ela, a Negra.
Mãe de todos
os mistérios.
Mulher
de múltiplos braços
e seios nus.
Ela, o Tempo.
Sua língua
que tudo devora.
Mãe Divina.
Em teu colo
colar de crânios de demônios;
em teu quadril
cinturão de mãos decepadas.
Ela, a Negra
coberta de cinzas
de cemitérios.
Mãe Divina
que tem o Senhor Shiva
deitado a seus pés.
Ela, a Negra.
Sua dança imita
a vibração do universo.
Ela viaja montada
no dorso do leão.
Ela dança, dança
com os cabelos
negros revoltos.
Ela que tudo sabe
e tudo vê
chorou neste dia.
Kali, a Deusa
chorou neste dia
neste fatídico dia
em que um míssil
matou
175 meninas
iranianas.
Ela molhou
sua guirlanda
com lágrimas
de fúria.
Kali não esquece.
Kali não perdoará
jamais.


2026

Riem
riem os corcundas
com as suas bocas tortas;
dedos de meia lua
dedos da ninfa seminua
que engoliu o sol. Tortos pés
não levam a lugar algum.
Mandíbula é o nome da era;
mandíbula é o nome da fera.
E nada faz sentido, disse o Senhor Nada
para a Senhora Nada. Bocas do nada
sorriem para os obesos mandatários do caos.
Há gralhas e goelas, garras e guelras
que cantam, cantam e cantam no escarnecer
do breu. Disse o Senhor Tempo à Senhora Morte:
Não há o que desentupa a bunda suja da bruxa.
Inútil como ensinar um cachorro a miar.
Sob um céu qualquer, sumidouro de serpentes najas
converte-se nas membranas da lua. E assim
a escrita o escuro o escarro esturricado de asuras
anuncia afinal o final de uma era tão medonha.

(Do livro inédito O amor é uma língua estrangeira)

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