José Elielton de Sousa nasceu e mora em Teresina, Piauí, e foi criado no interior – para onde sempre volta, ainda que na imaginação. É doutor em filosofia, professor e poeta. Publicou o livro As virtudes da responsabilidade compartilhada: uma ampliação da teoria das virtudes de Alasdair MacIntyre [Filosofia/Editora CRV, 2017] e participou da organização dos livros Hospitalidade Hermenêutica [Filosofia/Fundação Fênix, 2020], Filosofia e um monte de outras coisas [Ensaios/EDUFPI, 2019] e Do Centro da Margem: invenções contemporâneas deste lado de cá do mundo [Ensaios/Fundação Fênix, 2024]. Malinação (Primata/2025) é seu primeiro livro de poesia.
malinação
bicho besta é menino
prega cheiro nas manhãs
rindo-se delas molhadas
fala o léxico dos sapos
feito deus no sexto dia
quer desentortar os rios
com argila e cuspe-cola
põe-se em fuga de casa
por buracos de minhocas
fim de tarde vara o céu
qual metáfora num poema
dorme preso nas imagens
tal como o sertão na gente
malha fina
por entre nós
destinos atados no cais
e os barcos de chumbo no rio
caronte no espera-desfecho
remenda tarrafas de náilon
compradas nas feiras de rua
os peixes pescados há pouco
preenchem os cestos de palha
e fazem farturas alheias
as luzes
no canto dos olhos
a dança dos séculos
as guerras a peste a fome
o trem do progresso em marcha
sobre os escombros dos dias
monocultura de ideias
as chuvas de cinzas
apagaram da paisagem
todo azul do céu
a fuligem da ganância
escorria nas varandas
minerva
na boca da noite de lua
corujas em voos rasteiros
irrompem atalhos absurdos
as asas cansadas e rotas
aterram nos corpos um chão
por sobre razões em ruínas
os olhos alheios do tempo
assistem o tombo dos séculos
sob risos irônicos bárbaros
do lado de cá observamos
no céu do sertão interior
cometas riscando na noite
apolo no espaço celeste
envolta nos mitos solares
espia as loucuras humanas



