Estou no deserto, mas vou me encontrar com você – 6 Poemas de Nuno Gonçalves

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Nuno Gonçalves (Pernambuco, 1980). Nasci em Recife, mas sou cearense. Publiquei os livros de poesia: Cacos de Cristo, O sol e a maldição, Cartas de navegação e Calabouço de reticências ou a aridez do oceano. De prosa: O rio das onças. Recebi o Prêmio Ideal de Literatura com o conto O caminho da novena e com o poema O canto do anjo vermelho. Graduado em história pela UECE, mestre – na mesma disciplina – pela UFC & doutor em Estudios Latinoamericanos pela UNAM. Sou professor de história da América na UFRB, mas o que importa mesmo é que sou pai de Marialice.

# À exceção de “Romaria das inquietações” todos os títulos foram extraídos da obra “Linha M” da escritora Patti Smith.


Estou no deserto, mas vou me encontrar com você

Deixai teu corpo se entender com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, as almas não.

Manuel Bandeira


acabou o café, os cães sorriram
atrás de mim as cinzas e os carvões
memória de um fogo em memória
de um mar que troca de sal
como uma serpente troca de pele
atrás de mim um céu de cores contrastantes
memória de uma memória em ruínas
acabou o café, a onça regressou do passeio
na minha frente as águas do Paraguassú
e os telhados de uma cidade
que traz um tigre tatuado no braço
e um cristal junto aos cílios
feijão preto, jerimum de leite, batata doce
o amor das mãos, a folia dos corpos
e todas as boas maneiras de botar a girar um poema:
estás no deserto e vens me encontrar…


Não olhe para trás, não olhe para trás

Há alguma coisa escondida no tecido dessa cidade,
uma tessitura que produz uma sensação de boas-vindas misturada com desconfiança.

Patti Smith

sim, o amor das mãos e a saudável alegria da pele
rogando às estrelas uma temporada em outro planeta
e ao fogo todos os sonhos das águas
sim, teus cabelos cresceram outra vez
e se estenderam sobre os paralelepípedos dessa cidade
como sementes em areias movediças
ou um grilo no parapeito desta casa
sim, as águas da maré sobem esse rio
o fazem correr ao contrário
em direção ao lugar onde nascem todas as coisas
sim, houve uma voz que te disse venha
e suas mãos souberam caminhar entre os paralelepípedos dessa cabeça
como se a oferenda de chá, incenso e couve
perfumasse o domingo de axe e alfazema
sim, nas fantasias as coisas simples se manifestam sem embaraço
e ainda que saibamos que qualquer canto é menor que a vida de qualquer pessoa
terminamos por rogar outra vez aos desertos
a sede iluminada e o hálito irresistível
sim, uma lufada de ar é sempre alguma memória do paraíso


Romaria de inquietações

Senhora de Aparecida
ilumina a mina escura e funda
o trem da minha vida.

Renato Teixeira

a voz de Elis tangendo as palavras para o outro lado da montanha
é isso o que está acontecendo então?
Sim, é isso o que está acontecendo

e a intempérie dessa voz rompendo o véu do silêncio
Elis tecendo elegantemente as árvores do amanhecer
calando fundo no seio do nada e da tempestade
Sim, é exatamente isso o que está delicadamente acontecendo
e as chispas da fogueira se confundindo com os vaga-lumes do vale do Paraíba
é isso o que está acontecendo então?
Sim, é isso mesmo o que está acontecendo:
o silêncio branco acendendo um quilombo em festa
desfazendo o irremediável da inexistência
a voz de Elis tangendo a montanha para o outro lado das palavras
abrindo uma silenciosa clareira
entre as esperanças dos deuses abandonados
e as promessas das esquecidas divindades do porvir
não sei nada sobre a Guiana Francesa!
O único que me ocorre é que lá houve uma famigerada prisão
e que nossos corpos se entenderam tão bem
que se esqueceram das partidas de futebol,
dos avanços fascistas
e da abrasiva passagem do tempo

apenas a voz do silêncio e um tigre tatuado
farejando o cio de uma onça
na perfumada vastidão de um deserto oceânico


Vi um pouco de Tânger com seus olhos

Assum preto me responde,
o passado nunca mais.

Belchior

um nome árabe talhado à madeira do labirinto
e meus pés, guiados pelas mãos de Hermes, nos descaminhos do vento
um nome cercado de inamovível reverência
mergulhado em solução de éter em plena ebulição
um nome em sedimentação
pedindo, carinhosamente, uma pausa na cardíaca respiração
e meus árabes pés se deixando guiar pelo vento, pelo éter
pelo tempo das areias em sua necessária sedimentação
pela escura reverência aninhada em nossos corpos em plena ebulição:
nos ensinando a arte de deixar para trás labirintos, nomes e os fios de lã
das velhas roupas coloridas que já não nos servem mais


A ilha dos pássaros em extinção

Tudo se projeta para a frente.
Fotografa sua história.
Registra suas palavras.
Cerceia seus sons.

Patti Smith

a necessidade do mar brotando na árvore do instante
, à luz do fogo ainda mais amarelo meu semblante,
terna e doce ternura – à luz do fogo teu fogo torna ainda mais belo teu semblante,
a necessidade do instante brotando na árvore do mar
à luz do fogo as coisas simples puderam ser o que são
e, temporariamente, aboliram chão e razão
à luz do fogo o sussurro afiado do desejo
embalando a noite em melaço desprendido de um breve roçar de lábios
sob o cinturão de Órion, à luz esverdeada do fogo
o mesmo fogo que aqueceu o amor das mãos
e a saudável alegria da pele
sob o Cruzeiro do Sul, à luz esverdeada do fogo
tua boniteza se fez ainda mais bonita
e pequenos relâmpagos de estimação
saltaram dos teus lábios em direção aos meus,
à luz do fogo nossos corpos inauguraram uma ternura e um silêncio
e a necessidade da árvore se dissolveu no mar do instante


Aquela visão abriu a ferida do reconhecimento

As pedras continuavam lá
com fragmentos de terra da prisão.

Patti Smith

de estanho reluzente e laminado
o cinzel castanho e amolado
tatuou nos meus lábios os teus lábios

sobre o cio da onça parda
a pulsação do tigre acinzentado

o cinzel castanho e amolado
de estanho reluzente e laminado
tatuou em nossos corpos o absurdo da cidade

quem te soprou venha também me trouxe até aqui
desta vez não haverá rumores de neblina em nossos sonhos

Além.

6 comentários em “Estou no deserto, mas vou me encontrar com você – 6 Poemas de Nuno Gonçalves”

  1. Nuno foi o primeiro de nós a mergulhar no olho da poesia. É o poeta-jaguar que nos encarou e perguntou, “Num vem não?”. E não havia outra coisa a fazer senão ir. Nuno é a América Latina profunda, pulsando nos nossos sonhos de grandeza; não a grandeza esmagadora, projeção da nossa vil vaidade diplomática, a grandeza de ser água. Continuará no centro do furacão, onde fez morada, olhando as casas coloridas ao vapor de Cachoeiro.

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