Curadoria e tradução de Gladys Mendía
Jorge Ávalos (El Salvador, 1964) Escritor e fotógrafo salvadorenho. Editor da revista La Zebra [https://lazebra.net]. Como contista, venceu os dois principais prêmios centro-americanos de literatura: o Rogelio Sinán do Panamá, com La ciudad del deseo (2004), e o Monteforte Toledo da Guatemala, com El secreto del ángel (2012). Em 2009, recebeu o Prêmio Ovación de Teatro por sua peça La balada de Jimmy Rosa. Em 2015, estreou La canción de nuestros días, peça pelo qual o grupo Teatro Zebra recebeu o Prêmio Ovación 2014. Seu livro mais recente de poesia é El espejo hechizado (2024). Reuniu suas minificções completas em Clara y luna (2024) e seus contos fantásticos em La selva y el mar (2024). Sua obra narrativa está presente em diversas antologias de contos, entre elas Puertos abiertos, organizada por Sergio Ramírez (Fondo de Cultura Económica, México, 2012), e Universos Breves, editada por Francisca Noguerol (Instituto Cervantes & Cobogó, Brasil, 2023). Em El Salvador, recebeu cinco prêmios nacionais de literatura nos Jogos Florais, nas categorias de conto, ensaio e teatro.
PAISAGEM AO FINAL DO DIA
Este lixo que cai belamente.
Esta morte que te desenha com sua finíssima pena.
Esta canção melancólica que só tu escutas,
enquanto fumas,
no páramo fugaz da autoestrada.
Essas crianças, entre pausadas asas de gaivotas, que encontram
tesouros, retratos de esperança e vestígios de ternura
no poço final de tantos e tão quiméricos desejos.
Este lixo que cai.
Esta morte que te desenha.
Esta canção que só tu escutas.
Essas crianças que encontram tesouros.
Este lixo.
Esta morte.
Esta canção.
Essas crianças.
O ENCONTRO
Ama-me com cuidado, disseste.
Estavas em pedaços.
Naquela noite, amei teu braço esquerdo.
O tempo conteve-se.
A lua não brilhou como metáfora.
Algo estava mutilado.
O desejo, talvez.
Talvez a morte.
Não chores, disseste.
Podemos tentar nos beijar.
Já havíamos esgotado a beleza, o orgulho,
a vingança.
Movemo-nos como bocas lentas, bestiais.
E nos enchemos de seivas ácidas
e de lascívia escorrida.
Apegamo-nos à vida com um orgasmo.
A lua corou.
Os assassinos
voltaram às suas tocas.
Foi lindo, disseste.
Foi.
Graças a esta dor
e a esta língua compartilhada.
OS ESCAPISTAS
A noite floresce nos corpos nus,
nos cumes da pele o mundo se aviva
e lá no alto avermelha-se uma lua trêmula.
Algo semearam as bocas
alguma fome
resoluta e feroz
alguma sede insaciável
que permitiu o rasgo luminoso
dos versos.
O desejo foi, apenas,
o pretexto indomável:
uma máscara
para iludir o olhar insidioso da morte.
O toque foi ágil e azul
e irresistível, ademais,
e nos despiu
das sombras tímidas, da palavra cega,
dos olhares obscenos.
Descemos com cautela aos infernos
da carne.
Queríamos ser culpados.
Queríamos uma história, uma origem brutal.
Queríamos
esta suntuosa impunidade,
esta veemência violenta e graciosa
que só os amantes gozam.
Com o fio
dos lábios
quisemos nos cortar.
Com o suor
percorrermos a pele que nos sitiava.
Assim, com carícia ardente,
traçamos uma cartografia dos apetites carnais.
E as rotas que conquistamos
as desenhamos juntos
ao alcançar o cume
dos toques e venenos mais doces
da jornada feroz.
Cruzaram-se os medos,
os segredos mais dóceis,
desprenderam-se os verbos mais úmidos,
os desejos inquietos,
e confundiram-se entre si as vozes incertas
das consciências sacrificadas.
Alcançamos, por fim, a margem do tempo,
sua costa firme de lençóis ao vento
sobre as manchas de vinhos derramados.
Entre a noite e a aurora
caímos
em direção a outros céus.
Não seguimos o costume de nos curvar
aos espelhos do passado.
Tampouco nos enganamos com ilusões
porque só nos abrigamos
na oportunidade que o silêncio nos deu.
Trememos porque não nos vimos
ao abrir os olhos:
descobrimo-nos, antes,
convertidos à sede do possível.
Diz-me, pois,
anjo bravio e mortal
que voltaremos.
Diz-me que haveremos de voltar à cena
da nossa feliz transgressão:
àquele quarto onde
assombrados
sucumbiram dois audazes escapistas
que fomos
um dia
antes de sermos esta consciência
esta verdade inescapável e voraz
este golpe humano e mortal do amor deslumbrado.



