Curadoria e tradução de Gladys Mendía
Marta Kornblith (Lima, 1959 – Caracas, 1997) Poeta. Licenciada em Letras e Comunicação Social. De família judia, chegou a Caracas ainda criança. Formou-se na Universidade Central da Venezuela e participou de inúmeros workshops literários coordenados por figuras como Armando Rojas Guardia, Rafael Arráiz Lucca e Ida Gramcko. Foi integrante do grupo literário Eclepsidra. Autora de: Oraciones para un dios ausente (1995), El perdedor se lo lleva todo (1997), Sesión de endodoncia (1997). Em 1982, foi diagnosticada com esquizofrenia. Em 29 de maio de 1997, ela tirou sua própria vida ao se jogar do quinto andar. Foi antologiada nacional e internacionalmente. Sua Obra Completa foi reeditada e publicada pela Editora Eclepsidra no ano de 2016.
[BUSCO O AMOR]
Busco o amor
na canção
busco o amor
lá onde termina
a história.
Busco o amor
em tudo o que não sou
em tudo o que não posso.
[POR ISSO DEDICAMOS NOSSOS LIVROS]
Por isso dedicamos nossos livros
aos mortos.
Porque temos a vã convicção
de que nos ouvem.
Nós, cúmplices de ofícios
menos inocentes,
acreditamos que seremos deuses
em outros mundos
porque pensamos que a felicidade
é a distância do milagre
quando sonhamos com uma palavra,
quando vemos os aviões subindo.
[POR ISSO ME TORNEI POETA]
Por isso me tornei poeta
porque o tempo passa lentamente na solidão.
Não é apenas um perigoso instante
que sustenta nossa sanidade?
A loucura não depende
de nossa única, frágil corda?
Ela não pende de um único termo,
do termo preciso,
aquele que nos salva
ou nos condena?
[ÀS VEZES]
Às vezes
é preciso
voltar às lembranças
para anular a memória,
aniquilar vestígios,
outras vidas,
cumprimentar velhos laços,
decapitar antigos papéis,
naufragar de novo,
para que voltem a dizer
e não ter,
não possuir nada.
[ÀS VEZES]
Às vezes
a vida vem
como um maço de reis
e habitamos palácios
e impérios.
Às vezes
a vida vem
como a carta mais baixa
tocamos com outros transeuntes
a sujeira nas calçadas
habitamos as árvores, os pássaros
pedimos pão como os pobres.
Às vezes
a vida vem como a vileza.
Então nos agarramos à sorte
Freneticamente.
[QUEM PODE DIZER]
Quem pode dizer que perdi?
se a laranja não é menos laranja porque apodrece
se a árvore não é menos árvore porque se torce
se o hábito do céu nos cobre,
o hábito da manhã
o hábito do dia.
Tudo o que fizemos
frutuoso ou não
é nossa pele, nosso nome.
Não podemos percorrer todos os jardins
não podemos ter todos os silêncios.
Este caminho é nosso único caminho
nossas raízes se agarraram
ao ouro e ao barro
colhemos na podridão.
Nosso privilégio, nosso ganho
é o hábito e a viagem
é a isso que me refiro.


