Curadoria e tradução de Gladys Mendía
Javier Fuentes Vargas (Santa Ana, El Salvador, 7 de dezembro de 2000). Poeta e narrador. Estudante de Antropologia Sociocultural na Universidade de El Salvador. Publicou os livros de poesia: Vaho (FlowerSong Press, EUA); Desterrarse (Sión Editorial, Guatemala); e Origami (Editorial EquiZZero, El Salvador). É também autor das plaquetes poéticas La muerte llegará (Artesanos & Editores, El Salvador), Un lugar donde espero no morir sin conocer el odio (Incendio Plaquettes, Guatemala), e Para hacer tropezar a las hormigas (Proyecto Editorial La Chifurnia, Honduras), além da plaquete de microcontos Mal Cuerpo (La Chifurnia, Honduras). Seus poemas foram traduzidos para o inglês, esloveno e romeno. Participou de eventos e leituras nacionais e internacionais. Sua obra poética foi publicada em diversas revistas impressas e digitais da América Latina, Espanha, Eslovênia e Romênia, bem como em múltiplas antologias. Com o livro Origami, obteve menção honrosa no XIII Prêmio Centro-Americano de Poesia Ipso Facto 2023.
>> PRIMEIRA PARTE: ORIGAMI <<
Encontro um pássaro no papel e procuro
desesperadamente um ninho para que
não voe
Tramo, longe do frio que se apossa dos galhos,
uma espécie que se levanta a partir das canções
com seu próprio instrumento feito para o amanhecer.
Porque os pássaros que não nidificam
para enternecer os bosques,
os fios elétricos
ou os telhados,
serão uma pálida fragilidade
que se desfaz com a chuva.
Pensar em ti é como cheirar
uma rosa de papel
As rosas de papel são, de fato,
acesas demais para o peito.
JAIME GIL DE BIEDMA
Penso, com a lucidez à beira do espinho,
na brancura ressequida das pétalas
atadas com minhas mãos
ao botão do teu nome.
Minhas mãos, cansadas de te buscar
no papel,
na linha
e no ângulo.
Cansadas do limite da folha em que não estás,
empunharam um esquecimento igualmente frágil.
Pensar em ti é como cheirar uma rosa de papel,
como imitar o espelho: uma transação absurda.
A lembrança também
procura sua forma nas mãos de quem sente falta.
CULTIVO POEMAS DO TAMANHO DE UM BONSAI
I
Quando passo ao lado dele
treme, sacode as folhas
para não virar cinza,
oferece seu pequeno absinto
aos pássaros que estranham
o tamanho da sombra
à qual chegaram.
II
Concede os milagres ocultos
na estatura da floresta:
não abriga em seu tamanho
o mistério dos pássaros
que fazem seus ninhos nas alturas.
III
Apesar de
precisar ser cuidado por toda a vida
com a mesma ternura dedicada a um filho,
o poema-bonsai
escolhe ser domesticado
pelas mãos
com força suficiente
para domar uma fera.
IV
O bonsai, madeira triste e inútil,
não entende a razão
que o impede de aninhar em seu peito
uma folha de papel
que depois se transformaria
em figura para fazer rir as crianças.
V
Mesmo que, na mitologia dos despatriados,
seja conhecido como uma árvore condenada
ao cativeiro do jardim, o bonsai, orgulhoso de suas ondulações minuciosas,
propõe-se a ser o mais belo exemplar
para o deleite da crueldade.
VI
Os cães não esconderão sob sua sombra
o osso: recompensa por sua humanidade antinatural.
VII
Quando morre um bonsai
nasce um caixão
do tamanho de um recém-nascido.
>> SEGUNDA PARTE: MAPAS <<
IV
Do teu cadáver colho flores,
porque algo de jardim tinha o teu nome,
quando o pronunciava apressadamente
no corredor interminável da casa
que nos viu brincar nos umbrais das portas
de fazer e desfazer caminhos.
V
Percorri um continente a pé
para chegar até o fim do teu nome,
conhecer o esquecimento
e deitar-me sobre a faixa de cinzas
que me prometeram pelo teu corpo.
VI
Demorei a entender
que os jardins
não são espaços para cuidar
das flores.
São vitrines que exibem
as cores belas
que minhas mãos plantaram
para pedir perdão.
VII
O perdão é uma geografia acidentada
onde os cartógrafos não reconheceram o coração,
nem a posição da bílis sobre os territórios da culpa.
A culpa é uma aranha que nos espreita,
sussurra nossos nomes desde a noite
e tece sobre os olhos das crianças
cenas que não somos capazes
de traduzir com as mãos.
X
Não tenho casa
nem abraço.
Decidi que os confins da tinta
abririam os mares que agora me afogam,
mas a tinta não é minha,
nem a asfixia.
Irei embora devendo a morte.
Tomara alguém possa pagá-la
sem deixar a sua como garantia.
XIII
Anotei na tua mandíbula
o vermelho devir da morte:
um beijo deve sempre começar
com o anúncio do inevitável.
>> TERCEIRA PARTE: TESTEMUNHO <<
Por toda parte
a chuva distribui
seu testemunho:
pássaros que abraçados
enfrentaram o frio.
Do outro lado
da colina jazem
os ossos imóveis
de um cão que sinto falta
como se fosse meu filho.
As folhas secas
desfilam suas cores
sobre as formigas.
Ontem à noite soube
que este verão virá
sem a minha presença.



