Samar Shahdad escreve uma carta para o Oriente Médio

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Há quatro anos que converso com a poeta iraniana exilada na Inglaterra Samar Shahdad. Ela é apaixonada pelo Brasil e tem muito interesse pela nossa produção literária. Sempre que tem contato com alguma referência sobre nosso país, ela me escreve expressando a alegria de ter aqui como um lugar que ama.

“Venho de uma cidade chamada Shiraz, que é conhecida pelos seus jardins de rosas, poesia e sobretudo, pelo seu vinho, que infelizmente já não é produzido e servido desde a revolução (1979). Minha partida foi por amor, mas minha decisão de não voltar também foi por amor. O primeiro era por pessoa, e o segundo era para mim como mulher e poetisa. O primeiro não durou (como era de se esperar!) E o segundo continua crescendo!” Dedicada a pesquisar sobre Políticas e Estudos de Segurança no Oriente Médio, Samar explora temas associados ao exílio, como língua, identidade e pertencimento.

Trocamos uma ideia na entrevista “A tradução é um ato pelo qual declaro meu amor pela humanidade”: Samar Shahdad entre a literatura e o exílio, publicada no site em 2021. Nesse fogo que consome a humanidade, nossa escritora nos revela “que o povo iraniano está privado de suas liberdades civis e suas vozes políticas são constantemente atacadas por um regime que é contra tudo / qualquer um que carregue a vida (das crianças aos animais e à natureza). Nada me define, exceto o exílio. Não me vejo mais como uma mulher iraniana, nem o farsi como minha primeira língua. Qualquer país é meu país e qualquer língua pode ser minha língua, eu pertenço a todos os lugares e a lugar nenhum.”

Essa semana retomamos nossas conversas literárias e ela me pediu para publicar o poema “Uma carta para o Oriente Médio” e “Eu sou uma exilada e eu amo você”. Um recado para o Brasil que expressa suas inquietações diante dos últimos conflitos.

“I Am an Exile and I Love You”

I am an exile and I love you.
You, whose body is home
where I define the gravity of abandonment.
You, whose language is a bridge that walks me away
from the domain of silence
to which I am condemned.

You, whose eyes are two halves of a mirror
where I face the woman I used to be.
Where I glimpse the woman I could be.

I am an exile and I love you.

I am a child whose mother is yet to bear her,
a child whose father never returns home.
I am a woman whose hands are yet to be discovered.
I am a citizen whose country is yet to be built.

I am an exile and I love you.


Dedicated to “A”
15.06.25 3 p.m.
Leeds Sky Lounge

“Eu Sou uma Exilada e eu Amo Você”

Eu sou uma exilada e eu amo você.
Você, cujo corpo é meu lar
onde desafio a gravidade do abandono.
Você, cuja linguagem é uma ponte que me afasta
do domínio do silêncio
ao qual estou condenada.

Você, cujos olhos são duas metades de um espelho
onde encaro a mulher que eu costumava ser.
Onde vislumbro a mulher que eu poderia ser.

Eu sou uma exilada e eu amo você.

Eu sou uma criança cuja mãe ainda não a deu à luz,
uma criança cujo pai nunca volta para casa.
Eu sou uma mulher cujas mãos ainda estão por descobrir.
Eu sou uma cidadã cujo país ainda está por construir.

Eu sou uma exilada e eu amo você.


Dedicado a “A”
15/06/2025 15h
Leeds Sky Lounge

“A letter to the Middle East”

Return to my arms, they are your home.
The world is hungry for war
and your eyes are children who speak peace.

Look!
The world has gone in the wrong direction;
our only poets are politicians, selling us nuclear deals
and since I have lost the soft touch of your hands,
I write only of the hardness of stone.

It is not surprising though when lust and power lie in the bed
our leaders pleasure themselves with thoughts of nuclear war.
But I have slept a virgin through every long death-filled second, yearning to feel the beat of your heart beside me.
My child-like mind can not understand the disaster men have brought into being
and under my eyelids is an image that won’t go away;
an image of the soil that has thrown up blood,
and the earth that rejects its corpses.

Return to my arms.
I am deceiving of the alleys where children no longer play,
of roofs without kites,
of streets whose memories lack the scent of a woman,
of squares conquered by the revolutionary statues,
of martial states that strangle the song of hearts,
of borders that determine the geography of friendship,
of fires that are only ended on paper.

Sleeping alone with no lover,
I conceive in dreams,
and like a poem that is not read,
I am infertile.

Return to my arms.


Translated from Persian into English by Samar Shahdad and Kevin Holloway
.18.09.2018
Dedicated to C.G.

“Uma carta para o Oriente Médio”

Volte para os meus braços, eles são o seu lar.
O mundo está faminto por guerra
e seus olhos são crianças que falam de paz.

Veja!
O mundo seguiu na direção errada;
nossos únicos poetas são políticos, vendendo-nos acordos nucleares
e desde que perdi o toque suave de suas mãos,
escrevo apenas sobre a dureza da pedra.

Não é de se surpreender, porém, que quando a luxúria e o poder se deitam na cama
nossos líderes se deleitem com pensamentos de guerra nuclear.
Mas eu dormi virgem a cada longo segundo repleto de morte, ansiando por sentir a batida do seu coração ao meu lado.
Minha mente infantil não consegue compreender o desastre que os homens causaram
e sob minhas pálpebras há uma imagem que não desaparece;
uma imagem do solo que vomitou sangue,
e da terra que rejeita seus cadáveres.

Volte para os meus braços.
Tenho pavor dos becos onde as crianças não brincam mais,
dos telhados sem pipas,
das ruas cujas memórias carecem do perfume de uma mulher,
das praças conquistadas pelas estátuas revolucionárias,
dos estados marciais que estrangulam o canto dos corações,
das fronteiras que determinam a geografia da amizade,
dos incêndios que só se apagam no papel.

Dormindo sozinho sem amante,
não concebo sonhos,
e como um poema que não é lido,
sou infértil.

Volte para os meus braços.


Traduzido do persa para o inglês por Samar Shahdad e Kevin Holloway
.18.09.2018
Dedicado a C.G.

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