Maria Emanuelle. Montes Claros, Minas Gerais, 2000. É bióloga e mestranda em Biodiversidade na UNIMONTES. Seu livro de estreia “amarelo mostarda” foi publicado em 2024 pela editora Nauta. Tem poemas publicados em mais de 50 antologias e revistas em português, inglês e espanhol. Ganhou o segundo lugar do Prêmio Poesia Agora Verão 2021 (Trevo) e participou do Clipe Poesia 2023 na Casa das Rosas.
>> Poemas do livro Amarelo Mostarda <<
mesmo crescer no escuro é ir em direção à luz
tudo é pequenino,
para ver é necessário arregalar os olhos,
roubar o rosto do tempo
como quem pesca tamarindos
para com os dentes quebrar sua casca
e com a garganta chupar fortemente
seu sumo azedo
até subirem as canelas
múltiplos caules de muriçocas
respiração de bicho forte
faz ferida nas paisagens
alguns arqueólogos acreditam
que a idade das pedras lascadas
trata-se na verdade da idade das
pedras estilhaçadas a mudança se
dá porque acreditam que os primatas
não lascavam com atrito de lagarta
pedra por pedra e sim com os estilhaços
da queda faziam suas lanças.
lançaram o artigo com o título: fazer armas
com os estilhaços
que nos caem
namazu
os peixes-remo medem aproximadamente seis
metros. quando aparecem, dizem aos japoneses
que é tempo de terremotos. a gramática diz:
sua saída causa terremoto. o beiço diz: o terremoto
causa sua saída. hoje, quando se vê um peixe-remo
sabe-se que é tempo de terremotos e tsunamis.
as relações da causa e consequência do influxo
e efluxo de humanos, por outro lado, ainda não
são totalmente conhecidas. há quem diga
que todo humano é prelúdio de incêndio.
há quem acredite que toda carbonização
é prelúdio de humano. não se sabe se houve
guerra porque existem humanos ou existem
humanos porque houve guerra.
aos humanos quando os vemos
resta contar a lenda de um primata que corre como
planta se esconde como pirilampo contempla kintsugi
e sabe como provocar terremotos
chicletes tutti-frutti
andar sempre na ponta dos pés
descalça e silenciosa
sem olhar para os Reumatismos
não se pode despertar os Nomes
todos sob o tegumento de charcutarias
quieta, cada vez mais quieta
imóvel, translúcida, intocada
como a saudade grotesca das cristaleiras
podes beber nos meus copos
esta poeira na superfície
é do acúmulo de olhos
Algas Vermelhas
na primeira vez que entrei no rio
fechei os olhos e mergulhei profundamente
fiquei com gosto de areia e sangue na pele
passei então
a mergulhar como quem para a noite se despe
não completamente, apenas o suficiente
sabendo que tanto na noite quanto no rio
a Areia sempre vem
>> Poema do livro Foram os peixes a inaugurar a linguagem <<
foram os surubins a inaugurar a oralidade
I.
estranhas as tilápias
no teu rio,
matutas.
este tambaqui não é daqui,
bem sabes.
II.
ao abrir o rio
com as têmporas
sentes areias,
fluxo exógeno
de mexilhões-zebra.
III.
queres mergulhar na noite,
beber pirás e estrelas.
navegas no céu noturno,
cheio de fonemas.
IV.
também tu és
peixe-lanterna
criando luz nas têmporas,
para remar
na exsurgência
da escrita.
V.
conta a história
de teu bagre-pintado
aos pequenos
do teu território.
imortaliza o peixe
através da tua
história-memória
VI.
choram os astros
de memórias do piau.
e em teu olho d’água
nascem
palavras-piabas.
VII.
o ferro nos adjetivos
o cobre nos predicados
o alumínio nos sujeitos
são cacofonia nas várzeas
assoreadas-atingidas
da sua foz-voz.
VIII.
tu e o surubim
inauguram
com bexigas natatórias,
a mesma fonética.
reconquista a linguagem,
restaura a margem.
IX.
a água
te mostrará o caminho,
todo caminho é linguagem.
dela não sairás vivo,
sairás verbo.



