Curadoria e tradução de Gladys Mendía
Silvia Piranesi (San José, Costa Rica, 1979) é bibliotecária e bailarina de dança contemporânea. Publicou o livro de poemas No importa existe el viento (Ediciones Perro Azul) em 2009. Outros textos seus foram publicados no suplemento La Malacrianza do Semanario Universidad, na Revista Musaraña e na Revista Miércoles de poesía; bem como na antologia do VIII Encontro Internacional de Escritores Eunice Odio in memoriam, da Ediciones Arboleda, em 2011. Nos últimos cinco anos tem promovido diversas atividades literárias e culturais na Aliança Francesa de San José. Dirige, junto ao poeta Esteban Chinchilla, a Editorial Ambigú.
SITUAÇÃO DAS ROTAS
Do teto, um silêncio. Da rua, um martelo. A construção do assobio negro assediando. Aqui sentada, escuto a fumaça vertical, a rota dos pratos sujos, o tempo Rilke convertido em transe convertido em anjo terrível. Ouço que se aproxima, transe o instante de cometer uma fotografia. A fotografia persiste como romance geográfico do terror, a mão gira e aciona o motor justo quando a minha passa ao lado escutando. Justo queima a lâmpada à 1:00 da manhã. Justo o desabamento da linha elétrica, ouço o morto, derrubando a cidade que desaparece em massa colonial, enforcado cada edifício por máquinas rígidas, sujas. Ou é eco o meu quarto. Eco terreno. Bloco maciço de concreto que se assenta na ponte em descida. A noite volumosa por onde gira um animal enlouquecido. Não é a chuva. Ou é a chuva de quatro patas rasgando o teto sobre a minha cama. O teto vivo. Martelando. Ou o anjo terrível em mergulho ponte abaixo. A ponte, minha cama. Meu rosto, a chuva. A parede que colapsa. Nas mãos, a surra lenta. Tudo se pode dizer para não dizer este método síncope do medo.
A DISTÂNCIA NÃO BASTA
Pelos trens, a amplitude do exílio. Eu os seguia, a longa distância se chega a todos os lugares, os circuitos de paisagens inteligentemente repartidos e a farsa de duvidar se este ou aquele trecho. Convencer a cerca, o dito e não dito nessas grades, porque segue crescendo o negro do Atlântico. Faltava muito tempo na janela, uma escassez precipitando-se no vasto. Batendo nela não se descarrila.


