Curadoria e tradução de Gladys Mendía
Sergio García Zamora (Cuba, 1986). Licenciado em Filologia Hispânica. Autor de numerosos livros de poesia, entre os quais se destacam: Resurrección del cisne (Prêmio “Rubén Darío”, Fundo Editorial do Instituto Nicaraguense de Cultura, 2016); El frío de vivir (Prêmio “Loewe” de Criação Jovem, Visor Libros, 2017; Prêmio da Crítica Literária em Cuba, 2ª ed. Editorial Capiro, 2018); Diario del buen recluso (Prêmio “Gabriel Celaya”, Editorial Erein, 2017); La canción del crucificado (Prêmio “Blas de Otero” de Majadahonda, Sonámbulos Ediciones, 2018); Los uniformes (Prêmio “Jorge Manrique”, Ediciones Cálamo, 2019) e Los conspiradores (Prêmio “Juan Alcaide”, Editorial Verbum, 2020). Fundador do Grupo Literário La estrella en germen.
O ALUCINADO
Mãe, vou enlouquecer, mas volto. O que mais te preocupa: quanto demoro a enlouquecer ou quanto demoro a voltar da loucura? A viagem é de trem, de avião, de navio; trem e avião e navio dentro de mim, nave estelar e submarino dentro de mim. A viagem acontece dentro de mim enquanto pedalo minha bicicleta de carteiro pelo vilarejo. Passarei pelas estações e portos para buscar o rapaz louco de cada povoado. Suas mães me confiarão eles como a crianças. Pedem que nada lhes aconteça, que não voltem lúcidos. E entendo as mães como entendo a minha, porque de tanto cuidar da loucura de seus filhos, já não saberiam cuidar da sanidade deles. Vejo-os subir e sorrir para mim. Erguem o chapéu como se erguessem a tampa dos miolos. Debaixo do chapéu é primavera, alguns exibem um ninho com filhotes; outros, borboletas e maçãs. Nunca há dois loucos iguais, mesmo sendo loucura. Meus companheiros de viagem sobem com suas malas. Nelas trazem duas camisas de força para se trocar caso manchem com o café envenenado. Jogaremos guerra como os soldados fingem ser loucos. Todos os dias vencemos na frente de batalha, mas não sai nos jornais. Todos os dias sobrevivemos a nós mesmos. Mãe, vou enlouquecer, mas volto. Não se preocupe, minha mãe, pois sou o capitão deste regimento.
O INQUILINO
A noite inteira um balanço. Deus na poltrona das constelações, estrelas como avelãs estalam sob o arco, viram pó, que amêndoa a luz das estrelas mortas, que amêndoa amarga para a boca doce de Deus e da amada.
A noite inteira um balanço. A Via Láctea embala seus planetas, adormece carregada de filhos, as luas cantam, os mortos ouvem a música das esferas, os corpos se embalam em suas órbitas, mas o sol não pisca nem ao contar planetas.
A noite inteira um balanço. O tempo, deve ser o tempo, seu pêndulo universal, sua roda de pedra, sua mó que gira e regira o mesmo, sua nora sonora e eterna.
A noite inteira um balanço. O insone interroga o vai-e-vem da memória como um barco que bate onda após onda no cais, amarrado como um cavalo a um poste de sombra. É isso: o balanço da infância, cavalinho de madeira feito de barco quebrado, de remo rachado nas costas da morte.
A noite inteira um balanço no andar de cima. Mas de repente, silêncio. Ficou uma fratura no ar, sem ritmo nem palavra. Um silêncio de estrela fixa que se devora a si mesma, que se suplanta a si mesma em sua fixidez. Um silêncio como a extinção do universo, um silêncio fora do tempo, um silêncio feito homem, não sobre a face das águas, mas na margem. Um silêncio que não me deixa dormir, dormir, dormir. Nem aos outros deixa despertar.
ARENGA AO POETA FUTURO
Poetas que virão!
WALT WHITMAN
I
Os antologistas saberão me colher. Não lavraram nem semearam, mas ninguém poderá negar-lhes esse agosto. Cortarão os versos e separarão o trigo do joio. Farão seu pão com meus poemas. Esse alimento estará na boca de outros. De muitos outros, ou de alguns poucos, que importa. Tu e eu fomos como o sol e a chuva: fizemos crescer o que havia em nós. Os antologistas buscarão uma fôrma para a massa. E colocarão sal. Só peço a esses bons padeiros que não deixem minha alma tempo demais no forno.
II
Em mim aconteceram revoluções que só eu presenciei, mas não saberia dizer o que mudou. Minha vaidade instaura sua ditadura. A revolução que sou vira a repressão que não sou. E começo a me perseguir, a me encarcerar, a me torturar, a morrer sem delatar os outros que virão. Outros virão, estou certo. Então chegará a velhice do país que sou. E outra vez serei criança. As crianças nada sabem de política, apenas de amor.
III
A ti, que saberás se venci ou se perdi: um homem faz uma pergunta ao universo, mas jamais fica para escutar a resposta. A ti, irmão sombrio, confio a voz das estrelas. Minha tarefa é preocupar-me com o que ainda não existe, mas que é mais real que minha existência. Porque tu respiras sem respirar, eu respiro. E o coração volta ao coração. Faço tudo pensando no instante onde jamais estarei, mas com a certeza de que tu não faltarás.



