Curadoria e tradução de Floriano Martins
Escritora, acadêmica, pesquisadora, palestrante e poeta mexicana, possui dois mestrados pela Espanha e recebeu três doutorados honoris causa. Até o momento, publicou 26 livros de poesia e três livros de ensaios. Sua obra foi incluída em diversas antologias, revistas e jornais nacionais e internacionais, e seus poemas foram traduzidos para mais de 10 idiomas. Recebeu vários prêmios, entre os quais a Medalha Pavlovich Korolev na Rússia (2023), o Prêmio Internacional de Literatura Alejandra Pizarnik na Espanha (2024), o Prêmio Il Canto di Dafne na Itália (2024), o Prêmio de Jornalismo do México (2024), o Prêmio Internacional de Literatura Erótica Anaïs Nin na Espanha (2025) e o Prêmio Aristóteles de Pensamento e Ensaio na Espanha (2025). Ela é colunista do Diario de Madrid e do jornal El Capitalino, no México, e apresenta um programa de rádio na IMER chamado Mujeres a la tribuna. Dirige ciclos, conferências e oficinas na Capela Alfonsina (INBAL), no Museu da Mulher (UNAM), no Ateneu Espanhol e na Academia de História (UNAM). É presidente da Academia Nacional de Perspectiva de Gênero da Legião de Honra Nacional do México e diretora do Centro de Estudos da Mulher e do Festival Internacional Mulheres nas Letras da Academia Nacional de História e Geografia da UNAM.
NAUFRÁGIO
Todos que morrem têm razão,
o ferro ataca
as dimensões possíveis.
Uma trégua agonizante
no canto da memória.
A realidade emperra,
ela habita
coisas cotidianas desgastadas.
O medo das noites era real,
um rumor,
uma pena terrível,
um espaço que me nega.
Eu teria pensado
no meu corpo coberto de cacos de vidro.
Agora, na janela,
um cheiro de besta,
úmido,
prestes a morrer,
devora o céu com seu crânio,
como se conhecesse as profundezas
do ar livre,
sua tristeza.
ANTES DE TUA PARTIDA
Talvez eu esteja cansada,
e os fios do vento
me despem,
sussurrando a garoa de espectros.
Acostumado ao silêncio,
intimido o acaso sob a mesa
e me deito sobre sua sombra
para amortecer meus golpes de incerteza
no travesseiro imóvel
dos anos.
HOJE SOMOS NOITE E NADA
Nossa retórica,
testemunha indecifrável
da noite e do dia,
é uma chama desconhecida
que nos justifica.
Entre os restos do sol e agora sem corpo,
não há senão um sedimento do mundo
nos distraindo,
um único instante imóvel
que prende nossos olhos,
um destino que nos transforma em memórias
no céu aberto,
seu próprio delírio
conduz a noite ao erro em profecias.
Um sonho familiar espreita,
um labirinto infinito de relógios,
seu passo disperso na memória
é apenas uma palavra, uma data abstrata
atrasada,
uma substância infame,
vento petrificado.
Avanço incansavelmente e te contenho,
seu corpo confirma
nosso amado pária,
esculpindo instantes contra a terra.
TEMPOS MELHORES
I
Cidade livre
mãe do mundo
onde não há labirintos
Mas as crianças jazem com a garganta exausta
para não verem sua realidade
Agora elas são
vendedoras de fetiches
de estrelas e ossos
II
Eu também falo de sangue
Eu navego imóvel
silencioso
Minha paixão é feita de sombras delirantes
Minha juventude chora na rua
na noite de cada dia
e a aurora nunca chega
BORDA DAS CANÇÕES
Busco a borda inconsciente
que o tempo penetra,
desliza contra a parede
e desaba
sonolentamente,
exausta.
O teto devora
espelhos impacientes de silêncio,
as canções que ameaçam e fascinam.
O abismo está suspenso,
desejo, terror,
espasmo imundo,
penas negras,
longo silêncio de fumaça.
E tu,
noite da porta,
emaranhando
os destroços da espera.
DESLOCAMENTO
Apalpo a noite
que chega cedo,
meu corpo, mal um suspiro,
estou morta?
Esta noite não há lugar,
a lua acima,
sozinha.
Entre as frestas, o silêncio imenso
é um relâmpago ardente,
meus sonhos falam de marés negras,
redenção do tempo aniquilado.
Pensamento recém-nascido,
que arrasta sua corrente.
Sinais ambidestros
colapsam seus olhos desdobrados,
são vestígios de paredes hesitantes,
memória que o espelho turva.
Meu próprio delírio se ergue,
me acaricia, me ataca.



