Curadoria e tradução de Gladys Mendía
Reynaldo Bordas (Telica, León, Nicarágua, 1989). Poeta, jornalista, fotógrafo, formado em Ciências Sociais, locutor de programas culturais e facilitador de arte infantil e juvenil. Publicou livros de poesia: Muestra Poesía Joven – El material de tus sueños (2015), Promotora Cultural Leonesa; Ojo Loca (2024), Editorial Ojo de Cuervo, El Salvador. Também participa de antologias e revistas impressas e digitais de circulação nacional e internacional.
SE NÃO CONSIGO DORMIR
Você me convidou para sua casa,
o quarto é confortável e você dorme como se
tivesse morrido.
Eu não consigo dormir. E de pé, pareço
a estátua de uma virgem manchada pelos pássaros.
Temo acender as luzes, pois perturbariam o olho dos
vizinhos
e na escuridão não distingo nada.
Tateando, aproximo-me do espelho e descubro espíritos
que se deleitam com a insônia e vêm pousar como
em um mosquiteiro.
Nesta hora em que um galo canta,
sinto a piedade do dia e a terra oprime com seu calor.
Se não consigo dormir, é porque gosto de ver como
você abre os olhos
e estende o braço em minha direção, parecido ao portão de um
cemitério. Repasso os espíritos que retornam ao espelho,
sacudidos por tua voz, quando perguntas: “O que
acontece?”
Não respondo, mas tenho certeza de que desta casa
logo partirei.
TRÂMITE
Para Ricardo Ríos
Nesta república, não sou mais do que um código de barras.
Meus dados pessoais perdem sua temporalidade e seu
valor
na minha cédula de identidade,
então vá
e solicite o documento público
que comprove a data e a hora da minha morte.
Quando o registrador estender minha certidão de óbito
leve-a para minha mãe.
Muitos trâmites virão, lembrando-os
de que agora atendo pelo nome de eternidade.
TESTEMUNHO
Aos 21 anos, nunca soube que ser lésbica exige
cuidado.
Três homens e uma mulher me estupraram,
me cortaram e desapareceram com minha cabeça.
Continuam livres, por isso meu sangue é um rosário sem fim.
O rádio informa em última hora:
«Decapitada e envolta num lençol, foi encontrada
o corpo de uma mulher nas margens da Praia Miramar.
As autoridades já estão investigando».
O formol e os cosméticos cobrem as violações que
sofri.
Assim me darão sepultura cristã. Minha cruz dá testemunho.
PROMESSA DE RETORNO
Jesus, sou Pedro, estou no século XXI e não tenho
notícias tuas. Quando vais voltar?
Na igreja dizem que existes
no ventre de uma pomba.
Procurei-te nos protestos por aumento de salário.
Pintei num muro de prédio público:
“Não à exploração trabalhista”,
mas infelizmente a polícia me deteve.
Resigno-me, sei que não virás como um santero que
arranca com a boca a cabeça de um galo para ser abençoado.
Soube na prisão que a caminho do trabalho foste
assassinado por ser homossexual.
Eu, que tantas vezes te neguei…
Vejo-te caminhar nos meus sonhos
com passos de carpinteiro sobre o lago de Tiberíades,
e depois me convidas a subir em tua barca
chamando-te “pescador de homens”.
Se soubesses que por tudo isso te tornaste o pastor
dos meus medos e acreditei em tua promessa de retorno.



