Por Januário Sacavento
A poesia contemporânea frequentemente se depara com o desafio de mapear as fraturas da identidade em um mundo marcado por deslocamentos geográficos e traumas individuais. No livro Ao relento / A la intemperie (2025), da escritora colombiana Eliana Maldonado Cano, esse mapeamento não se dá por meio de concessões líricas idealizadas, mas pela exposição crua do ser à intempérie da existência. Conforme pontua cirurgicamente Luis Fernando Cuartas em seu prefácio à obra, a escrita de Maldonado recusa o estado narcótico de autocontemplação. Em vez de buscar um espelho confortável para o ego, a poeta utiliza a palavra como um bisturi que escava os escombros da memória, operando o que Cuartas define como uma desapropriação e um profundo rompimento da existência. A partir dessa chave de leitura filosófica, compreende-se que o livro se edifica sobre dois pilares fundamentais: o corpo transmutado em território de dores indizíveis e a linguagem do exílio, que tateia o silêncio em busca de uma ancoragem ancestral.
Os aspectos mais tensos a que dá atenção a força poética de Eliana Maldonado Cano são: o corpo como território de trauma e ausência, o desterro e a identidade estrangeira, a desintegração do tempo e da memória e a reconexão com a natureza ancestral. Observando cada um desses tópicos podemos considerar que o corpo da voz lírica não é apenas biológico; é uma geografia de feridas e um inventário de ausências (poema 3). No duríssimo poema 11, o corpo torna-se o local do pânico e da violação física, onde as unhas negras e duras do invasor transformam a identidade em lixo e vazio, configurando um dos ápices dramáticos e confessionais do livro.
Em seguida temos que a condição de imigrante nos Estados Unidos (mencionada na biografia e detalhada no poema 40, que narra sua chegada em uma noite fria e chuvosa de março) ecoa o sentimento de não pertencer a lugar nenhum. A língua nativa se afunda nas veias porque ninguém aqui a entende (poema 44), gerando uma escrita feita de palavras que caem como cinzas (poema 5). Cabe também dizer que o tempo na obra é um elemento estático e cruel (O tempo não passa, ele permanece, poema 28). Os relógios quebrados (poema 25) simbolizam o fim da expectativa. A memória surge como um muro que se racha silenciosamente (poema 33), resgatando a infância, o cheiro de leite quente e as figuras trágicas da mãe e da avó.
Por último consideremos que nos poemas finais há uma virada mística de cura. Ao perder o próprio nome, a poeta encontra abrigo no ecossistema (conectando-se ao micélio dos fungos) e na geografia sagrada americana (Lago Cado, Monte Ozark e os espíritos Caddo), onde a solidão deixa de ser um fardo para virar pertencimento.
A tradução de Floriano Martins preserva com precisão o tom cortante, seco e melancólico do original em espanhol. O uso de versos curtos e frases diretas, quase sem pontuação rígida, acentua a sensação de desamparo e falta de fôlego provocada pela dor (Afundar também é uma forma de fé, poema 24). A transição da desolação urbana para o misticismo florestal confere ao livro um arco narrativo muito bem amarrado.
O prefácio de Luis Fernando Cuartas, intitulado “Eliana Maldonado, uma arte ao relento”, não funciona apenas como uma introdução formal, mas como uma verdadeira chave de leitura filosófica e existencial para penetrar na densa névoa de dor e desamparo que cobre os 46 poemas da obra. Cuartas decifra a linguagem da autora a partir de conceitos profundos, mapeando como a geografia física e a geografia da alma se fundem em um estado de exposição absoluta aos elementos do mundo. Ele abre seu argumento definindo a poética de Eliana como uma arte desprovida de tetos, refúgios seguros ou bolhas protetoras. Estar ao relento (a la intemperie) significa habitar a crueza da realidade sem as ilusões do ego. O prefaciador faz uma distinção crucial: a poesia aqui não se entrega ao estado narcótico de autocontemplação ou à busca romântica de rever-se em espelhos d’água. É, antes, um olhar honesto sobre as ruínas e escombros das estações da vida.
Esse argumento se materializa perfeitamente no quarto poema da coletânea: Observo meu rosto na água, / O reflexo é apenas a sombra / que se cansa de me imitar. Aqui, o espelho d’água desmorona. A autoimagem não gera prazer ou autoconhecimento; ela se dissolve, e a identidade se reduz ao espaço vazio de uma fotografia rasgada na memória de terceiros. Outro ponto central do ensaio de Cuartas é a ideia de que nossas vidas não foram feitas para serem decifradas, mas vividas através de fendas e vazios. Ele define o corpo na poesia de Maldonado como um inventário de ausências — o que resta daquilo que já se foi ou está em permanente fuga. Para o prefaciador, a força do livro reside na materialidade de cicatrizes não curadas; um corpo cheio de feridas que possuem voz própria.
No poema 3, por exemplo, a voz lírica assume o exato diagnóstico do prefácio: Meu corpo: / um inventário de ausências, / uma geografia de feridas / que sangram, / e ardem. O espaço doméstico exterior imita a ruína carnal: o quarto vazio, a xícara quebrada e a carta lacrada sem resposta são a extensão material desse corpo que se transformou em pura falta.
Luis Fernando Cuartas, que compartilhou anos de trabalho com a autora na rádio cultural da Universidade Nacional da Colômbia, joga luz sobre o forte componente biográfico do livro: a condição migratória. Para ele, o exílio de Eliana gera uma Babel de outros momentos, um estado onde as palavras perdem o sentido, caem como cinzas e o migrante se torna um estrangeiro do próprio clima, com palavras presas entre mandíbulas trêmulas de frio. Cuartas argumenta ainda sobre a dor do clima e o silêncio denso ganha corpo no poema 6: Aqui também me sinto estrangeira, / como se meu corpo não conhecesse / o idioma do clima. / O frio não abandona os ossos. Essa sensação atinge o ápice documental, segundo ele, no poema 40, quando ela descreve sua chegada em março com apenas uma mala de roupas usadas e suas canetas-tinteiro, deparando-se com uma estação dilapidada e o silêncio hostil de uma terra rica que a recebe com desamparo. A linguagem, como diz Cuartas, torna-se insuficiente: a dor atua como aquele som agudo que nos lembra da dor, sem precisar ser explicitada.
O prefácio identifica ainda um ato místico e silencioso na poesia de Maldonado. Trata-se de um retorno laico às orações da infância como um recurso desesperado de sobrevivência, uma prece direcionada a deuses menores, destituídos de qualquer infâmia ou onipotência. Diante de um universo que não sabe como lê-la, a poeta constrói seu próprio território na solidão. Por último, Cuartas faz questão de destacar o poema 17 do país particular, que sintetiza essa mística do isolamento: Há um país em mim / onde ninguém quer viver. […] não há fortes nem castelos, / nem montanhas nem rios, / deserto e poeira por toda parte. Ao delimitar que a única língua falada ali é o esquecimento, Eliana Maldonado abre sua própria condição existencial para o leitor como laranjas amassadas contra paredes, transformando a violência do desterro em pura potência lírica.
Em última análise, Ao relento consolida-se como uma das obras mais contundentes de Eliana Maldonado Cano, justamente por sua capacidade de converter o desterro físico e psicológico em alta voltagem poética. Ao abrir sua casa poética e abrir-se para o micélio e para os espíritos ancestrais da terra que a acolhe, Maldonado prova que afundar na dor também pode ser uma forma de fé. Sob os cuidados da edição bilíngue da MamaQuilla, a obra sobrevive não como um lamento de autocomiseração, mas como o registro pulsante de uma voz que, mesmo ao relento, resgata a dignidade humana por meio do espanto e da palavra.
JANUÁRIO SACAVENTO (Antares, 1959) é cronista anfíbio, patafísico de fim de semana e ex-aluno emérito do Lyceo Pytanga, onde obteve grau dez na nobre arte da cola criativa. Dedicou as últimas décadas a catalogar manuais cosmográficos invisíveis e a decifrar profecias de sineiros corcundas. Paira sobre ele a acusação de haver contrabandeado um manuscrito inédito do Conde Lotrak direto para os porões do Vapor Velox. Sacavento, no entanto, é um sobrevivente de três naufrágios tipográficos e colecionador de fitas K-7 borradas, atualmente exercendo o cargo fictício de diretor de resenhas do Boggo del Pallone.

