.Libre feiras de livros independentes e a defesa da bibliodiversidade

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HAROLDO CERAVOLO SEREZA (SP) doutor em Literatura Brasileira pela USP e presidente da Libre (gestões 2011-2013 e 2013-2015).

Ilustrações de Júlio Vieira


Em 2001, um grupo de 58 editores organizou, no Jóquei Clube do Rio de Janeiro, uma feira de livros que se opunha ao modelo da Bienal. Para se diferenciar do “grande evento” que ficava cada vez mais proibitivo para pequenos e médios expositores, o grupo definiu algumas regras que reforçassem o caráter cooperativo e igualitário, reduzindo o espaço para ações agressivas de marketing e de concorrência desleal. O catálogo dessa feira, nomeada Primavera dos Livros, afirmava:

Inseridas ativamente numa camada significativa do mercado, as editoras aqui reunidas assumem um compromisso diante do leitor: o compromisso de sempre tratar o livro como um objeto cultural, como algo diferenciado dentro de um universo particular — a indústria do livro. Dessa busca em oferecer ao leitor catálogos que funcionem como opções às obviedades mercadológicas surgiu esta feira de livros que, esperamos, funcionará como uma festa onde leitores, autores e editores se encontrarão tendo o livro como personagem principal.

Essa feira foi objeto de uma reportagem de capa do Segundo Caderno do jornal O Globo (9/10/2001), intitulada “A vez dos diferentes”. Seu nascimento é lembrado em O livro no Brasil: sua história, que a chama de “minibienal” e registra o comparecimento das editoras Boitempo, Casa da Palavra, Contraponto, Cosac & Naify, Garamond, Hedra, Iluminuras e Navy, “com dez mil pessoas comprando, em média, um livro cada, e as livrarias aumentaram em 40% as encomendas das editoras participantes. Mais do que uma “minibienal”, nascia uma ideia de realização colaborativa de negócios e de uma rede de discussão sobre o papel do editor independente, suas relações com o mercado, estratégias de sobrevivência e de crescimento. Um ano depois, a Primavera já era resultado da atuação de uma entidade, a Libre – Liga Brasileira de Editoras. O catálogo da edição de 2002, usado para as edições carioca, também no Jóquei, e paulista, no Centro Cultural São Paulo, celebra o surgimento dessa “associação de pequenos e médios editores, iniciativa inédita que pretende estabelecer um fórum constante de discussão e apoio à produção editorial”. As Primaveras no Rio foram sempre anuais. As de São Paulo não foram tão regulares – em 2014, está prevista a realização da décima edição. A Libre também organizou, por quatro anos seguidos (desde 2011), a Feira do Livro de Osasco.

A característica mais forte desses eventos, mesmo quanto ocorreu na Livraria Cultura (2010), foi o desejo de construir, tanto quanto possível, um espaço igualitário (estandes com tamanhos idênticos, e as editoras podendo ocupar, no máximo, dois deles), cedido por um preço razoável, entrada gratuita e ampla participação de editoras independentes. Em geral, as feiras organizadas pela Libre ocorreram em espaços públicos, muitas vezes cedidos por instituições que têm interesse em receber visitantes e promover a ideia da bibliodiversidade (uma adaptação, surgida na América Latina, da ideia de biodiversidade: ou seja, no mundo do livro, um cenário dinâmico e vivo é o que apresenta uma grande variedade de autores, editoras e leitores em permanente troca; nos últimos anos, essa ideia se expandiu para uma representação da sociodiversidade e das minorias, o que pode ser percebido na fala do professor da USP Paulo Daniel Farah, editor da Bibliaspa, na discussão do Plano Municipal do Livro e Leitura da cidade de São Paulo). Embora as feiras da Libre tenham hoje peso econômico relevante para a vida das editoras, elas nunca perderam seu sentido original: promover um projeto de mercado livreiro em que se valorize a diferença, a colaboração e condições de competição justas. Num certo sentido, pode-se dizer que, mais do que revelar como deveriam ser, não as feiras, elas procuram difundir um ideal desse mercado. É um movimento contraditório. As feiras de editoras, num certo sentido, subvertem o dia a dia desse mercado, que existe com a participação de editores, distribuidores e livra-rias. O sucesso, no entanto, é também revelador de que há problemas estruturais nele. É importante, assim, incluir nessa análise o fato de que a Primavera dos Livros não foi a única feira do gênero que prosperou durante os anos 2000. Paralelamente a ela, cresceu também a Feira da USP, organizada pela Edusp. O evento também é marcado pela simplicidade, pela presença de inúmeras editoras independentes e também das universitárias, e é um sucesso especialmente entre estudantes – e até mesmo livreiros, que ali conseguem descontos de 50%, contra os normalmente 35% ou 40% praticados por editores e distribuidores para compras pequenas. Há editoras e até membros diretores da Libre que se posicionam de forma contrária à realização desses eventos. Acham que eles enfraquecem a cadeia produtiva do livro. Ao quebrar as correntes Editoras–Distribuidoras–Livrarias–Leitor. Nós, no entanto, julgamos que ele o fortalece. De forma reduzida, pode-se dizer que:

1 – O Brasil, historicamente, não conseguiu montar uma rede de livrarias e bibliotecas que atenda à demanda de leitura dos brasileiros;

2 – Na última década, ocorreu uma corrida “suicida” do
mercado livreiro. Reproduz-se no Brasil um modelo que está acabando com as lojas de livros nos EUA, a saber:
a) ampliações dos descontos internos na cadeia a “patamares” esmagam a lucratividade das editoras e distribuidoras; b) concentração das livrarias em grandes redes, o que favorece enormemente as ampliações dos descontos;
c) redução das compras pelas grandes redes, em favor de consignações; d) ampliações dos prazos de pagamento;
e) bestsellerização das livrarias e das áreas de exposição;
f) vendas dos espaços de destaque nas livrarias.

O financiamento de cadeia do livro se dá, assim, no sentindo inverso ao acesso ao capital de giro. Grandes redes, que poderiam pagar baixas taxas de juros, empurram o risco para pequenas e médias empresas, que pagam taxas mais altas, necessariamente. Isso tem um impacto direto no preço final do livro, comprado em livraria ou não, porque os juros são um dos principais componentes do custo de produção de um livro, talvez mais até que a mão de obra, porque o livro, em papel ou mesmo digital, se realiza como mercadoria num prazo longo. Retomando a célebre fórmula D-M-D’, o tempo de mercadoria do livro é, comparado com outros setores da economia, longo, o que significa que o capital ampliado por sua venda, o D’, demora a se concretizar. Esse tempo tem de ser financiado, e quando mais caro for esse financiamento, maior o preço final do livro, com consequências para sua diversidade e para a sua circulação.

Esses processos combinados ”pasteurizam” as livrarias, especialmente as grandes redes. Elas crescem e passam a movimentar mais dinheiro, mas, ao mesmo tempo, ficam previsíveis, chatas, afastam o consumidor constante em nome da redução dos custos com financiamento e trabalho e do giro rápido do bestseller, um fenômeno que é percebido, muitas vezes por meio de sentimento de incômodo não muito claro, pelos grandes consumidores de livros. A título de exemplo, creio que vale a pena transcrever um post de um erudito professor de ciência política da Unicamp, pouco versado no mercado editorial, que, depois de passar um ano pesquisando nos Estados Unidos, postou em sua página no Facebook:

Depois de quase um ano, visitei a mais prestigiada livraria de São Paulo. Nada mudou. Cinquenta tons de cinza na gôndola central, cercado de uma montanha de obviedades. Dentre os livros destacados na seção de filosofia, estavam as reedições das obras escolhidas de Walter Benjamin (Brasiliense), os diálogos de Platão (Ufpa) e a velha versão de A Democracia na América, de Tocqueville (Itatiaia), publicações pra lá de antigas. Ao lado, alguns livrinhos de ocasião e os indefectíveis Bauman e Zizek. Divertida mesmo é a capa de mais um livro do astrólogo, que anunciava: “Olavo de Carvalho: o mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”. Torço para que ele consiga, mas sou pessimista com os resultados. Apenas três lançamentos me chamaram a atenção: a ousada publicação de O idiota da famiília (Sartre), pela LPM; os dois volumes de Joaquim Nabuco, correspondente internacional, pela Global. O terceiro esqueci qual era. Os editores precisam se esforçar mais em 2014.

Um colega da USP, com passagem pelo setor, antes de assumir o posto na
universidade, respondeu:

A Cultura virou uma espécie de livraria de aeroporto… livros de viagem, livros de imagem, CDs e DVDs, e quando você chega nas estantes de Livros (com L), é uma pobreza intelectual… Enfim, um espaço enorme para tudo, menos para Livros. Inclusive acho que não faz jus ao que as editoras brasileiras publicam, apenas algumas grandes podem entrar no esquema (muitas vezes pago) para expor os livros…

Ao mesmo tempo, o processo de bestsellerização das livrarias faz com que algumas das melhores editoras do país, do ponto de vista da produção cultural, percam acesso às gôndolas – as estantes das grandes livrarias funcionam cada vez mais como as gôndolas de um supermercado – e não conseguiam sequer informar o público leitor sobre seus livros.

Neste processo, em que a concentração livreira leva à morte da instituição livraria, as feiras de livro “igualitárias” da Libre se estabelecem com forma de resistência. A venda direta capitaliza, ainda que momentaneamente, as pequenas e médias editoras, que podem, assim, negociar em melhores condições com as grandes redes – indiretamente, esse processo ajuda a manter um nível de concorrência razoável, inclusive para o pequeno livreiro, que tem nos megadescontos das redes seu principal concorrente.

Evidentemente, essas feiras que a Libre e as editoras universitárias promovem têm uma alcance limitado. Elas funcionam como elemento que chama a atenção para problemas estruturais do negócio do livro no país, mas não são capazes, sozinhas, de resolver os problemas.

Esse debate e essa avaliação não é obra apenas do autor desse artigo. Na verdade, é resultado de uma longa construção dentro da Libre. Contribuíram nesse processo, além da circulação de artigos, discursos em eventos, entrevistas a jornais, também a edição de, pelo menos, dois livros pela entidade: um de tom bastante prático e programático, e outro que defendeu uma das principais bandeiras da entidade, a adoção do preço fixo do livro, seguindo, sobretudo, o modelo francês de exceção cultural .

A defesa do preço fixo, que limita os descontos ao consumidor final, favorecendo as pequenas livrarias, foi, junto com o conceito de bibliodiversidade, a principal contribuição da Libre no debate do mercado livreiro no país. Para além disso, uma rede de e-mails bastante simples, mas muito eficaz, coloca hoje cerca de 120 editores independentes em contato diário, com discussões sobre descontos, práticas profissionais, contatos, etc. A rede é, tanto quanto possível, não mediada, o que significa que, todos os dias, de alguma forma, essas 120 empresas colaboram entre si.

A discussão do preço fixo não avançou completamente, mas a palavra bibliodiversidade foi incorporada ao discurso e mesmo à prática de gestores públicos, especialmente nas compras de livros no âmbito federal. A participação brasileira na Feira de Frankfurt, em 2014, foi profundamente influenciada pela ideia. Após algumas discussões envolvendo entidades do livro, como a Câmara Brasileira do Livro, o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, a Associação Brasileira de Editores Universitário, além de integrantes da Fundação Biblioteca Nacional, adotou-se o critério de que o espaço coletivo, pago com recursos públicos, fosse dividido da forma mais igualitária possível.

Após uma avaliação do “potencial exportador” de cada um dos editores, realizado pela empresa Apex – Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, as editoras receberam espaços de 1, 2 ou 3 prateleiras, não mais do que isso. A palavra bibliodiversidade foi lembrada em vários momentos do processo, e a Libre foi convidada a escrever um dos textos de apresentação do catálogo. Nele, afirmava:

O Brasil conta com a maior associação de editores independentes do mundo, a LIBRE – Liga Brasileira de Editores. São 117 empresas que trocam, diariamente, informações e saberes por meio de uma rede própria, fazendo negócios de forma colaborativa. Entre essas editoras, encontram-se alguns dos melhores selos editorais do país. Dependendo da área de atuação, é nelas que se encontram o melhor da produção literária e ensaística do país, para adultos e crianças.

Os anos 2000, e em especial o início dos anos 2010, significaram uma forte transformação no mercado editorial. Houve um avanço rápido do uso de novas tecnologias na produção editorial e, mais recentemente, nas formas de difusão dos livros. Em alguns países, como Itália e Estados Unidos, isso significou o isolamento das editoras independentes. A Libre cumpriu, evidentemente, um papel de reforçar o aspecto cultural do mercado editorial e de abrir perspectivas que mantiveram ativas, tanto economicamente, quanto do ponto de vista cultural, um grande número de editoras.

Para que questões estruturais sejam superadas, e o Brasil se transforme num país de leitores, é fundamental que os gestores públicos pensem num rol de problemas e de soluções pontuais, fazendo a cadeia produtiva do livro funcionar mais harmonicamente.

NOTAS

  1. “Catálogo Primavera dos Livros 2001”, publicado pela Libre. http://libre.org.br/artigo/42/primavera-dos-livros-2001.
  2. Hallewell, Laurence. O livro no Brasil – sua história. 2ª edição revista e ampliada, p. 748. São Paulo: Edusp, 2005.
  3. “Catálogo Primavera dos Livros 2002”, publicado pela Libre. http://libre.org.br/artigo/43/primavera-dos-livros-2002.
  4. Há bons verbetes em português e, principalmente, francês e inglês sobre bibliodiversidade na Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Bibliodiversidade. Para a ideia do preço fixo do livro, a versão francesa é a mais completa: http://fr.wikipedia.org/wiki/Prix_unique_du_livre.
  5. Vídeo “PMLLLB – Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca”, a partir de 2’43. http://youtu.be/GrkJ7UvNNe4.
  6. Essa análise foi apresentada pelo autor no seminário “A cadeia produtiva do Livro”, promovido pela Fundação Pedro Calmon, em Salvador-BA,
    em junho de 2012.
  7. COLLEU, Gilles. Editores independentes: da idade da razão à ofensiva, de Gilles Colleu (São Paulo: Libre, 2007) e SÁ EARP, Fábio e KOMIS,
    George. Proteger o Livro (São Paulo: Libre, 2006).
  8. SEREZA, Haroldo Ceravolo. “Brasil, país da diversidade e da bibliodiversidade”. Disponível em . Acesso em 26/2/2014.

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