por Aristides Oliveira
Recentemente tive a alegria de conhecer o trabalho da artista plástica Beatriz Lorena e gostaria de compartilhar essa experiência estética com vocês.
Meu nome é Beatriz, tenho 29 anos, nasci em Cachoeira Paulista, aos pés da Serra da Mantiqueira, e hoje moro em São paulo. Sou mãe, ceramista e desenho desde pequena com giz pastel oleoso, tinta acrílica e o bastão a óleo gosto de construir personagens e imagens que escapem um pouco da ideia de perfeição. Meu trabalho nasce desse interesse em olhar para aquilo que aprendemos a corrigir, esconder ou comparar e encontrar nessas características beleza, humor e singularidade.
Você lembra da primeira experiência que vivenciou com a pintura e que mudanças foram sentidas a partir da sua conexão com a arte?
Eu acho que a minha relação com a pintura e com o desenho começou muito antes de eu entender aquilo como uma pesquisa artística. Desde muito nova eu desenhava e observava muito as pessoas, mas por bastante tempo o meu olhar para os rostos também foi atravessado por uma coisa que acredito que muita gente, principalmente mulheres, conhece bem: o peso da comparação e da pressão estética.
Existe uma espécie de vigilância constante sobre a própria aparência. A gente aprende a se olhar o tempo todo, a comparar o nosso com o de outras pessoas, a identificar o que deveria ser diferente, menor, maior, mais simétrico, mais bonito. E acho que, sem perceber, acabamos levando esse mesmo olhar para os outros. Começamos a procurar certas características antes mesmo de perceber as pessoas.
Em algum momento, o desenho começou a fazer esse caminho inverso para mim. Passei a me interessar por aquilo que antes eu enxergava como imperfeição: um nariz muito grande, um rosto assimétrico, uma boca diferente, uma expressão estranha. Comecei a perceber que essas características eram justamente o que tornava aquele rosto interessante e impossível de confundir com qualquer outro.
Acho que foi aí que meu olhar começou a mudar. Desenhar passou a ser também uma maneira de desaprender um pouco essa lógica de comparação. Hoje, quando desenho um retrato, não estou muito interessada em corrigir ou em reproduzir uma ideia de beleza. Me interessa encontrar aquilo que faz aquele personagem ser ele. E talvez boa parte da minha pesquisa tenha nascido justamente desse deslocamento do olhar.


Como você concilia a rotina de trabalho com a pesquisa envolvendo seu projeto visual?
Essa é uma questão que ainda estou aprendendo a resolver. Eu trabalho em uma área completamente diferente da arte e, por isso, meu tempo de produção é bastante fragmentado. Não tenho uma rotina em que passo o dia inteiro no ateliê. Muitas vezes desenho ou trabalho com cerâmica quando consigo encaixar esses momentos na rotina, e isso acaba fazendo com que eu precise aproveitar muito o tempo que tenho. O importante para mim é continuar produzindo e observando, mesmo que em ritmos diferentes.

Que referências no mundo da arte lhe inspiram e como você conheceu esses nomes?
Hoje sinto que olho muito mais para artistas que estão produzindo perto de mim e que fazem sentido para o que eu também estou tentando construir. Gosto muito do trabalho da Mari Castello e da Daniele Estuani, que são artistas que trabalham com tatuagem e desenho e conseguiram desenvolver uma linguagem muito reconhecível. Gosto de olhar para o trabalho delas e perceber como uma escolha de traço, de forma ou de cor vai criando uma identidade sem precisar ser explicada.
A Marcia Falcão também é uma referência que gosto muito de acompanhar. Me interessa esse concatenado que ela faz de gestos, corpos e conflitos sociais.
A música também está muito presente na minha vida, principalmente por influência do meu marido. Por isso, capas de discos também são uma fonte enorme de referência para mim. As vezes é só uma combinação de cores ou uma imagem que fica na cabeça e, algum tempo depois, aparece em alguma coisa que estou desenhando.


Queria saber mais sobre o exercício estético que desenvolveu para tornar definir a identidade visual dos seus trabalhos, que os fazem ser únicos.
Acho que minha identidade visual foi muito mais descoberta do que planejada. Fui repetindo algumas coisas que me interessavam e, com o tempo, percebi que elas começaram a aparecer em praticamente tudo que eu fazia. Os retratos são uma dessas coisas. Gosto de desenhar pessoas sem tentar deixá-las proporcionais. Me interessam as diferenças, as formas inesperadas, os narizes, os contornos e principalmente aquilo que faz um rosto deixar de ser genérico. Também gosto muito do contraste de cores e de misturar elementos que talvez não fossem escolhidos juntos de maneira tão óbvia.


Que estratégias você está articulando para que sua arte amplie o raio de alcance nas redes sociais e internet em geral?
As redes sociais acabam sendo uma parte importante do meu trabalho porque são uma das principais formas pelas quais as pessoas conhecem o que eu faço. Tenho tentado não pensar nelas apenas como uma vitrine para mostrar o trabalho pronto, mas como uma forma de aproximar as pessoas do processo também. Hoje também tenho apostado em um crescimento mais orgânico, sem ficar tão presa à ideia de alcançar o maior número de pessoas possível. Quero construir esse público aos poucos, encontrando pessoas que realmente se interessem pelo que estou fazendo e que acompanhem esse processo comigo.



